Filmes eróticos e pornôs sempre foram tabus na sociedade, vistos com maus olhos, principalmente pela elite conservadora, porém apreciados por muitos de forma velada. A pornochanchada não ficou de fora da depreciação. O gênero que surgiu no início dos anos 70 tinha referências na chanchada – comédia musical hollywoodiana de baixo orçamento – mas com erotismo, linguagem chula e violência.

Pra quem não se lembra, o Brasil vivia nesta época pelo regime militar e, com isso, em um período de grande censura. Através de lei de incentivo, o governo tornou obrigatório a exibição de produção nacional nos cinemas, a fim de conseguir concorrer com produções norte-americanas, a pornochanchada, então, chegou às telonas do país. Mesmo em um momento cheio de restrições, esses filmes conseguiam exibições por não conter cenas de sexo explícito, mostrando apenas simulação e pessoas nuas.

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Linguagem banal, muitos peitos e bundas e sem crítica social. Digamos que a pornochanchada era vista como “Dedo no c* e gritaria” da época, certo? Não. Não foi assim para Fernanda Pessoa. Por intermédio de uma pesquisa com 150 produções do gênero, a cineasta identificou que esses filmes falavam muito mais do que apenas pegação dos “pelados nus com a mão no bolso”. Havia uma certa crítica social, econômica, de busca de igualdade de gênero e discussão de assuntos polêmicos, como o aborto. Com todo esse material e mãos, ela separou 28 filmes e presenteou o público com o documentário “Histórias que Nosso Cinema (não) Contava”. Veja o trailer:

O processo de pesquisa durou cinco anos, sendo dois de catalogação e três de montagem. Durante este processo, teve apoio do montador Luiz Cruz. Fernanda revela que as dificuldades encontradas para finalização do documentário foram conseguir os direitos das obras, e superar a má preservação ou precarização de algumas delas. O difícil acesso a alguns dos outros filmes forçou a cineasta a buscá-las nas reproduções onlines, como o YouTube.

Em entrevista para o blog Não é Spoiler, Fernanda conta que o surgimento da pesquisa veio com o seu trabalho de catalogação de fotos do cinema brasileiro dos anos 70 na Filmoteca da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Assistindo aos filmes da época, teve o privilégio de conhecer as filmografias de Davi Cardoso e Jean Garreto, por exemplo, dois ícones deste tipo de produção. Ao ver essas obras, a cineasta explica que percebeu uma representação histórica nelas. A ideia de fazer um documentário, no entanto, surgiu após a conclusão de seu mestrado na França.

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Sobre o documentário, a cineasta conta que não acha que esses filmes tenham necessariamente um cunho político ou social, porém eles revelam algo. A base do roteiro geralmente era os assuntos ligados ao dia-a-dia da época, como o cotidiano dos trabalhadores da classe média, a piada sobre a inflação, o milagre econômico e o êxodo rural. Mesmo assim, ela não descarta que alguns tinham uma pretensão de crítica social e cita como exemplo Antônio Calmon, cineasta do Boca do Lixo (filmes de baixo orçamento produzidos com poucos recursos).

Cena do documentário. Foto: Reprodução
Cena do documentário. Foto: Reprodução

Ao contrário do Boca do Lixo, que atualmente é considerado arte, a pornochanchada ainda é vista de forma pejorativa. É justamente por esse motivo que Fernanda Pessoa tenta usá-lo para quebrar esse paradigma e revelar que há um movimento artístico nele.

Além dos os críticos, a esquerda e a direita também não gostavam dos filmes da pornochanchada. As produções eram consideradas alienantes, despolitizadas, de mau gosto. A direita, ia além. Dizia que esses longas mostravam um Brasil oposto do que a Ditadura Militar queria mostrar. “Ninguém gostava da pornochanchada, só o público, afinal eram filmes de grande bilheteria”, conclui.

Mesmo retratando uma época passada, “Histórias que Nosso Cinema (não) Contava” também traz problemas que, segundo Fernanda, ainda não foram resolvidos, como a discussão do aborto, o problema econômico, o preconceito racial e sexual.A falta de representatividade étnica, o machismo e o patriarcado e a apresentação estereotipada dos homossexuais de forma exagerada são “heranças malditas” ainda presentes na sociedade atual.

Outro problema é o medo fantasioso do comunismo que volta assombrar uma parcela do brasileiro. “Parece que essa época de pré-eleição, esses assuntos ficaram mais atuais, é engraçado”, comenta a cineasta.

Cena do documentário. Foto: Reprodução
Cena do documentário. Foto: Reprodução

Histórias que Nosso Cinema (não) Contava” é uma verdadeira aula cinematográfica sobre um momento histórico que, pra quem não faltou às aulas história, sabe da lastimável situação que o povo brasileiro viveu entre a década de 60 e 80. Se você tem a liberdade de falar em qual candidato quer votar hoje em dia, sem repressão, agradeça por isso.

Assim como o samba, que inicialmente não era nem considerado um gênero musical, sendo uma subcultura de uma classe de minoria, a pornochanchada acaba passando pelo mesmo problema. É mais ou menos a mesma situação enfrentada pelo funk carioca nos dias de hoje.

Eu ainda espero ver as madames futuramente ouvindo Anitta e tomando o seu Chandon.

Filmes que aparecem no documentário

• “1001 Posições do Amor” (1978), de Carlo Mossy
• “19 Mulheres e Um Homem” (1977), de David Cardoso
• “A Super Fêmea” (1973), de Anibal Massaini Neto
• “Amadas e Violentadas” (1976), de Jean Garret
• “Amante Muito Louca” (1973), de Denoy de Oliveira
• “Árvore dos Sexos” (1977), de Sílvio de Abreu
• “Aventuras Amorosas de Um Padeiro” (1975), de Waldir Onofre
• “Bonitas e Gostosas” (1978), de Carlo Mossy
• “Cada Um Dá o Que Tem” (1975), de Adriano Stuart, John Herbert e Sílvio de Abreu
• “Café na Cama” (1973), de Alberto Pieralisi
• “Colegiais e Lições de Sexo” (1980), de Juan Bajon
• “Corpo Devasso” (1980), de Alfredo Sternheim
• “E Agora José – A Tortura do Sexo” (1979), de Ody Fraga
• “Elas São do Baralho” (1977), de Sílvio de Abreu
• “Eu Transo, Ela Transa” (1972), de Pedro Camargo
• “Gente Fina é Outra Coisa” (1977), de Antônio Calmon
• “Histórias Que Nossas Babás Não Contavam” (1979), de Osvaldo de Oliveira
• “Inseto do Amor” (1980), de Fauzi Mansur
• “Manicures a Domicílio” (1978), de Carlo Mossy
• “Noite em Chamas” (1977), de Jean Garret
• “Nos Embalos de Ipanema” (1978), de Antônio Calmon
• “O Bom Marido” (1978), de Antônio Calmon
• “O Enterro da Cafetina” (1971), de Alberto Pieralisi
• “Os Mansos” (1973), de Braz Chediak
• “Palácio de Vênus” (1980), de Ody Fraga
• “Porão das Condenadas” (1979), de Francisco Cavalcanti
• “Terror e Êxtase” (1979), de Antônio Calmon
• “Vítimas do Prazer – Snuff” (1977), de Cláudio Cunha

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Novo documentário

Fernanda Pessoa termina revelando o seu próximo filme. Desta vez, um documentário sobre experiência própria na época em que fez intercâmbio nos EUA e viveu em uma cidade considerada hoje a mais conservadora do país norte-americano, segundo duas universidades da região. O filme se chama Zona Arida e tem produção pela Grafo Audiovisual, produtora de Curitiba.

História que Nosso Cinema (não) Contava” estreou na última quinta (23) nos cinemas de Curitiba.

Avaliação: ⭐⭐⭐⭐
Pra quem gosta: documentário
Pra assistir: com amigos ou sozinho
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