Infecção urinária mal curada em crianças é uma das causas mais freqüentes de insuficiência renal. O médico pediatra e professor da Universidade de Brasília Celso Eduardo Santana disse que não é raro adolescentes precisarem de se submeter à diálise, devido às recidivas da infecção urinária infantil.

Em entrevista à Radiobrás, o pediatra informou que a incidência maior desse tipo de infecção é em crianças menores de dois anos e particularmente nas meninas; e que a causa principal é falta de higiene. “O orifício da uretra nas crianças do sexo feminino é muito próximo do ânus e a contaminação é bastante freqüente com a infecção urinária ascendente”, disse. O médico explicou que a infecção se deve sobretudo à falta de troca imediata de fralda, quando a criança defeca; e, ainda, à higienização mal feita. A limpeza deve ser feita completa e na direção correta, isto é, de frente para trás. Nunca em direção contrária, quando as fezes entram em contato com a vulva da criança, aconselhou o médico. Quando a higienização não é adequada pode ocorrer uma vulvovaginite, e a partir daí, a infecção urinária. Esse tipo de infecção tem causa secundária.

Há também uma causa estrutural para esse tipo de infecção: a má angulação dos ureteres em relação à bexiga. Celso Eduardo descreveu que no processo normal a urina formada nos rins, passa pelos ureteres e vai para a bexiga. A seguir, pelo canal urinário quando ela é eliminada. “As vezes a conexão dos ureteres com a bexiga não permite que ela seja completamente esvaziada e a urina residual provoca infecções”, afirmou. Essa ocorrência, mais rara que a secundária, ocorre em igual proporção em meninos e meninas. É o refluxo resico-ureteral.

Em crianças de até dois anos, os sintomas mais freqüentes de infecção urinária são uma febre inexplicada, de duração maior que dois dias, e distúrbio gastro-intestinal, como diarréia e vômito. “As crianças começam também a perder peso”, acrescentou. Em crianças maiores de 3 anos os sintomas são semelhantes aos dos adultos, quando há também retenção de urina, devido sobretudo à dor provocada pelo ato de urinar. “Alguns quadros de infecção urinária são assintomáticos e felizmente são raros, advertiu o pediatra. Todos os casos de infecção urinária podem causar danos aos rins que, a longo prazo, prejudicam o funcionamento.

Celso Eduardo enfatizou que toda infecção urinária deve ser tratada adequadamente, com prescrição de antibióticos. “No caso de reincidência de uma infecção urinária, o médico certo a ser procurado é um nefrologista”, disse. Esse especialista pode acompanhar melhor a evolução da doença e todo o processo de afastamento total de possibilidade de novas infecções. O pediatra disse que exames como ultrassom e cultura de urina são imprescindíveis. “O exame de urina comum, tipo EAS, é somente sugestivo da presença de infecção. A cultura é que irá determinar o tipo de bactéria infectante e o antibiótico adequado”, informou.

Cada infecção é fator acumulativo para prejudicar o funcionamento futuro dos rins. Celso Eduardo disse que para ter certeza de cura é necessário exames mensais durante os seis primeiros meses, após ser debelado os sintomas iniciais; bimensais nos seis meses seguintes e semestral no segundo ano. “Em resumo, nos primeiros dois anos depois de detectada a doença, a criança deve ser acompanhada, mesmo que não haja sintoma algum. Só assim pode ser afirmada a cura”, garantiu o médico.