Na década de 1960, o filósofo canadense Marshall Mcluhan criou o conceito de aldeia global. Mcluhan acreditava que, devido à diminuição das distâncias e barreiras geográficas, culturais e sociais por conta do progresso tecnológico da informação e da comunicação, o planeta se reduziria à mesma situação de uma aldeia, onde tudo e todos estariam interconectados. Apesar das mais de seis décadas, o conceito está bastante atualizado.

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Um exemplo da aplicação da teoria de Mcluhan é o atual episódio envolvendo Rússia e Ucrânia. Apesar da distância de mais de 10 mil quilômetros entre o Brasil e os dois países, o que ocorre por lá tem impacto por aqui, tanto na cidade como no campo. E tem mais, pois o desentendimento entre as duas nações também envolve a China e os Estados Unidos, outras duas potências mundiais e importantes produtores mundiais de alimentos.

Talvez, o primeiro impacto que possa desembarcar por aqui, seja o preço do pãozinho e demais alimentos à base de trigo, já que o conflito saiu do verbal para o propriamente dito. Um conflito armado por lá, certamente, vai mexer no mercado global da commodity. Isso porque Rússia e Ucrânia, somados, respondem por 29% da produção mundial do cereal, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda). E o Brasil é um grande importador de trigo, pois produz menos do que precisa para abastecer o mercado interno. Em 2021, nós importamos 6,2 milhões de toneladas do grão.

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Quais seriam os impactos?

Principalmente de duas formas: no fornecimento e no preço. A invasão da Rússia pode mudar o mapa do trigo. O presidente russo, Vladimir Putin, se vir a controlar a área de produção na Ucrânia, pode redirecionar o cereal para o seu aliado neste conflito, a China. O mercado asiático tem “fome” de qualquer tipo de alimento. Afinal, 1,4 bilhão de pessoas precisa comer – e sua população segue crescendo. Diante disso, o Brasil teria mais dificuldade para conseguir o cereal. Nada de pânico em cima de uma eventual teoria de desabastecimento. Longe disso, afinal, negócios são negócios e a Rússia, certamente, vai querer vender o produto para lucrar.

Mas, muito provavelmente, o preço da commodity aumente. Muitos analistas de mercado já apontam para a volatilidade do mercado de grãos, com chance real de alta das cotações. Isso porque a tal da lei da oferta e demanda determina os preços mundiais.

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Os desdobramentos de um eventual conflito não se limitam ao cereal, e pode ter impacto também nas carnes que compõem o cardápio do almoço e do jantar. Isso porque o trigo é usado na composição da ração fornecida aos animais.

Ainda, os países da região do iminente conflito são importantes fornecedores de insumos para o desenvolvimento das lavouras e grandes produtores de gás natural –  ou seja, fornecimento e preço devem sofrer influencias geopolíticas.

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Diante do cenário, o jeito é torcer para que os países envolvidos consigam chegar a um consenso. Não só pela questão da aldeia global de Mcluhan, mas principalmente para a segurança das pessoas. De qualquer forma, mesmo esperando o melhor, vale estar preparado para o aumento do preço daquele misto quente do café da manhã e da macarronada de domingo.

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Na semana passada, na coluna “Taxar agroquímico não reduz o uso, mas encarece os alimentos”, fiz uma analogia incorreta, como bem alertaram os amigos Flaviane Medeiros e Henrique Gonçalves. Comparei os defensivos agrícolas usados nas lavouras às vacinas nos seres humanos, que têm a função de prevenir contra as doenças.

A analogia correta, no entanto, seria com os remédios. Isso porque os defensivos são curativos, ou seja, usados depois que o inseto, a doença ou a planta daninha já está na lavoura. E a vacina é uma prevenção, antes de ocorrer a doença.

Erro corrigido e agradecimento feito aos amigos pelo apontamento.

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