O bom jornalista Fernando Rudnick, em matéria na Gazeta do Povo, sugere que Weverton, do Atlético, “é um lenda em construção”. Tenho escrito sobre a grandiosidade do goleiro. Mas, foi feliz Rudnick em colocar a construção em um estágio indefinido.
É que uma história, por mais bela que seja, é uma história. Daí para se transformar em lenda, é um caso complexo, exigindo um personagem de tamanha magnitude, que autoriza misturar fantasias à realidade. E, nos dias de hoje, não é fácil terminar a construção de uma lenda. O autor da história nada pode esconder, e todos fatos são vistos, gravados e guardados. Não há lenda, sem mistérios.
No futebol de casa, há poucas lendas.
A maior delas é Caju, goleiro do Atlético nos anos quarenta. Já passam por meio século, por três gerações de atleticanos, e as suas histórias continuam sendo contadas em várias versões. Será verdade que Caju era capaz de estender o corpo no ar, em horizontal, quase rente à trave superior, para evitar um gol eminente? A sua grandeza real deixa à solta e protege a sua história imaginada. Isso é lenda.
O atacante Zé Roberto, o maior jogador da história dos coxas, é uma lenda. Zé fez tantas e boas, que seu talento com a bola desafiou a lógica da racionalinalidade física para jogar futebol. Zé foi tão ilógico que sempre é visto, no Couto Pereira, carregado e entregue às novas gerações coxas, pelo imaginário de quem viveu a sua época. Isso é lenda.
Evangelino da Costa Neves, viveu tão intensamente e fez tanto pelo Coritiba, que quando morreu, já era uma lenda. Tudo o que se conta do “Chinês” no mínimo é meio verdade. É que quando ele contava o que fez, gostava de deixar a dúvida sobre o que não fez. Seu sorriso cheio de malícia, que tinha harmonia com o movimento dos olhos orientais, deixava todos curiosos. Evangelino, contando o que teria feito nos dias que antecederam o título brasileiro do Coritiba, em 1985, dava para escrever uma bíblia. Gostava e incentivava narrativas que ficavam alienadas à imaginação. Os excessos das suas histórias narradas hoje, podem ser verdades. Isso é lenda.
Nos nossos dias, há uma lenda viva que foi construída “tijolo por tijolo num desenho mágico”: Mário Celso Petraglia. Deus queira, que para o Atlético, “não acabe no chão feito um pacote flácido”, como o personagem da “Construção”, de Chico Buarque de Holanda.
Isso já é lenda. Só não sei se é para o bem ou para o mal. Depende do final da saga financeira da Baixada. E depende de quem irá escrever a história.