Estiagem: represa que ajuda a abastecer Curitiba está secando | Tribuna PR - Paraná Online

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Curitiba

Cadê a água?

“Atenção: proibido nadar enquanto tiver pessoas pescando”, diz a placa pregada numa árvore à beira de um trapiche, na Represa do Vossoroca, em Tijucas do Sul, na região metropolitana de Curitiba (RMC). Insólito. Já que, há um bom tempo, não dá mais para nadar e muito menos pescar no reservatório situado às margens da rodovia BR-376, que liga Paraná e Santa Catarina. O motivo? A baixa do nível da água da represa que, hoje, conta com apenas 16% da capacidade total. Sob o olhar preocupado dos comerciantes que dependem da barragem para viver, aos poucos, o mar vira sertão e muitos lamentam a situação, se perguntando até quando o nível da água ficará tão baixo.

Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná
Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná

Mesas vazias, estoques reduzidos e nenhum movimento. Assim estava a varanda da pousada “Recanto do Sabiá” quando passamos por lá no início da semana para conversar com a dona Lindaura do Amaral, 69, proprietária da estalagem que recebe banhistas e pescadores na região há 12 anos. “Meu ponto morreu”, lamentou debruçada no balcão da lanchonete onde trabalha sozinha, já que, por conta do baixo movimento teve de dispensar o cozinheiro que a ajudava. Nem sempre, porém, foi assim.

“Há cinco anos o pessoal vinha, sentava no trapiche pra molhar os pés e saía de barco pra pescar. Pegavam lambari, carpa, cascudo, traíra. Agora foi-se tudo por terra, literalmente”, disse. Com os barcos guardados, Lindaura afirma que, pior que a atual, somente a última estiagem – em 2014 – quando o nível do reservatório baixou cerca de 6 metros. “Depois disso a represa nunca mais encheu como antes. É triste e preocupante pra gente que depende disso aqui pra viver”, afirmou.

Construída em 1946, a Represa do Vossoroca abastece duas usinas hidrelétricas: Chaminé e Guaricana, administradas pela Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel). Com capacidade para 38 milhões de m3 de água, o açude é utilizado para produção de uma parte da demanda por energia em Curitiba e Região Metropolitana e, por conta da bela paisagem e da fauna aquática rica em diversas espécies de peixes, se tornou ponto de pesca esportiva, recebendo centenas de turistas na alta temporada. Com as últimas secas registradas, porém, quem sofre são os que dependem da atividade para ganhar o sustento e quem buscava na pescaria uma forma de lazer tem de abusar da criatividade, encontrando outras maneiras de se divertir.

Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná
Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná

É o caso do administrador Marcio Lepca, que há alguns anos comprou uma chácara à beira da represa. Se antes a principal diversão das férias em família era passear de caiaque, hoje o passatempo é pular as valetas da barragem seca, a pé mesmo. “Não tem muita opção. A gente caminha quilômetros e quilômetros pelo solo do Vossoroca e aposta corrida com a criançada”, diz. Divertido por um lado, preocupante por outro.

Segundo Marcio, a falta de água trouxe riscos à própria segurança da região, já que o fácil acesso pelo solo atrai ladrões e oportunistas que se aproveitam para praticar pequenos furtos. “A água fazia papel de ‘portão’ pras casas da região. Agora, porém, qualquer um entra pela beira da represa e vem caminhando pelas chácaras para roubar lâmpadas, botijões de gás e abandonar animais”, revela.

Para a esposa de Marcio, a diretora escolar Marcia Lepca, outro bom motivo pra se preocupar com a secura do açude são as consequências que recaem sobre a fauna do local, que mudou bastante nos últimos 5 anos. “A gente via muita capivara, gambá, esquilo e garça aqui na região. Hoje nem as pegadas dos bichinhos a gente vê mais. Isso sem falar nos peixes, que morrem aos montes e ficam espalhados pelo solo”, revela.

Escassez de vida

Diante dos relatos alarmantes de comerciantes e moradores da região é inevitável questionar: afinal, o que tem provocado a crise hídrica do Vossoroca? Falta de chuvas? Ação humana? Desmatamento? Quem responde é o biólogo, professor da Universidade Federal do Paraná e Membro da Rede de Especialistas de Conservação da Natureza, Marcelo Aranha. “Pode-se dizer que uma somatória de problemas tem causado a seca no Vossoroca. Dentre eles, os mais graves são as estiagens – provocadas pela redução significativa de chuvas na região – e a falta de planejamento por parte da empresa gestora do açude”, explica.

Segundo Aranha, a falta de equilíbrio na gestão da vazão da água utilizada para a produção de energia não traz consequências apenas sobre o volume da represa mas sobre todo o ambiente ao redor. “Quando se concentra a retirada de água em apenas um reservatório não há tempo hábil para que ele recupere o volume normal. Isso acaba reduzindo o nível da água, recaindo diretamente sobre a fauna que não resiste ao aumento da temperatura da água e acaba morrendo por falta de oxigênio”, afirma.

Para o especialista, o controle sobre a saída de água no Vossoroca é medida urgente e merece a máxima atenção. “Controlar as chuvas é impossível, mas administrar a vazão dos recursos hídricos não. É necessário que a empresa responsável pela gestão do Vossoroca tenha em mente que o reservatório tem uso múltiplo, não se prestando apenas para a produção energética mas também para outras finalidades, como a exploração comercial por parte da população local”, ressalta.

O que diz a Copel?

Por meio de nota, a Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel) atribuiu a falta d’água no Vossoroca à carência de chuvas dos últimos anos e afirmou que, mesmo com o volume reduzido a 16% do total, a geração de energia não está comprometida. A empresa também afirmou que tem adotado medidas para evitar que o nível da água caia ainda mais, reduzindo a produção pela metade na Usina Chaminé. A empresa esclarece que o controle da vazão é monitorado constantemente e feito por meio de sensores que medem o nível do reservatório, calculando em tempo real o volume de água que sai da represa.

A companhia disponibiliza acesso ao site com informações referentes ao monitoramento do Vossoroca.

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Sobre o autor

Maria Luiza Piccoli

Maria Luiza Piccoli

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