Pelo que consta em alguns sites e nas rodas de conversas durante os cafezinhos nas empresas, a novela Pantanal é um sucesso de público. O remake da primeira versão exibida há 32 anos, pela extinta TV Manchete, tem conquistado admiradores, sejam os que tiveram a oportunidade de assistir há mais de três décadas ou novos telespectadores, que estão descobrindo a região pantaneira e o modo de vida e de trabalho do pecuarista.

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É indiscutível que a novela Pantanal tem proporcionado uma aproximação de milhões de brasileiros da agropecuária e de diversos dos seus elementos. Isso se faz importante, diante do fato de que a maior parte da população, 84,72%, vive em áreas urbanas e apenas 15,28% estão nas áreas rurais, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

Em outras palavras, a maioria das pessoas, por ter seu “modus operandi” restrito as cidades, não conhece a rotina, o trabalho, as dificuldades e as conquistas do produtor rural.

Apesar da aproximação entre o urbano e o rural que Pantanal promove, nem tudo retratado na novela é o dia a dia da agropecuária brasileira. Por exemplo, a questão da tecnologia (e o uso dela). O protagonista da trama, José Leôncio (Marcos Palmeira), não tem sinal de internet e/ou de telefone na sua propriedade. Nem mesmo uma antena de televisão para pode assistir, quem sabe, uma novelinha. A comunicação, seja com quem for, se faz por meio de um rádio amador.

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A realidade no meio rural é diferente da representada na novela. O produtor rural é tecnificado. Ele conta com sinal de internet para realizar diversas tarefas e atividades dentro da porteira. As plantadeiras e colheitadeiras usadas em larga escala contam com agricultura de precisão a bordo, que exigem o uso de GPS.

Mais que isso, seja no interior do Mato Grosso do Sul (onde se passa a novela), do Paraná ou da Bahia, o produtor precisa acompanhar as informações e cotações das commodities para saber quando vender.

Não ache também que todo o produtor rural tem um avião a sua disposição para deslocamento, como fazem Leôncio e seu vizinho de cerca Tenório (Murílio Benício). Essa realidade se aplica a uma minoria! No geral, o produtor utiliza a sua caminhonete para vencer o percurso entre a propriedade e a cooperativa, o banco, a cidade mais próxima.

Ainda, as comitivas, tão comuns na novela, conduzindo o gado por três, quatro dias até o destino são coisas do passado. Fazer com que o animal vença um percurso de quilômetros, debaixo do sol e/ou chuva, atravessando rios e montes, vão contra as diretrizes do bem-estar. Isso sem contar as perdas financeiras para o pecuarista que vai acabar entregando um boi mais magro, já que a caminhada exige a queima de calorias.

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Hoje, os animais são deslocados de caminhão da propriedade até o frigorífico, com o maior conforto possível, sem estresse, para garantir um bom peso e carne de qualidade na hora do abate.

Segundo Aristóteles, “a arte imita a vida”. No caso da novela Pantanal, alguns pontos envolvendo a rotina do pecuarista se tratam de ficção “das brabas”, como diz Leôncio. A população urbana precisa entender isso para não achar que todo produtor rural tem um avião para se deslocar da sua propriedade que não conta com internet enquanto os funcionários conduzem 2 mil cabeças de gado por dias em meio a cenários paradisíacos. Afinal, a “licença poética” do autor tem que estar mais alinhada com a realidade.