Há alguns anos, ter um automóvel na garagem era só para quem tinha muito dinheiro. Andar de carro pelas cidades era privilégio de pessoas ricas, que podiam dispor de muita grana para usufruir desse benefício. Ao longo dos anos, o carro foi deixando de ser objeto de status para ser objeto de necessidade. A abertura do mercado brasileiro e a vinda de várias montadoras para cá, fizeram o preço ficar cada vez mais acessível ao consumidor.

Foi uma época de muito crescimento, geração de empregos, modernização, combustível barato e a máquina a todo vapor. Tanto que a indústria automobilística colocou no mercado o chamado “carro popular”, que foi um tremendo sucesso no Brasil. Modelos como o Gol, da Volkswagen, o Uno e o Palio, da Fiat, o Corsa, Celta e Onix, da Chevrolet, o Ka e Fiesta, da Ford disputaram o topo do ranking de vendas por vários anos.

Só que essa realidade chegou ao fim. Para se adequar à nova legislação, que prevê carros mais seguros, eficientes e menos poluidores, as montadoras terão que investir pesado e isso vai tornar os modelos cada vez mais caros. Portanto, se você ainda tinha um sonho de conquistar aquele carro popular, que atualmente está custando por volta de 60, 70 mil, pode esquecer.

Fiat Palio foi por muitos anos o campeão de vendas no Brasil.
Fiat Palio liderou por muitos anos o ranking dos carros mais vendidos no Brasil. Divulgação

O presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, deu um recado há algumas semanas para quem ainda sonha com carro popular, com poucos equipamentos, tipo pé-de-boi, para o povão da classe média: “O carro que nós temos que vender hoje não é o mesmo carro da década de 80.”

Então voltaremos ao início dessa jornada, quando o automóvel era considerado um artigo de luxo, que poucos conseguiam desfrutar. É exatamente isso que vai acontecer muito em breve.

“Temos muitas tecnologias, que são estabelecidas no regulatório, como segurança, metas de emissões, redução no consumo, ou seja, metas de eficiência energética. Estamos caminhando para esta fase da descarbonização, portanto a eletrificação ou veículos híbridos se tornaram realidade, então não dá mais para imaginar que você vai ter um carro tão simples”, destacou o presidente da Anfavea.

Só que tudo isso tem um preço e não é pequeno. Carros elétricos e híbridos já estão circulando e invadindo as ruas brasileiras. Porém, o custo para o consumidor final ainda está muito longe do bolso da maioria. Os valores iniciais já começam em mais de 100 mil reais. É a nova realidade do mercado, não tem como fugir.

Modelo da chinesa JAC é totalmente elétrico e chega ao Brasil por R$ 259.900.
Modelo da chinesa JAC é totalmente elétrico e chega ao Brasil por R$ 259.900. Divulgação

“As exigências ambientais nos obrigam a ter essas tecnologias embutidas no carro. E, portanto, essa é a nova demanda da sociedade. E isso tem impacto na configuração dos veículos, em termos de segurança, eficiência energética, emissões etc. Isso veio para ficar e não é diferente dos padrões da Europa e dos Estados Unidos”, comentou Luiz Carlos Moraes.

O jeito é se preparar para esta nova tendência mundial. Carro é só para quem pode e não para quem quer. “Essa figura do carro popular, eu queria estimulá-los a esquecer, não existe mais essa figura do carro popular, que não tem nada (de tecnologia). Nós temos que ter, por lei, todos os sistemas, e nós achamos que está correto. Esquece, isso é passado, não tem mais sentido isso.”

A Volkswagen, que por décadas dominou o mercado com o Gol, anunciou que vai investir 7 bilhões de reais entre 2022 e 2026 na América Latina. Tudo isso para criar uma nova “família” de carros, dando adeus aos modelos populares. “A nova legislação exige carros cada vez mais seguros e com menor emissão de CO2. Os carros compactos terão mais conteúdo e o custo será maior”, explica o presidente da Volkswagen América Latina, Pablo Di Si.

Essa é a nova cara da família Volkswagen.
O Id.4 é 100% elétrico, recheado de tecnologia e deve ser o primeiro carro elétrico da marca a desembarcar no Brasil. Divulgação

Essa deve ser a tendência de todas as montadoras, pois a nova legislação exige muito investimento em modelos que se adequem aos novos padrões de segurança e emissão de CO2.