“É só dizer não e sair andando?”. Questiona a manchete da reportagem do portal G1 publicada recentemente, em fevereiro. Nos 29 parágrafos seguintes (eu contei), especialistas, psicólogos e entidades públicas discorrem sobre como o brasileiro pode E DEVE exercitar uma simples tarefa, que no dia-a-dia e, em tantos contextos da vida, nos parece igualmente difícil tanto na teoria como na prática: dizer “não”.

O gatilho para a reportagem (que também virou assunto aqui na Tribuna) foi uma “técnica de venda” bastante difundida e aplicada há décadas pelos comerciantes de hortifruti do Mercado Municipal de São Paulo e, até pouco tempo, desconhecida pelo público geral. Se você não sabe como a coisa funciona, eu explico.

Você chega ao mercadão de São Paulo com um único objetivo: comer sanduíche de mortadela. Só que para encontrar a barraquinha do sanduíche de mortadela, você eventualmente passa por dezenas de barraquinhas de frutas, verduras e legumes. É nessa hora que o simpático feirante de uma dessas tendas se aproxima oferecendo, de graça, o pedaço de uma frutinha qualquer, sem compromisso. Você aceita. Em seguida ele oferece outro pedaço, de outra fruta, e por aí vai.

Satisfeito e agradecido então, você dá sinais de “muito obrigado mas já vou indo”. É aí que começa a pressão para que você leve só uma bandejinha disso. Só meia dúzia daquilo. Constrangido em resistir depois de se atochar do que foi oferecido de graça pelo gentil comerciante, você decide por levar um punhadinho de frutas, só pra não ficar chato. Na hora de pagar, o susto! Há relatos de consumidores que chegaram a pagar R$ 800 até R$ 1.000 no final da compra.

A prática ganhou tanta repercussão, que internautas criaram páginas nas redes sociais para denunciar os abusos. Nos relatos, frases como: “fiquei sem graça de dizer não”; “deu medo de parecer que estava me aproveitando” e “quis retribuir a ‘gentileza’”, deixam evidente o desconforto e arrependimento dos clientes.

Senhoras e senhores, eu lhes apresento o povo brasileiro, a sua enorme dificuldade de dizer não e o alto preço que pagamos por isso.

O negócio é tão de berço, tão arraigado nas entranhas, que – não importa quantas vezes já tenhamos praticado dizer não – a gente sempre fica sem graça. É cultural. A gente fala “não”, meio que pedindo desculpas, juntando as mãozinhas, com as sobrancelhas franzidas e expressão de sofrimento: “muuuuito obrigada, mas hoje não”.

Não sei exatamente porque ou em que momento da história nos condicionamos a essa compulsão por agradar. Fato é que, na meia dúzia de vezes que tive a oportunidade de visitar outros países, notei a gritante diferença. Vi culturas bastante hospitaleiras. Como no Oriente Médio, por exemplo. Outras, poucas, de uma educação quase inacreditável, como a dos canadenses. Mas fato é que fora do Brasil, ninguém tá nem aí se o “não” vai deixar alguém chateado.

Talvez seja fruto da colonização, que impregnou na sociedade brasileira o sentimento de inferioridade. Talvez o enorme medo de rejeição e a diretamente proporcional necessidade de aceitação. Tudo isso bem misturadinho, batido no liquidificador e temperado com centenas de anos deu nisso: somos escravos da gentileza. E digo mais. Quando nos deparamos com raros espécimes que – por evolução ou pela força do ódio – conquistaram a contra a cultura, a gente buga, num misto de perplexidade e admiração.

Recentemente tive a oportunidade de conviver com uma colega de trabalho pertencente à incrível linhagem dos “dizedores de não”. Confesso que no começo foi um pouco incômodo. Depois passei a admirar a ousadia. De negar o pedaço de bolo que alguém trouxe pra redação (e, se você é jornalista você entende do que estou falando) não por frescura – como diziam sobre os ombros – mas porque estava realmente satisfeita.

De permanecer austera ao ouvir piadas sem graça de colegas bem relacionados, sem medo de que – depois – fosse taxada de insuportável. Mas, simplesmente, porque não achou engraçado. De retrucar “me dá dois minutinhos?”, quando era solicitada com urgência enquanto estava concentrada fechando o texto.

Ao mesmo tempo, também vi setores institucionalizados dentro da mesma empresa na qual trabalhava a corajosa colega, cuja dificuldade de dizer não era tanta, que você podia esperar sentado caso precisasse de uma resposta. Porque, caso fosse negativa, morreria em silêncio sepulcral.

Basta acessar o LinkedIn. Quantos candidatos a vagas de emprego você viu nos últimos tempos, desabafando sobre terem ouvido do RH das empresas, que teriam retorno, “positivo ou negativo” e jamais tiveram a resposta? Fica o questionamento. Será que, quando a resposta é “não”, o melhor mesmo é fazer a esfinge?

O mesmo questionamento vale para as relações pessoais, casuais, profissionais… sejam do círculo íntimo de convivência ou não. Seja na fila do supermercado quando um engraçadão corta a sua frente, seja quando te pedem algo emprestado – e você sabe que não vão devolver. Até que ponto o medo de desagradar ou frustrar o outro tem feito você dizer “sim” quando na verdade você quer dizer “não”? Ou pior, até que ponto a insegurança tem feito você deixar as pessoas no vácuo (o que na minha opinião é o pior dos cenários) pelo receio de desagradá-las com a resposta negativa?

Já virou quase um ditado: quando você diz sim para o outro querendo dizer não, você acaba dizendo não a você mesmo. E é bem por aí. Quando ser agradável se torna um preço alto demais, talvez seja o momento de parar e questionar quantos nãos a você mesmo você tem dito e se realmente valeu a pena pagar R$ 800 por um punhado de jamelões.