Imagine-se em uma sauna tentando se olhar no espelho para fazer a barba, dificilmente, conseguirá enxergar com nitidez alguma coisa. É assim que os portadores de catarata, doença responsável por 48% da cegueira senil no mun Principal causa de cegueira reversível no mundo, a catarata é a perda da transparência da lente presente no interior do olho, chamada de cristalino, e leva à queda progressiva da visão. De acordo com o oftalmologista Osny Sedano, a opacificação do cristalino é o que compromete a focalização das imagens no interior do olho. O médico explica que o distúrbio está associado ao envelhecimento (é comum os oftalmologistas afirmarem que quem viver mais tempo, com certeza, sofrerá de catarata), mas pode ter como causa outros fatores, como problemas congênitos ou a má formação do cristalino. “Para eliminar a doença, por enquanto, só a cirurgia resolve”, esclarece o especialista.

Não esperar os prejuízos

O oftalmologista Paulo Fadel comenta que na medida em que a catarata avança, os óculos não mais resolvem o problema da visão e a pessoa é obrigada a aproximar os objetos dos olhos para conseguir identificá-los com clareza. Devido a esse problema, os raios luminosos que penetram no interior do olho não conseguem atingir a retina e a visão apresenta-se nublada. Quando a catarata começa a se desenvolver, o cristalino, explica o médico, fica “como se fosse um vidro nublado”, não permitindo uma visão nítida.

Foi após uma cirurgia bem sucedida que a dona-de-casa Maria Alice Gonzaga Dias, de 72 anos, recuperou o “gosto” pela vida. “Costurei a vida inteira, só parei porque não enxergava direito, agora vou reativar minha caixa de costuras”, comemora, indagando, “será que eu ainda lembro como se faz?”. A cirurgia vem se tornando cada vez mais acessível a população.

De acordo com a oftalmologista Marcela Cypel, a maioria dos pacientes deixa para procurar um especialista quando já não enxergam quase nada. Ela explica que, além de reduzir a visão, a catarata induz à perda de discriminação das cores e à diminuição de sensibilidade de contraste. “Por isso, é comum que as pessoas deixem de fazer suas atividades diárias por causa da baixa visão provocada pela catarata”, reconhece.

Para a médica, o tempo certo para buscar tratamento varia de acordo com a necessidade de visão de cada paciente. Assim, se existe a necessidade de uma visão bastante apurada devido ao trabalho, a recomendação é de que o paciente procure um oftalmologista assim que sentir necessidade de enxergar melhor. Se para outra pessoa, no entanto, não existe tanto problema com a visão, ele até pode esperar um pouco. “O ideal mesmo é não esperar que os prejuízos na visão atrapalhem a rotina diária”, avalia.

Um Brasil sem catarata

O Ministério da Saúde, como parte de uma política formalizada em conjunto com a classe oftalmológica e parlamentares, deverá dispor de financiamento extra e permanente para o custeio de cirurgias contra a doença. A previsão de Hamilton Moreira, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) é que a cirurgia entre na rotina do sistema público a partir do próximo ano, para erradicar a cegueira provocada pela catarata. Enquanto isso,
o País ainda luta contra a desinformação, que faz com que 26 mil pessoas aguardem por um gesto solidário, enquanto aguardam na fila dos transplantes de córneas. Esse cenário de contrastes estará em debate no III Fórum Nacional de Saúde Ocular, que será realizado em 30 de outubro, em Brasília, uma promoção conjunta do CBO e entidades governamentais.

Para Hamilton Moreira, a nova realidade que começa a surgir no país é o foco na oftalmologia preventiva. Para isso, o Projeto Olhar Brasil surge como mais uma esperança para ir de encontro a essa realidade. A expectativa é de que em dois anos mais de 45 milhões de pessoas passem por consultas especializadas.