Nos últimos meses, diariamente, muito tem se falado e/ou escrito sobre os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia na agropecuária brasileira. Isso porque o conflito entre os dois países acaba por respingar por aqui, principalmente na alta dos preços dos alimentos, dos fertilizantes e de outros insumos ligados ao campo.

A própria coluna Rural & Urbano, em edições anteriores, abordou, mais de uma vez, a inflação do pãozinho francês em função da escassez do trigo internacional. Isso porque Rússia e Ucrânia, somados, respondem por 29% da produção mundial do cereal. Tem também a questão dos fertilizantes, que o Brasil importa 84% do montante utilizado nas lavouras, sendo que 22% têm origem no país comandado por Vladimir Putin.

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A preocupação dos produtores rurais e mesmo da população brasileira quanto ao fornecimento de produtos e insumos originários da Ucrânia precisa ir além da guerra em si. Esse conflito armado um dia vai acabar (esperamos que o quanto antes). Mas os sintomas ficarão por anos no país e, claro, na agropecuária ucraniana. Isso porque um terço da população local (4,6 milhões de famílias) vive em zonas rurais. Essa parcela contribui para 41% da produção agrícola na Ucrânia, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

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De maneira mais minuciosa, na Ucrânia, a agricultura familiar é responsável por 85% da produção de vegetais, 83% de frutas, 99% de mel e 70% de leite. Ainda, quase um terço de toda a produção nacional de carne sai deste segmento.

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Claro, no primeiro momento, a precaução é com as pessoas, a segurança em meio aos constantes bombardeios, e também em relação ao acesso a alimentos. Mas é preciso olhar para a atividade rural na Ucrânia, principalmente nos próximos anos. Afinal, os agricultores precisam ter acesso aos insumos para garantir o plantio das lavouras e a alimentação dos animais para dar continuidade as atividades. O próprio governo ucraniano já pediu ajuda à União Europeia para os agricultores locais, que prometeu coordenar o envio de combustível, sementes, fertilizantes e máquinas agrícolas.

Mesmo assim, diante das informações de êxodo da população ucraniana e destruição total de diversas regiões do país, não é difícil imaginar que a agropecuária local está em risco. Além da situação interna, há limitação na chegada de produtos. Isso porque empresas de transporte marítimo não estão operando na região, uma vez que há casos de naufrágios por bombardeiros e também pelo fato das companhias de seguro não estarem firmando contratos.

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E, uma vez que a agropecuária ucraniana desmonte, os impactos são globais, incluindo o Brasil. No mês passado, os preços mundiais dos alimentos atingiram um nível sem precedentes em função da guerra, que afeta seriamente o comércio de cereais e óleos vegetais. Para piorar, as cotações de matérias-primas agrícolas como trigo, girassol e milho continuam em constante alta.

A instabilidade global já é uma realidade. Alguns países da África, altamente dependentes das importações da Ucrânia, já sentem o desabastecimento e, quando há produto, a escalada dos preços é exponencial. A dúvida agora é saber quais os reflexos no médio e longo prazos, considerando que, quando a guerra acabar, será necessário um período de reconstrução da Ucrânia. E isso inclui as atividades rurais!

>> Leia mais sobre a relação entre campo e cidade na coluna Rural & Urbano!