Eu cresci escutando meu pai falar “só apaga quem paga”. A frase mencionada quase que diariamente se fazia oportuna porque eu e meus irmãos deixávamos às luzes da casa acesa e ele vinha apagando enquanto transitava pelos cômodos. Essa história tem uns 20 anos, quando ainda não passávamos pela crise hídrica dos últimos tempos e o preço da energia elétrica não estava nas alturas. Mas, parece que meu sábio pai já previa o futuro.

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Basicamente, a diferença do uso da energia elétrica no meio urbano e na área rural é o fato de que o produtor rural não pode simplesmente desligar a energia elétrica do aquecimento, do controle de ração e água ou da iluminação dos aviários, granjas e tanques, colocando em risco a produção de milhares de frangos, porcos ou peixes. Nem se dar ao luxo de desligar as máquinas de ordenhas das vacas, usadas até quatro vezes ao dia. No meio rural, a energia elétrica é um insumo essencial. Talvez até mais importante que nos centros urbanos, pois se mostra fundamental para a manutenção e o desenvolvimento da produção agropecuária.

Essa conta de energia elétrica, atualmente extremamente alta para mim e para você, leitor, está ainda mais pesada para agricultores e pecuaristas do Paraná (na verdade, do Brasil inteiro). A tal da bandeira vermelha, que indica aumento da tarifa, tem assolado todos nós. Hoje, em atividades como avicultura, suinocultura, pecuária de leite e piscicultura, a energia elétrica aparece como um dos principais custos de produção que, posteriormente, será repassada para nós consumidores quando encontrarmos os alimentos nas gôndolas dos supermercados.

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Existe solução para isso? Até onde sei, São Pedro não está muito a fim de colaborar. A previsão é de que os índices de chuvas continuem baixos nos próximos anos. E isso é um péssimo sinal, pois a água dos reservatórios das hidrelétricas é responsável por 63,8% da geração de energia do país.

Diante deste cenário adverso, os produtores rurais estão procurando formas de produzir sua própria energia elétrica por meio de usinas solares e/ou de biogás. Essas energias renováveis têm aumentado bastante no meio rural, inclusive no Paraná. O setor rural representa 13% da potência instalada dos sistemas fotovoltaicos no Brasil, de acordo com dados de 2020 da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). Essa diversificação da matriz energética brasileira é fundamental, pois reduziria a pressão no sistema elétrico.

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Mas é preciso mais fomento por parte dos órgãos públicos, dentro de um processo de convencimento, e linhas de créditos com juros baixos, pois os equipamentos e painéis ainda são caros, pois boa parte é importada, ou seja, cotada em dólar. Mesmo assim, o cenário está mudando no campo, com usinas solares compartilhando espaços com lavouras de soja e milho ou galpões de frangos ou suínos.

Nas cidades, esse tipo de energia ainda é pontual, com um ou outro telhado abrigando painéis solares. Então, enquanto os produtores rurais estão procurando alternativas, nós do meio urbano podemos ajudar adotando a frase do meu pai, de apagar as luzes para economizar energia. Isso é bom para o bolso e para a produção de alimentos.