É perceptível a mudança no perfil da sociedade atual. Antes parecia improvável alcançar os 70 ou 80 anos de idade com saúde e disposição.

Hoje, com o avanço da medicina, não há mais a ligação estreita entre idade avançada e doença.

Nesta faixa etária, a doença mais incidente e que leva os idosos a sofrer de comorbidades é a depressão.

Estima-se que em 2050, a terceira idade representará um quinto da população brasileira, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). De acordo com o neurologista, geriatra e gerontólogo Luiz Carlos Benthien, do Hospital Pilar, esse aumento na expectativa de vida ocorre, entre outros fatores, devido ao acesso à informação que o idoso recebe sobre como envelhecer de forma saudável. Porém, para o especialista, poucos têm a oportunidade de conhecer os sintomas e a gravidade da depressão.

“Uma grande maioria de profissionais médicos não valoriza suficientemente o aspecto depressivo do idoso, alegando tratar-se de um estado mental próprio do envelhecimento normal, e, consequentemente, deixam de fazer a investigação precisa e o diagnóstico correto, tratando-os inadequadamente”, alerta o neurogeriatra.

Perdas afetivas

A depressão aumenta com a terceira idade devido a inúmeros fatores. Segundo Benthien, um dos principais aspectos que levam a este estado emocional é a aposentadoria.

“Essa falsa ilusão de alegria tende a ser transitória”, reconhece o médico. Para o especialista, em três meses de ociosidade até que as “coisas” andam bem, porém, o que se percebe é que após esse período o idoso muitas vezes passa a ficar depressivo.

O declínio fisiológico, as alterações orgânicas próprias da faixa etária, as perdas tanto afetivas quanto sociais e a marginalização social e familiar são os grandes vilões da depressão, segundo Benthien.

A tendência de algumas pessoas é reduzir a atividade social dos idosos, que fica restrito a visitar amigos doentes em casa ou no hospital, além de marcar presença em velórios.

De acordo com o especialista em clínica médica Abrão José Cury Júnior, essas atitudes acabam entristecendo os idosos, que passam a acreditar que só lhes resta esperar pelo fim.

E o pior, na constatação do especialista, é que a família acaba contribuindo sobremaneira para essa situação ao isolar o idoso por causa, principalmente, das suas limitações físicas.

Síndrome

“A medicina oferece às pessoas idosas a possibilidade de ter uma vida social ativa e de boa qualidade”, reitera Cury. Com a ajuda de medicamentos, fisioterapia, próteses auditivas e articulares, eles conseguem melhorar a sua qualidade de vida e deixar de ser um “peso morto” para a família.

Além de atividades físicas adequadas à idade, o idoso deve ser estimulado, por meio de exercícios mentais, como conversar, ler e se ocupar. “Ao invés de colocar alguém para cuidar do avô, dê algo para ele cuidar”, aconselha o médico.

Luiz Carlos Benthien explica que a depressão não é uma doença isolada e sim uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas. “A depressão é decorrente da disfunção do neurotransmissor serotonina – uma molécula envolvida na comunicação entre as células do cérebro (neurônios) – que, com tratamentos medicamentosos ou não pode ser reequilibrada no organismo”, garante o neurogeriatra.

Além disso, muitas doenças podem surgir devido a uma depressão, pois o distúrbio altera a vigilância imunológica das pessoas, tornando-as vulneráveis a muitas outras doenças.

“Alzheimer, acidente vascular cerebral (AVC), problemas cardíacos, demências e também morte precoce estão entre as consequências de um diagnóstico e tratamento inadequado”, alerta o especialista.

Por outro lado, algumas atitudes protegem o organismo dos idosos contra os surtos depressivos, como por exemplo, a aceitação familiar e social, exercícios f&iacute,;sicos adequados à terceira idade, atividades sociais, hobbies, trabalho, tratamento medicamentoso quando necessário e terapias de grupos familiares para esclarecer dúvidas.

Como identificar a depressão

Alguns sintomas da depressão são comuns entre os idosos que apresentam quadro depressivo. Apatia, indiferença, esquecimentos frequentes, choro fácil, mau humor constante, angústia, ansiedade, tristeza, falta de energia, anorexia e emagrecimento são sinais de que algo não está bem. Para Luiz Carlos Benthien, é importante observar e valorizar mudanças de atitudes e comportamento.

De acordo com o médico, o tratamento precoce e correto pode prevenir males que seguramente virão em seqüência se a depressão não for tratada. “Ser velho não é ser triste, por isso devemos valorizar as queixas e o comportamento apático e não desvalorizar, acreditando ser ‘coisa’ da velhice”, completa o neurogeriatra.