A diretora Ariene Badoch: faltam campanhas.

O pequeno número de doações de órgãos ainda faz com que muita gente morra na fila de espera por um transplante. Mas o problema poderia ser minimizado se todos os órgãos disponíveis fossem aproveitados. Alguns hospitais não têm equipes preparadas para detectar possíveis doadores e, por falta de informação, alguns familiares se mostram reticentes na hora de ceder os órgãos. Até o final de agosto deste ano, 3,8 mil pessoas estavam aguardando uma cirurgia no Paraná – só a espera por um fígado reunia 429 pessoas. Sabe-se que cerca de 20% delas não vão conseguir aguardar até cinco anos por um transplante.

 

A Central de Transplantes no Paraná foi criada em 1996. Durante esse período chegou a haver um aumento no número de doações de órgãos, mas hoje os números mostram que na maioria dos casos as doações voltaram ao patamar de anos atrás. De fígado foram 35 em 1996, chegando a 45 em 2002, mas em 2003 o número voltou a cair para 32. É o transplante intervivos que está salvando a vida de muita gente.

A diretora da Central de Transplantes, Arlene Badoch, explica que um dos motivos da redução das doações é a falta de campanhas contínuas. Segundo ela, se fossem aproveitados os órgãos de todas as pessoas que perdem a vida por morte encefálica, a fila andaria mais rápido. Por ano, 55 mil pessoas morrem no Paraná, e cerca de 1%, ou seja 550, se enquadram nesse perfil. Calcula-se que desse total, pelo menos 125 poderiam ser doadores, salvando a vida de diversas pessoas, já que de um corpo podem ser retirados vários órgãos como os rins, pâncreas, fígado e coração.

Mas os números revelam que a diferença de órgãos disponíveis e a quantidade de cirurgias feitas é muito grande. Dos 231 transplantes de rim feitos no ano passado, apenas 54 vieram de pessoas mortas. Pelo menos outras 142 pessoas poderiam ter feito o transplante. Outro dado que mostra a diminuição dos transplantes diz respeito às intervenções de rim: em 1996 foram feitas 111 doações do órgão, em 2000 caiu para 68 e até o fim de agosto deste ano o número estava em 45 doações. Enquanto isso, 2.186 pessoas estão na fila de espera.

Arlene explica que muitos órgãos não são aproveitados porque alguns hospitais não têm equipes preparadas para identificar possíveis doadores, e os casos não são comunicados à Central de Transplantes. “Nós estamos fazendo reuniões com os hospitais, mostrando por meio das estatísticas a quantidade de transplantes que poderiam ser feitos”, conta. Durante os meses de setembro e outubro, onze hospitais de Curitiba e Região Metropolitana estão participando de um treinamento sobre o tema, além de universidades e empresas. “Os cursos de Medicina também não incluem o tema transplante em suas atividades”, observa.

Desinformação

Por falta de informação, os familiares também hesitam na hora de fazer a doação. Arlene explica que pelo menos dois profissionais fazem o diagnóstico de morte encefálica, além de uma série de exames que atestam o óbito. A doação também obedece uma ordem, e cada órgão tem critérios diferentes, que incluem a compatibilidade e o tempo de espera na fila.

Arlene chama a atenção dos próprios receptores para que se engajem em atividades que debatam o assunto, e levem informação para a população. “Sabemos que é responsabilidade do estado, mas só vamos resolver o problema se toda a sociedade se envolver”, afirma.

Até o fim de agosto estavam na lista de espera da Central de Transplantes do Paraná 3.880 pessoas, sendo 56 delas por coração, 1.129 para córnea, 429 para fígado e 2.186 que aguardam um rim. A maioria é do sexo masculino, num total de 1.777 homens.

Sesa promove campanha de conscientização

Cerca de 60 mil pessoas estão na fila de espera por um transplante de órgão no Brasil. Desse total, 3,8 mil estão no Paraná. Para tentar diminuir esses números, o governo aposta na conscientização das pessoas. Por isso vai desenvolver ao longo desta semana uma série de iniciativas para informar à população sobre a doação de órgãos.

A II Campanha Estadual de Divulgação, Conscientização e Esclarecimento Sobre Doação de Órgãos e Tecidos do Paraná e a VI Campanha Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos foram lançadas ontem, em Curitiba. A programação contou com uma missa de ação de graças na Catedral Basílica, e teve a participação de familiares de doadores e receptores. Eles também participaram de uma caminhada pela Rua XV de Novembro, onde fizeram a distribuição de material informativo sobre doação.

Meta

De acordo com o secretário estadual da Saúde, Cláudio Xavier, a meta do Estado é baixar cada vez mais o número de pacientes na fila de espera. E para isso, acredita que a informação e conscientização da população seja a melhor forma. “Durante essa semana vamos estar trabalhando nas escolas, nas ruas, nos meios de comunicação e em todos os lugares onde seja possível levar a informação para as pessoas”, finalizou. (Rosângela Oliveira)

Transplantes intervivos reduzem fila do fígado

Hoje estão na fila de espera por um fígado 429 pessoas. No ano passado foram feitas 92 cirurgias no Paraná, sendo apenas 32 por doações de pessoas mortas. Geralmente, os doadores vivos são familiares e amigos próximos do paciente. Quando o doente não tem ninguém com o perfil certo nesse meio para o transplante, as coisas complicam. O mais grave é que, se a doença avança, não existe qualquer remédio ou tratamento que mantenha o paciente vivo. Muitos precisam esperar até cinco anos por um doador, e isso faz com que entre 15% e 20% morram.

Maria José Bento Alves, 48 anos, teve hepatite B e acabou tendo o funcionamento do seu fígado prejudicado. Ela chegou a entrar na fila de espera, mas sabia que não tinha muito tempo de vida. Conta que no mês de julho as internações começaram a ficar freqüentes e já não podia mais fazer o trabalho doméstico. A solução foi procurar um doador na própria família.

O filho mais novo, Moacir Alves Júnior, 23 anos, tinha o perfil adequado e a cirurgia foi realizada no último dia 18. Os médicos retiraram um pedaço do fígado dele para implantar em Maria. Agora, os dois órgãos devem se regenerar, voltando ao tamanho normal, com todas as suas funções. “Sabia que o meu sonho ia ser realizado. Tinha fé em Deus que tudo daria certo”, comenta a mãe, em agradecimento ao filho. Agora Maria espera pela alta para poder voltar para casa em Ourizona, norte do Paraná. “Mas não tenho pressa. Só quero ficar boa”, completa.

Avanços

O chefe do Serviço de Transplante Hepático do Hospital de Clínicas, Júlio Coelho, explica que nos últimos anos houve muitos avanços na área de transplantes. Os novos imunossupressores ajudaram a melhorar o controle da rejeição do órgão pelo corpo. Eles também têm baixa dosagem e os efeitos colaterais diminuíram. Em entre seis meses e um ano depois da cirurgia os pacientes voltam a ter uma vida normal.

Além disso, até pouco tempo atrás, o transplante de fígado só ocorria com órgãos retirados de cadáveres. Mas, desde 1998, os transplantes intervivos já salvaram a vida de cerca de 180 pessoas no Paraná. (EW)