Vida dura no sinal vermelho das ruas de Curitiba | Tribuna PR - Paraná Online

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Centro

Vida dura

Escrito por Giselle Ulbrich

Darci Ribeiro da Silva, 60 anos, destaca as dificuldades de seu trabalho em Curitiba

Engana-se quem pensa que ganhar a vida debaixo de um semáforo vermelho é fácil. O vendedor de balas Darci Ribeiro da Silva, 60 anos, que o diga. Ele escuta coisas bonitas dos clientes, mas também já escutou muito desaforo. Já recebeu muitos xingamentos de motociclistas e taxistas, e também de motoristas em carros particulares. Mas ele não desiste. Está há quase 10 anos nesta vida e com a venda de balinhas – que ultimamente anda difícil – já construiu uma casinha.

Darci conta que a venda de balas já foi melhor. Mas, nos últimos tempos, dois fatores têm reduzido muito este comércio. A primeira é a crise, que anda tirando o poder de compra das pessoas. A segunda é a modernidade. Com a popularização das máquinas de cartão, as pessoas não têm andado mais com muito dinheiro no bolso, só cartão. E assim, o comércio de sinaleiro ficou prejudicado. “Não tem como eu ter uma maquininha de cartão, porque o tempo que eu levo passando o cartão pra um cliente, perco as outras vendas nos carros de trás”, explica o vendedor. “O que a gente ganha hoje dá pra comer. Às vezes fica meio ’apuradão’, mas a gente passa. Dá pra comer”, diz ele.

Curitiba bipolar

O frio e a chuva, típicos de Curitiba, e o calor intenso que tem feito nos últimos dias, também não tornam a vida dos ambulantes fácil. Com o sol forte de verão, o asfalto esquenta e o calor dos motores dos carros torna a caminhada entre os veículos muito cansativa. “Por causa do calor, as balas começam a amolecer e o pessoal não compra. Tem dias que a gente fica uma hora e meia pra vender uma balinha. A gente corre muito, cansa demais e não vende quase nada”, lamenta ele.

Foto: Felipe Rosa.
Foto: Felipe Rosa.

Mas os dias de frio e chuva também não colaboram em nada com as vendas. “As pessoas não querem abrir o vidro, porque vai esfriar lá dentro e molhar tudo. E isso corta muito o nosso ganho. E não tem como trabalhar com guarda chuva, porque preciso das duas mãos para manusear as balas e o dinheiro”, lamenta Darci.

“Aqui é um trabalho como em qualquer outra empresa. Tem as coisas boas e as ruins, as pessoas boas e as maldosas. Mas a gente convive com o pessoal, não enjeita nenhuma venda. É disso que vivemos”, filosofa ele.

Erguendo um “castelo”

Mas nem tudo é ruim na vida dos vendedores ambulantes. Na época em que Darci trabalhava com outras vendas de porta em porta – como alho, CD, ricota, goiabada e sorvete – conseguiu comprar um terreno no meio de um banhado. Aos poucos foi aterrando, comprando ou ganhando terra para jogar lá, cascalho e assim foi levantando o local. Depois, foi construindo aos poucos a casinha. Saía do trabalho um pouco mais cedo e ficava das 20h até 1h da manhã lá, mexendo massa, erguendo paredes, fazendo piso e telhado. E assim construiu um lar para morar com sua ‘rainha‘.

Outro lado bom do seu trabalho é que ele ‘colabora‘ com a segurança pública. Quando Darci começou a trabalhar naquela esquina, da Avenida Visconde de Guarapuava com a Rua Mariano Torres, no Centro, muitos moleques costumavam assaltar motoristas no semáforo. Aos poucos, ele e outra vendedora do local começaram a conversar com os jovens e a bandidagem sumiu de lá. “Até os comerciantes vieram nos agradecer, pois ficou bom pra eles também”, contou Darci.

“Aqui a gente não mexe com ninguém. Coloca a balinha ali no retrovisor e não fala nada, no máximo um bom dia ou boa tarde. Quem quer, leva a balinha. Quem não quer, a gente recolhe e toca em frente. Aí depende do coração de cada um trabalhar conosco”, diz ele, que agradece muito os clientes que conquistou nestes anos.

Sobre o autor

Giselle Ulbrich

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