Giovanna tem 35. E é perfeita. Sem defeitos. Entenda: quando aqui digo “perfeita”, não é aquele “perfeita” que você responde à sua mãe, no domingo, quando ela pergunta se a lasanha está boa. (Deus, porque não consigo fazer comparativos sem usar comida como exemplo?) Aposto que Giovanna não come lasanha. Se come, deve ser uma lasanha especial, com ingredientes especiais, calculados milimetricamente pra fornecer a energia necessária de que Giovanna precisa pra distribuir entre os treinos e as sessões de fotografia para as publis. Ah! E ser mãe. Não bastasse Giovanna corresponder ao ideal clássico e atemporal de beleza estética, ela ainda é mãe. De três crianças lindas e perfeitas como ela.

Giovanna tem 35 e tira foto de bíquini sem parecer que quer biscoito. Ela brinca com os filhos, viaja, empreende, cria bichos, atua, fotografa, mantém a vida pessoal longe das fofocas e apoia o marido em tudo. Eu juro que tentei, mas não consegui encontrar defeito nenhum na Giovanna. Tentei até fazer uma pesquisa rápida no Google pra ver como é o pé dela (meu tio costuma dizer que quando a mulher é bonita demais é porque tem pé feio). Nesse caso não só ela tem o pé bonito como o algoritmo do meu campo de pesquisa do Google ficou um pouco confuso e eu espero que ele não entenda que eu tenho algum tipo de fetiche bizarro.

Giovanna tem 35 anos. E alcançou, muito antes disso, o ideal de vida que eu criava para minhas bonecas Barbie quando eu era pequena. Até o nome dela é bonito. “Giovanna Ewbank Gagliasso”. Soa bem né? Pra quem não sabe, a atriz e modelo é casada com o global Bruno Gagliasso e, juntos, eles enchem os olhos dos seus seguidores do Instagram, com imagens de sonho da família perfeita que construíram.

Dia desses eu me questionei até que ponto seguir a família Gagliasso no Instagram era bonitinho ou um lembrete diário do meu fracasso. Ignorei o questionamento e, óbvio, continuei seguindo. Mas sem me emocionar demais. Afinal, eu tenho 34 anos, e – graças à sanidade mental – já entendi que a gente até pode idealizar a vida perfeita. Mas persegui-la eternamente não só escraviza como também deixa a gente louca.

Além do mais, para uma “cria da década de 90” eu acho até que estou bem! No panorama geral, consegui “ticar” quase toda a check-list que a sociedade espera da mulher brasileira contemporânea, na casa dos trinta. Vejamos. Saúde em dia, emprego, ainda não fui expulsa do grupo da família no Whatsapp, tenho bons amigos, pratico esportes, tenho fé em Deus (apesar do Brasil), um relacionamento ótimo e tomo só um ou dois remedinhos. Podia estar melhor? Podia estar melhor! Mas sempre pode né? Como ideal a ser seguido então, preferi transferir definitivamente a Giovanna Ewbank ao rol idealístico das princesas da Disney: perfeitas? Sim! Mas impossíveis de alcançar.

Isto posto, “quem poderia eu escolher, então, como exemplo a ser seguido? Em quem me inspirar nesse infindável universo narcisista, onde todo o mundo te ensina como viver, que são as redes sociais? Para quem olhar quando me sinto desanimada pra ir treinar? Ou quando preciso de inspiração pra roupa? Ou quando sinto que estou fazendo tudo errado?”, penso eu, sentada ao sofá de casa, enquanto deslizo freneticamente o feed do Instagram em busca do perfil mágico.

É então que, de inopino, vem a minha mãe: “você fica demais nesse celular”, diz em tom corretivo passando pelo sofá em direção à porta de entrada. Desvio os olhos da tela. Percebo a legging e o tênis de caminhada. “Olha só! Onde vai a bonita?”, pergunto zombeteira. Desde o começo da pandemia, minha mãe parou completamente as atividades físicas por conta do isolamento. “Vou recuperar o tempo perdido”, ela retruca, animada.

E assim vai. No primeiro dia ela faz três quilômetros. No seguinte, ela faz cinco. No outro ela volta aos três, para no próximo andar sete. Se o sol está alto, ela espera o fim da tarde. Se chove, ela vai de guarda-chuva. Não importa. Aos poucos, a pequena persistência diária, volta a se tornar hábito. Logo, para minha mãe, no auge dos 58 anos, 10 quilômetros são pouco. É então que me dou conta: talvez a tal fonte de inspiração estivesse sempre ali, mais perto do que eu pensava.

E assim, diante dos meus olhos, as recordações deram conta de descortinar tantas outras fontes de inspiração! Tangíveis, reais, possíveis. E bem ao meu lado.

É aquela amiga que tem a vida financeira impecável e nunca atrasa um boleto, aquela outra que está conseguindo parar de fumar, a colega que economizou e viajou de mochilão sozinha. Tem também a amiga que mudou a alimentação e melhorou da diabetes, a que teve coragem de sair de um relação tóxica de anos e a que faz atendimentos gratuitos semanalmente (ela é dentista) para ajudar quem não pode pagar pela consulta.

Todos, exemplos reais e bem próximos a mim. Mulheres admiráveis que sempre estiveram por perto. Pessoas com quem convivo, cujas histórias na vida real certamente são bem menos glamurosas que no Instagram. E é justamente isso que as torna ainda mais inspiradoras.

Ah! E até onde eu sei, tirando uma ou outra que é intolerante a glúten, todas comem lasanha.