A lavagem de mãos não é feita de maneira adequada e nem mesmo é um hábito de todos. No Brasil, pesquisas mostraram que apesar da maioria das mães (84%) dizerem lavar as mãos com sabonete após ir ao banheiro, 69% das crianças apresentaram coliformes fecais em suas mãos.

Esse percentual é maior em crianças de classes sociais mais baixas – coliformes fecais foram encontrados nas mãos de 77% das crianças da classe D; 71%, da classe C e 53%, da classe AB.

De acordo com dados da Unicef, 3,5 milhões de crianças menores de 5 anos morrem todos os anos por causa de doenças diarréicas e infecções respiratórias agudas.

Há uma diferença entre o comportamento alegado e o hábito de fato. “A maioria das pessoas diz que lavam as mãos, no entanto, quando checado, é possível observar que não é verdade”, diz a médica Myriam Sidibe, gerente de Missão Social de Lifebuoy, uma das idealizadoras de um estudo que investigou as mãos das crianças, conduzida pelo Ibope Inteligência.

Com o consentimento de suas mães, para mostrar o que realmente acontece no dia a dia, elas foram abordadas em saídas de escolas, áreas residenciais e comerciais, como shoppings, restaurantes, metrô, pontos de ônibus e parques.

Vômitos e diarreias

A pesquisa apontou que crianças de classes sociais mais baixas apresentaram maior percentual de bactérias. Das 200 crianças que realizaram o teste, 88% tinham coliformes fecais nas mãos.

Pesquisadores da Lifebuoy saíram às ruas para checar, por meio da análise do suor das mãos de crianças entre 4 e 12 anos, a presença de bactérias que podem causar doenças e sintomas como diarreia e vômitos.

O resultado surpreendeu: 69% das crianças brasileiras tinham coliformes fecais nas mãos. Dentre as crianças que fizeram o teste, 49% pertencem à classe C; 37%, às classes A e B; e 14%, à classe D.

A maioria delas afirmou ter lavado as mãos pela última vez a mais de uma hora antes do teste, sendo que 40% lavou as mãos antes de sair de casa e 32%, antes de comer.

O material foi coletado sempre da mão dominante dos entrevistados com uma haste flexível com algodão na ponta. A haste foi passada nas palmas das mãos das crianças, entre os dedos e embaixo das unhas.

Ao final, foi rearmazenada em um tubo de vidro, etiquetado com o número do questionário e com o nome da mãe e depositado em uma caixa com gel conservante, que manteve a temperatura até chegar ao laboratório.

Pesquisa revela que 69% das crianças carregam coliformes fecais nas mãos, micróbios responsáveis por diarreias, cólicas intestinais e vômitos.

Milhões de micróbios

Entre as bactérias encontradas estão Enterococcus e Escherichia Coli. A primeira bactéria é transmitida por meio de alimentos ou da água, podendo causar infecções urinárias e até meningite. Foi detectada em 59% dos casos.

A segunda, que tem como habitat natural o intestino humano, é causadora de intoxicação alimentar e gastrenterites (cujos sintomas são diarréias, vômitos e cólicas). Sua incidência foi comprovada em 13% das amostras.

De acordo Robert Aunger, especialista em Saúde Pública, transportamos em nossas mãos milhões de micróbios, em sua grande maioria, inofensivos. Entretanto, outros podem causar doenças como o resfriado comum, gripe, diarreia, hepatite e alguns tipos de men,ingite.

“A falta de hábito de lavar as mãos ou a lavagem não adequada pode possibilitar a disseminação de germes, transmitindo-os a outras pessoas pelo toque direto ou de objetos, a contaminação própria pelo toque nos olhos, no nariz, na boca ou um ferimento”, alerta o especialista.

Lavagem cuidadosa

Há uma lacuna entre o que a maioria das mães brasileiras acredita, faz, garante que seu filho faça e pensa que o outro faz. 84% das entrevistadas concordam que todos deveriam lavar as mãos com sabonete antes de comer, embora 76% digam o fazer de fato e apenas 36% achem que os brasileiros têm este hábito.

Apesar de a grande maioria, 84% delas, afirmar lavar suas próprias mãos com sabonete após ir ao banheiro, apenas 25% responderam que asseguram que seus filhos lavem as mãos com sabonete após ir ao banheiro.

As mulheres das regiões Norte e Nordeste – partes do país responsáveis por 50% do total de casos de mortalidade infantil, inclusive decorrente de falta de saneamento básico e higiene – foram as mais contundentes em afirmar não se importar em checar se seus filhos lavam as mãos com sabonete após usar o banheiro.

A lavagem, contudo, deve ser bastante cuidadosa. Simplesmente jogar água nas mãos, ou fazer uma lavagem de alguns segundos, de acordo com especialistas, não é suficiente para reduzir a quantidade de micróbios a níveis despreocupantes. É preciso utilizar água e sabão e esfregar por, pelo menos, um minuto.

Especialistas mais cautelosos recomendam a utilização de um álcool gel, usado constantemente pelo pessoal que trabalha na área de saúde. O gel deve ser esfregado nas mãos por cerca de três minutos.

Nos mínimos detalhes

Sem acessórios – Tire os anéis, pulseiras e relógios, que podem acumular microorganismos. Molhe as mãos com água, cubra-as com espuma de sabão e esfregue o dorso com a palma das mãos.

Todos os cantos – Lave as palmas das mãos com os dedos entrelaçados. Esfregue a extremidade e entre os dedos, e também embaixo das unhas, onde pode haver microorganismos escondidos.

Para fechar a torneira – Enxugue as mãos com uma toalha de papel e a use para fechar a torneira – não adianta lavar as mãos e voltar a tocar em locais infestados de vírus e bactérias.

Enxugar – Na falta de toalha de papel, não seque as mãos nas roupas, pois elas voltariam a ficar contaminadas. Durante toda a lavagem, deixe a torneira desligada para economizar água.

Tempo mínimo – 40 segundos é o tempo mínimo para uma lavagem adequada.

Número de vezes – Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ideal é lavar as mãos em no mínimo cinco ocasiões: banho, após utilizar o banheiro e antes das refeições (café da manhã, almoço e jantar).

Prevenção – 46% das infecções nos olhos, por exemplo, podem ser evitadas por meio de água e sabão.

Álcool gel – Deve ser usado na ausência de água e sabão. O efeito do produto é o mesmo da combinação desde que a concentração varie entre 50% e 70% na solução

Doenças – O uso do sabonete antes das refeições, no banho e após usar o banheiro seria responsável por reduzir 25% a incidência de diarreia e 15% o número de infecções respiratórias.