Os amantes do gênero horror vão ter motivo de sobra pra ir ao cinema neste final de semana. Um dos filmes nacionais mais aguardados de 2018, “O Animal Cordial” marca a estreia da diretora Gabriela Amaral Almeida e o ator Murilo Benício no cinema horror. E o blog Não é Spoiler fez uma entrevista super bacana com a cineasta sobre a nova produção brasileira, o papel da mulher no cinema e projetos futuros.

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“O Animal Cordial” é o seu primeiro longa. Como foi a processo de produção do filme?

Ele (filme O Animal Cordial) surge quando eu estava em um restaurante com a co-autora do argumento, Luana Demange, e a gente ficou sabendo que o restaurante tinha sido assaltado há uma semana. Isso foi em 2015. E aí começamos a se perguntar sobre o medo na sociedade, como esse medo (de ser assaltado) era administrado, como ele dá lucro pela venda de locais seguros… E através disso criamos os personagens. Depois disso, eu apresentei a nossa sinopse para o Rodrigo Teixeira, produtor da RT Features, e ele amou dizendo, “vamos fazer logo”! Ele é fascinado por este cinema de gênero (terror), um leitor de histórias voraz. Eu tive quatro meses para aprofundar este roteiro e já entrei no processo de produção. O Rodrigo realmente gostou muito do projeto.

Seu novo filme é um terror, atualmente estamos vendo várias produções brasileiros que seguem este gênero. Você acha que é uma tendência do cinema brasileiro?

Eu acho que esse gênero (terror), se você der uma olhadinha na história dele, ele sempre surge na sociedade em momento de crise. Em momentos onde há muita tensão, muita angústia. E a relação da sociedade consigo mesma é o medo desconhecido. A gente está em um momento bem delicado e essas tensões está no ar. Então eu acho que o gênero horror se alimenta dessa tensão, não de uma forma consciente da parte do criador, pelo menos não é da minha. Não é uma coisa do tipo “vou fazer um filme de terror”, sabe? Eu estou me relacionando com o Brasil hoje de uma forma angustiada. E essa angústia, essa tensão e esse medo são os combustíveis desse gênero.

Você classifica seu filme como slasher movie*. Quais são as suas referências e influências cinematográficas?

Pra fazer este filme especificamente não. Eu não uso referencia direta, mas é óbvio que eu consumo muito este tipo de cinema, por exemplo o diálogo italiano do Dario Argento, Luigi Cozzi. Consumi muito Alfred Hitchcock. As obras que mais vieram na cabeça, assim como atmosfera de criação, foram às primeiras obras de David Mamet, que eram obras de um espaço só, Mamet veio do teatro, né? O Animal Cordial tem pouco elipse, tempo corrido e isso são características também atribuídas aos textos teatrais. Mas na minha interação com os colaboradores eu nunca cito essas referencias diretas, porque elas de alguma forma podem ser uma armadilha fácil pra a gente não mergulhar nas questões únicas do filme. Então a gente busca muito mais pra entender uma cena, um personagem. E obviamente que todos temos uma bagagem cinematográfica diversa.

Como foi a composição do elenco?

Quando apresentei a sinopse ao Rodrigo, ele já tinha dado a ideia do Murilo Benício fazer o Inácio, dono do restaurante. E eu nem tinha feito o roteiro ainda. E eu adoro o Murilo Benício, ele é um ator extraordinário, é colaborativo, maravilhoso. E então eu falei do Irandhir (Santos) para o papel do cozinheiro, ao mesmo tempo eu trouxe a Luciana (Paes) e os personagens da cozinha que são todos atores muitos competentes do teatro paulista que eu conheço e com quem eu trabalho há muito tempo. Alguns eu descobri em teste, como o Ariclenes Barroso e Jidu Pinheiro. Então foi um processo de criação conjunta, meu e do Rodrigo Teixeira.

Os filmes de terror são predominados por homens, como é o mercado cinematográfico para as mulheres? Ainda há muitas barreiras?

Eu vejo a mulher no mercado cinematográfico, como eu vejo a mulher em qualquer posto de liderança em qualquer área. No cinema, a direção é um dos topos de controle, no sentido de posse da obra. Você vê essa dificuldade na engenharia, na pesquisa científica, todas as áreas. E como em qualquer outra área, o cinema de terror que lida com temas muito tabus, lida com o tema da violência, da morte, então culturalmente esses não são temas próximos ao gênero feminino de lidar. Hoje você vê mais uma luta que está há décadas, mulheres que estão tanto na narração dos filmes de outros gêneros, quanto o gênero horror. Ainda é pouco, não é significativo, é motivo de manchete, ou seja, não é uma coisa natural. Eu espero que daqui pra frente a gente consiga contar histórias sem ter essa distinção de gênero.

Quais são os seus projetos futuros?

O meu segundo longa-metragem ele estreia no Festival de Brasília, se chama “A Sombra do Pai” e conta a história sobre uma menina que acredita que pode trazer a mãe de volta dos mortos. É um drama fantástico. E eu vou fazer junto com o Rodrigo Teixeira um filme de exorcismo chamado “A Cadeira Escondida”. As filmagens estão previstas para acontecer em agosto do ano que vem.

*Slasher Movie: filmes do subgênero terror sobre assassinos psicopatas que matam pessoas aleatoriamente, geralmente são de baixo-orçamento.

Crítica

O Animal Cordial
Cena do filme “O Animal Cordial”. Foto: Divulgação

“A desconfiança põe-nos de sobreaviso contra toda a gente”. É com essa citação do filósofo grego Teofrasto que começo a minha análise sobre o novo filme da diretora Gabriela Amaral Almeida, a cineasta paulistana traz todo esse sentimento de suspeita e de receio no terror “O Animal Cordial”. Conhecida pelos curtas-metragens “Estátua!” (2014) e “A Mão que Afaga” (2012), Almeida estreia seu novo longa discutindo os problemas sociais, diferenças de gênero e trabalhista com apoio uma excelente equipe formada por atores renomados.

“O Animal Cordial” é sobre um assalto que acontece em um restaurante de São Paulo. Funcionários e clientes são feitos reféns. O dono do estabelecimento (Murilo Benício) desconfia que tudo não passa de um plano astuciado por alguém presente no crime. Veja o trailer:

Em um verdadeiro suspense estético e sonoramente perfeito. Murilo Benício é Inácio, dono do restaurante, sua atuação é impecável, psicótica e vingativa, o ator mostra que é capaz de sair do gênero cômico como foi em “Pé na Jaca” para um personagem “sangue nos olhos” capaz de tudo. Outro destaque vai para sua parceira de cena Luciana Paes, conhecida pelo papel cômico Ana Selma na novela da TV Globo “Além do Horizonte”, apresenta uma funcionária manipuladora.

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O novo filme de Almeida se destaca por futuramente ser uma obra cult e estudada por essa época marcada de grandes produções cinematográficas do gênero horror e por quebrar uma grande barreira por ser uma das poucas mulheres a seguir um gênero predominado por homens.

Psicótico e assustador, “O Animal Cordial” é pra quem se delicia por uma boa produção do gênero horror. O filme estreia nesta quinta (9) nos cinemas de Curitiba.

Avaliação: ⭐⭐⭐⭐
Pra quem gosta: terror e suspense
Pra assistir: amigos, crush ou sozinho.
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