Algumas coisas parecem difíceis de explicar. Por exemplo, como a Alemanha, sem plantar sequer um pé de café nos seus quase 360 mil quilômetros quadrados de extensão (tamanho similar ao Estado do Mato Grosso do Sul) é a maior exportadora do grão para Europa? Esta é uma boa pergunta para ser respondida justamente nesta coluna, quando se comemora o Dia Mundial do Café.

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Esse título ostentado pelo país europeu se deve muito, claro, a perspicácia para os negócios, mas também ao Brasil, maior produtor e exportador mundial de café (em 2021, a produção nacional atingiu 47 milhões de sacas de 60 quilos, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab). O tino comercial faz com que a Alemanha, ao lado dos Estados Unidos, seja um dos maiores compradores do café produzido por aqui. São mais de 20 milhões de sacas por ano, cada um. O grão da bebida está no topo do ranking de produtos importados do Brasil pelos alemães, à frente do minério de ferro e do farelo de soja.

Parte deste café todo é consumida internamente, até porque os alemães são loucos pela bebida. O consumo por pessoa por lá é de 150 litros por ano, enquanto no Brasil beira os 80 litros no mesmo período. Ou seja, cada alemão bebe, em média, quatro xícaras de 100 mililitros de café diariamente. E depois ainda dizem que é o país da cerveja.

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A outra parcela do café comprado pela Alemanha abastece milhares de cafeterias espalhadas pela Europa. O principal mérito está no poder de agregar valor. Eles compram a matéria-prima brasileira por um preço relativamente baixo, beneficiam e vendem para os parceiros comerciais internacionais pelo dobro, o triplo ou mesmo sete vezes o preço do café “cru”.

Aí está a explicação para a Alemanha não plantar café, mas ser o maior fornecedor para o continente europeu. Isso tudo tem reflexo direto nos cofres da Alemanha e, claro, no bolso dos produtores brasileiros. Enquanto as exportações brasileiras de café rendem algo em torno de US$ 4,2 bilhões ao ano, a Alemanha fatura até 70% mais (lembrando, sem plantar um pé de café).

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E pensar que, há algumas décadas, o café (a produção) colaborou para o desenvolvimento do Brasil, da urbanização e industrialização de diversas regiões do país, inclusive no Paraná. Aqui no Estado, o grão já foi o motor da economia, até a famosa Geada Negra. Hoje, a produção é pontual, mas com qualidade e relativa importância, principalmente para as localidades produtoras.

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Porém, assim como com outros produtos agropecuários, seguimos deixando de faturar mais. Ou melhor, deixando que outros faturem no nosso lugar, simplesmente por conta da baixa qualificação da mão de obra, da falta de incentivo por parte de uma política governamental, da pouca visão de negócio dos produtores, e assim vai. E, certamente, no curto prazo, isso não vai mudar. Ao menos, resta o consolo de saber que uma das bebidas preferidas do brasileiro faz sucesso na Europa, por mais que leve o rótulo de “made in Germany”.

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