No meio rural, o movimento do reaproveitamento do que muitas vezes chamamos de lixo é em larga escala, tão grande e eficaz quanto nos centros urbanos. E, quando se trata de reciclagem no campo, não estamos falando apenas de embalagens plásticas ou caixas de papelão. No meio rural, isso vai além, com o reaproveitamento de todas as partes dos animais e até mesmo dos dejetos (fezes e urina). Tudo, literalmente tudo, é aproveitado de alguma forma, para alguma finalidade.

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Há mais de duas décadas existe um programa de logística reversa (muito bem-sucedido, por sinal) de embalagens de agroquímicos, produto usado em larga escala nas lavouras. Mesmo antes da legislação que hoje obriga o produtor rural a dar destino a embalagem, esse programa já coletava os recipientes vazios que, após o tratamento correto, são transformados em vários artefatos, como dutos, drenos, conexões e tubos para esgoto, ou em novas embalagens e tampas de agroquímicos. O sucesso deste programa é tamanho que Brasil, com 93% de reciclagem, está à frente de outros países com iniciativas semelhantes, como França (77%), Canadá (73%) e Estados Unidos (33%).

No caso dos animais, o boi por exemplo, além da carne que garante o churrasco nos domingos, diferentes segmentos da indústria reaproveitam da cabeça aos pés do animal, como ossos, chifre, pele, órgãos internos, cérebro, casco, sangue e a gordura. Os cascos e chifres são usados pela indústria madeireira, na forma de papel de parede, madeira compensada, adesivos e plásticos, ou em nossos cabelos, pois está na composição do shampoo e do condicionador. Os órgãos internos do animal aparecem em produtos que nem imaginamos, como vitaminas, materiais médicos, corda de instrumento e raquete de tênis. Os ossos acabam na composição do carvão, vidro e até mesmo do açúcar refinado. Se eu continuar listando aqui os produtos presentes no nosso dia a dia que são derivados do boi (poderia ser do frango, porco e peixe) vou precisar de muitas páginas deste jornal.

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Mas não para por aí. Até mesmo as fezes e urina dos animais acabam se transformando em energia. O meio rural reaproveita esse material e gera calor para aquecer os aviários e granjas ou energia elétrica para a propriedade. Além da economia financeira, isso tem impacto direto na mitigação dos impactos ambientais. Afinal, o Paraná é um grande produtor de proteína animal, independente da espécie, o que resulta em milhões de toneladas de fezes e urina diariamente.

Tanto o urbano como o rural não fazem mais do que a obrigação em reciclar e reaproveitar os materiais usados no dia a dia. Afinal, na hora de colaborar com a conservação do meio ambiente, não existe distinção entre cidade e campo.

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