Todo mundo é louco para saber de uma boa história, ainda mais quando se trata dos bastidores por trás do jornalismo. Quem vive ou pesquisa um pouco sobre o assunto acaba sabendo que rola muitas curiosidades, informações extraoficiais e até mesmo conflitos no meio jornalístico. O cinema já contou várias histórias, desde o drama como “Cidadão Kane” (1941) e “Spotlight – Segredos Revelados” (2016), até as incríveis comédias “Feitiço no Tempo (1993)” e “O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy” (2004).

Cena da série "Contracapa". Foto: Divulgação/GP7 Cinema
Cena da série “Contracapa”. Foto: Divulgação/GP7 Cinema

Claro, sempre mostrando um jornalista determinado, convicto, que luta pela verdade a todo custo. Mas a realidade é bem outra e é isso que a “Contracapa” quer mostrar. Produzida inteiramente no Paraná, a série tem como foco os problemas enfrentados em um jornal impresso que passa por crise tanto financeira como também de credibilidade.

Graças ao Fundo Setorial Audiovisual, a “Contracapa” foi realizada após receber recurso do edital com a temática “os bastidores e a construção da notícia sobre a ótica do jornalismo investigativo”.

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O blog Não é Spoiler entrevistou um dos criadores da série, Rafael Waltrick. Formado em jornalismo, Waldrick retrata as próprias experiências vividas no dia-a-dia dentro de uma redação e comenta sobre os projetos futuros.

Como foi a criação da série?

RW: O projeto foi criado ainda no final de 2015, junto com Guto Pasko e Andréia Koláboa, que são sócios da GP7 Cinema. Eu os conheci no curso da pós em Cinema da FAP (Faculdade de Artes do Paraná). Como eu tinha experiência com o jornalismo, por ter trabalhado na RBS de Santa Catarina, na Gazeta do Povo, então eles me convidaram para participar do projeto e eu trouxe a Contracapa. O roteiro foi escrito em maio de 2016 e só em agosto tivemos a notícia que foi escolhida para receber o recurso do edital.

A série se passa dentro de uma redação, você é jornalista, muitos fatos presentes na trama aconteceram com você?

RW: Sim, digamos que o coração da série, em termo de história, é esse jornal chamado “Gazeta Brasileira”, que é um jornal impresso ficcional, que fala sobre a realidade dos jornais atuais, onde se passa por uma crise financeira, de credibilidade, também passa por uma crise de identidade. A série também retrata sobre esse momento de transição do jornalismo para o online e a resistência dos jornalista antigos que pregam a preservação do impresso. Eu tentei trazer esses fatos muito mais com o pé no chão desse exercício de jornalismo. Diferente nos filmes americanos, que tratam sobre o tema, por exemplo, “Todos os Homens do Presidente”, “Spotlight”, “The Post”, que são uma carta de amor ao jornalismo, que trazem a figura do jornalista determinado, acima de qualquer suspeita, que não leva desaforo. Ok, isso faz parte da figura do jornalista, mas o que a gente tenta trazer na série é de uma figura do jornalista humano, que é o cara que quer fazer a matéria, mas está preocupado em não ser demitido e que sabe que o jornal não vai publicar certa coisa, então é uma figura mais realista.

Hoje a grande polêmica no jornalismo é o combate do Fake News, como você vê o trabalho do jornalista investigativo nesses assuntos?

RW: Eu acho que hoje os jornais deixaram de ser um canal exclusivo ao leitor sobre o acesso a conteúdo. Hoje em dia eu posso criar um blog em instante e publicar qualquer coisa. E eu acho que infelizmente as pessoas, de maneira geral, não estão acostumadas de fazer reflexão ‘putz! Será que o que este conteúdo que estou divulgando nas redes sociais é idôneo, será que é fidedigno?’ As pessoas vão colocando qualquer coisa. ‘Ah não, se está no site, então é verdade’. Eu vejo que há um interesse de combater as Fakes News. A Globo está fazendo uma campanha enorme junto com seus veículos do grupo, O Globo, Extra… é o “Fato ou Fake”, essa iniciativa é importante. Até pra trazer essa cultura do pensar duas vezes. Mas isso ainda é um aprendizado, assim como foi aprendizado lá trás, quando os jornais tiveram que se adaptarem com o conteúdo online, os jornais estão começando a se impor a esses tipos de conteúdos e estão tentando a converse o público que ele é uma fonte confiável.

Como você vê o mercado audiovisual atualmente em Curitiba?

RW: Eu vejo que está crescendo, inclusive eu falo para as pessoas que o momento de você estudar, de cair de cara nesse mercado é agora. De uns anos pra cá, aumentou muito a demanda nas emissoras, seja TV abertas ou pagas, por esses tipos de conteúdos que têm que ser produzidos por produtoras independentes. Depois da lei sobre a cota de telas*, isso acabou trazendo uma necessidade das próprias emissoras de terem que recorrer às produtoras independentes em busca de projetos. Claro que a realidade no Paraná é muito distante do eixo Rio-São Paulo, onde há décadas se produzem a maior parte da produção de TV e cinema, né? A “Contracapa” foi a primeira vez que a gente conseguiu fazer uma série desse porte, com 13 episódios de 52 minutos aqui no Estado. Inclusive a É-Paraná acabou de anunciar um edital com essa linha de produção. Então tem um momento muito propício a isso, há recurso disponível no Fundo Setorial do Audiovisual. E eu acho que também mudou o comportamento das pessoas. Com a vinda das plataformas digitais, as pessoas estão consumindo mais séries e acostumando agora, espero eu, ver conteúdo brasileiro. Eu acho que juntou a fome com a vontade de comer.

Quais são os seus projetos futuros?

RW: Estou finalizando a segunda temporada da “Contracapa”, já tenho a sinopse dos episódios prontos, isso não quer dizer que está 100% certo se vai acontecer, não necessariamente. Até porque assim que fecharmos com uma emissora, ela vai recorrer no Fundo Setorial. E pra ela aprovar mostrar a segunda temporada ao FSA, ela precisa ter o projeto pronto, ter as sinopses dos episódios completas, o roteiro do episódio-piloto. Mas fora isso, eu estou trabalhando em outra série também pela GP7 Cinema.

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Bastidores da série "Contracapa". Foto: Divulgação/GP7 Cinema
Bastidores da série “Contracapa”. Foto: Divulgação/GP7 Cinema

Contracapa” é uma série da GP7 Cinema. Foi criada por Rafael Waltrick, com direção geral e produção de Guto Pasko e Andréia Kaláboa e com codireção de Franco Verdoia e Guto Pasko. A estreia está prevista para acontecer no último trimestre de 2018 na TV Brasil e em outros canais públicos do país.

*Cota de Tela é uma medida provisória que assegura uma reserva do mercado nacional audiovisual em frente aos produtos estrangeiros. A cota é adotada em diversos países a fim de aumentar a competitividade do cinema e conteúdos nacionais.

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