A tossinha chata, o aperto no peito, muitas vezes acompanhado daquele inconfundível chiado e principalmente uma incômoda falta de ar. Noites em claro por conta de tudo isso e ainda a angústia de ver sua prole sofrendo. Milhares de pais padecem junto a seus filhos devido aos efeitos da asma, doença que de acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde, em 2004, atingia cerca de 10% da população brasileira. Este quadro, porém, deve ser atenuado em breve. É que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso da medicação Alvesco (ciclesonida) para crianças acima de quatro anos. O laboratório alemão Altana Pharma, criador da fórmula, promete assim arrematar as inconveniências dos efeitos colaterais comuns aos tratamentos com corticóides.

O presidente da Associação Brasileira de Asmáticos (ABRA), Bernardo Kiertsman, diz que a grande vantagem do Alvesco em relação aos outros corticóides inaláveis é o fato de ser uma pró-droga, ou seja, a substância só é ativada dentro do pulmão, órgão alvo do tratamento. "Aquilo que a criança deglute e não vai para os pulmões, é eliminado sem efeitos colaterais."

O pneumologista pediátrico explica que os efeitos colaterais de uma medicação estão ligados à biodisponibilidade dela, que é o tempo que a substância permanece no organismo. "Quanto menor a biodisponibilidade, menor a chance de efeitos colaterais. E a biodisponibilidade do Alvesco é muito baixa."

Os possíveis efeitos colaterais desencadeados com o uso contínuo de corticóide são altamente prejudiciais às crianças. A gerente médica da Altana Pharma, Maristela Sampaio, destaca que entre esses efeitos estão o ganho de peso, a alteração da velocidade de crescimento da criança, a candidíase (o famoso sapinho), além da osteoporose. "Por isso, uma droga com a ação bastante localizada é interessante", diz a médica.

Uma outra vantagem do remédio seria o fato de necessitar apenas de uma única dose diária. O pneumologista pediátrico explica que por ser uma doença crônica – e a mais freqüente na pediatria – a asma necessita de um tratamento contínuo. "Só que muita gente só se trata durante os períodos de crise, mas eu acredito que bem menos pacientes vão desistir deste tratamento por ser em dose única e ter menos efeitos colaterais."

Kiertsman diz que muitos fatores podem desencadear a doença e cita a poeira, pêlos de animais, odores fortes, fumaça de cigarro e até estresse. "A asma é uma doença para quem pode e não para quem quer. Só quem nasceu geneticamente marcado para isso vai desenvolvê-la diante de alguns fatores."

O médico aconselha que o ideal é manter o brônquio com o mínimo de inflamação para não se entrar em crise mesmo após o contato com um fator de risco. "E é por isso que o tratamento é profilático e contínuo e os melhores medicamentos são mesmo os corticóides antiinflamatórios".

Mitos e verdades

Pelos efeitos provenientes do corticóide, muitos pacientes descontinuam o tratamento recomendado pelo especialista. Esse é o caso da engenheira florestal Dione Castilho de Albuquerque Araújo, mãe de Sol Castilho Araújo de Moraes Filho, de 8 anos. Mãe e filho são asmáticos. "A minha primeira crise foi aos 7 anos e a do Sol, com um ano e meio", conta a pernambucana que reside em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Mãe e filho não fazem tratamento contínuo. Segundo Dione, ela fica dois, três anos sem ter uma crise de asma. Já a última crise de Sol foi há duas semanas. "Ele não consegue falar direito e daí fica ansioso e piora. Ele diz: ‘não tô conseguindo respirar, não tô conseguindo respirar’", conta.

Dione explica que durante alguns períodos, Sol segue tratamentos profiláticos com o xarope celestamine, receitado pelo médico. "Sei que quando ele pára de tomar a medicação, a imunidade é suspensa, mas eu tenho medo de dar corticóide direto, pois mexe com tudo, favorece o surgimento de diabete, por exemplo, e como já tenho casos na família, prefiro suspender o xarope", conta.

Tratamento contínuo e paralelo

Dione diz ainda que agora que seu filho está maior, em épocas de crise, entra com tratamentos à base de vaporização. A gerente da Altana Pharma explica que o Alvesco pode ser manipulado junto com outros medicamentos, principalmente durante as crises. "Alguns outros tratamentos, como o bronco dilatador, aliviam os sintomas, por isso são importantes. Já o Alvesco é preventivo."

Maristela diz que a indicação da quantidade de Alvesco, bem como o seu uso combinado a outras medicações fica a critério do médico. Atualmente, o Alvesco é vendido em quatro versões, em 60 e 120 doses e 80 microgramas e em 60 e 120 doses de 160 microgramas. Os preços variam de R$ 65 a R$ 98.

Pesquisas e lançamento

A Alterna Pharma divulgou que a ciclesonida foi identificada no início da década de 90. Ao longo dos primeiros anos de pesquisa, um grande programa de desenvolvimento clínico internacional foi conduzido para garantir um tratamento eficiente e seguro em todas os graus de intensidade da asma.

Segundo o laboratório, mais de 8 mil pacientes foram avaliados em estudos clínicos, sendo que o programa de pesquisa nos EUA é considerado um dos maiores na área respiratória. "Mas o Brasil também participou de alguns desses estudos", garante a gerente médica Maristela.

Liberado para o uso adulto no Brasil em 2004, a medicação foi lançada no País no primeiro semestre de 2005. Em dezembro do mesmo ano, a Anvisa, através da Resolução RE 3319, liberou o uso para crianças acima de 4 anos. "O Brasil é o primeiro país do mundo a comercializar o Alvesco para essa faixa etária, mas o lançamento da medicação para crianças de outros países também deve acontecer em breve", diz Maristela. O lançamento nacional do Alvesco para crianças acima de quatro anos ocorre no dia 7 de abril, quando acontecem eventos para pneumopediatras de São Paulo, Curitiba, Salvador e Rio de Janeiro. A empresa já estuda a aplicação da pró-droga para crianças acima de dois anos.

Serviço:

Dr. Bernardo Kiertsman, pneumologista pediátrico.

Tel.: (11) 3845-5777.