Uma nova técnica de cirurgia cardíaca acaba de ser patenteada por um brasileiro. O sistema é muito simples, mas capaz de adiar uma operação de alta complexidade e fundamental para a sobrevivência de bebês que nascem com o ventrículo esquerdo atrofiado, comprometendo a circulação.

A doença, chamada de síndrome da hipoplasia do ventrículo esquerdo, é a mais diagnosticada na vida intra-uterina e tem incidência de 0,6 para cada mil bebês nascidos vivos – a incidência de síndrome de Down, por exemplo, é de um para cada 800 bebês. A hipoplasia é responsável por 22% de todas as mortes cardíacas de bebês na primeira semana de vida.

A técnica mais comum usada mundialmente para reconstituir as funções do lado esquerdo foi criada há mais de 20 anos e leva o sobrenome do criador, o médico americano William Norwood. A Norwood tem três etapas. A mais delicada é a primeira, que deve ser feita no recém-nascido. É justamente essa etapa que pode ser substituída pela técnica brasileira.

Um coração normal tem dois ventrículos (bombas cardíacas). O direito bombeia o sangue para os pulmões, onde ele é oxigenado. O esquerdo (com defeito em quem sofre da síndrome) distribui o sangue já oxigenado para o corpo.

Na cirurgia convencional, o cirurgião redireciona o ventrículo direito para a aorta (principal artéria que nasce do coração), por onde o sangue vai ser distribuído para o corpo. O fluxo sangüíneo para os pulmões é restabelecido por meio de um tubo sintético. Mesmo assim, o bebê corre o risco de sofrer de hipertensão pulmonar (o pulmão ainda recebe mais sangue do que pode suportar) até ser submetido às outras duas etapas da cirurgia, aos 5 meses e aos 18 meses.

Esse tratamento ainda tem resultados desanimadores, com mais de 50% de possibilidade de morte. "É uma cirurgia enorme para um paciente minúsculo. Ele fica no mínimo 20 dias hospitalizado e tem de tomar várias drogas", explica o cirurgião cardíaco Renato Assad, do Instituto do Coração (Incor) e do Hospital Samaritano, em São Paulo.

Assad é o criador da nova técnica capaz de adiar essa primeira etapa até que a criança esteja em condições de correr menos risco, com mais peso e os demais órgãos mais fortalecidos. O médico criou anéis de silicone ajustáveis para ser colocados nas artérias pulmonares. Esses anéis são ligados por um tubo, também de silicone, o qual é ligado a um botão fixado sob a pele do paciente. O diâmetro do anel é controlado pelo botão. Para regular o fluxo de sangue das artérias, ele injeta (para afrouxar o vaso) ou aspira pelo botão água destilada, com uma seringa.

Para manter o fluxo sanguíneo do ventrículo esquerdo, o médico deixa aberta a artéria chamada canal arterial com um stent (espécie de mola). Essa artéria, que é ligada ao ventrículo defeituoso, é importante para o feto (transporta o sangue da placenta). Depois do nascimento, ela perde a função e, com isso, vai fechando progressivamente. O canal mantido aberto com o stent ajuda no fluxo sanguíneo do corpo. A técnica toda foi batizada de Assad Banding System (ABS).

A equipe médica aposta que a ABS possa aumentar em 90% a chance de sobrevivência do pequeno paciente. Gabriela Rodrigues, de 5 meses, é o primeiro caso bem-sucedido. "O médico me deu as duas opções. Não dá para ter dúvidas se uma oferece mais chances de sobrevivência e faz com que minha filha fique menos tempo internada", conta Thaisa, mãe da menina. "Foram quatro horas e meia de operação." A convencional levaria o dobro do tempo.