A garota mais popular da escola – loira, olhos claros e angelicais – é misteriosamente assassinada em sua – pequena e provinciana – cidade. Os segredos que rondam aquela morte transformam a rotina do lugar. Um homem de outra cidade chega e começa a investigar o crime. Se você leu essa pequena descrição e acho que estávamos falando de Twin Peaks está enganado. Essa é a sinopse de A Verdade sobre o caso Harry Quebert (Intrínseca, 576 págs., R$ 39,90), de Joël Dicker, de longe o pior livro do ano.

Mesmo carregando nas costas um “importante” prêmio, uma lindíssima capa e duas páginas de “recomendações” de jornais de todo o mundo, o livro não se sustenta. A história em si permite milhares de desdobramentos, incluindo os sobrenaturais, como no caso da série de David Lynch, mas Dicker se apoia no fútil e no superficial. Como se não bastasse, A Verdade sobre o caso Harry Quebert é, essencialmente, mal escrito.

O estilo pobre e presunçoso de Dicker faz com que o leitor se sinta enganado – para dizer o mínimo. O grande turbilhão de marketing feito sobre o livro é derretido na fogueira infértil da vaidade de um autor limitado, pautado no óbvio e no trivial. Cada capítulo do livro é precedido por um ensinamento de Quebert a Marcus Goldman, um escritor best-seller que sofre um bloqueio criativo e tenta encontrar ajuda nos conselhos do antigo professor?amigo?mentor. O problema é que Goldman termina por ter que provar inocência do seu ídolo de barro na morte de Nola (a tal garota popular).

Voltando aos ensinamentos de Quebert, Dicker cria uma combinação bizarra de autoajuda literária com uma dose cavalar de condescendência. Além disso, os diálogos são forçados, coalhados e perdidos. É impossível ler o livro e não sentir dó do autor por ter desperdiçado tanto tempo de sua vida em algo tão frágil e mal construído.

De forma geral, o jovem autor suíço, que chegou a ser considerado um prodígio (do quê?), não carrega nas mãos a mesma pena que os autores que ele tenta imitar. Bem, agora, só me resta pedir perdão pela sinceridade.