Irmã Inez, a freira do rap, salva vidas através da música no Paraná | Tribuna do Paraná

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Curitiba

Freira do rap

Criada na fazenda, lá no interior do Paraná, ela nunca na vida imaginou ser “moderninha”, super conectada nas redes sociais, sorridente e falante. Muito menos que seria uma freira, ainda por cima uma religiosa que cantasse rap e dançasse hip hop. Mas foi isso que a Madre Inez Souza de Carvalho se tornou: a Irmã Inez, a “freira do rap”. Moradora em Paranaguá, no litoral do Paraná, ela dá shows no Brasil inteiro com sua banda e dançarinos, muitos deles que ela própria ajudou a tirar da rua ou do mundo das drogas. Alguns deles, inclusive, são artistas reconhecidos nacionalmente.

Não tem como não se encantar com a irmã Inez. Basta entrar nas redes sociais dela, principalmente no You Tube, e ver que a freira pra lá de “avançadinha” já fez até flash mob na Ilha dos Valadares, em Paranaguá. Ela vive “montada” do rapper (detalhes coloridos, com correntes, tênis grandes e largos), mas sem nunca tirar o hábito (a roupa de freira).

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Mas Inez diz que nunca imaginou na vida que seria freira. Na infância e na adolescência, sonhava em ser cantora ou dançarina. “Mas um dia uma coisa muito especial aconteceu comigo e neste dia eu decidi seguir a vida religiosa. Nunca imaginei que faria o que faço hoje. Eu me imaginava aquela freira reclusa no convento, que não sai na rua, que ninguém vê, rezando o dia todo, louvando a Deus, no máximo fazendo um bordado”, diz a freira, que apesar da mudança inesperada de planos, diz que hoje é muito feliz com quem se tornou e com o que faz.

Angústia

Depois de tornar-se freira, a primeira missão que Inez ganhou foi a de trabalhar com meninas em situação de risco. Eram moradoras de rua, drogadas, prostitutas, que sofreram violências diversas e estupros, que viviam no Conselho Tutelar ou dentro de um camburão da Polícia Militar. E a missão dada à irmã Inez era evangelizar aquele grupo de 30 meninas, que acabaram acolhidas no convento, em Ponta Grossa, onde ela morava na época.

“Eu não conseguia reunir aquelas meninas para rezar o terço, fazer uma oração, chamar a atenção delas para uma leitura da Bíblia. Era difícil para elas entenderem quando eu dizia que Deus as amava. Meninas que sofreram com tanta violência não conseguiam entender o que era o amor de Deus”, disse a freira. As horas iam passando, os dias iam correndo, e aquela situação deixava a irmã numa enorme angústia.

Música

Um dia a freira sentiu vontade de dançar e cantar com aquelas meninas. “Mas eu não podia dançar músicas de louvor. Eu tinha que dançar coisas que elas gostassem”, diz. Irmã Inez pegou um aparelho de som que tinha no convento, colocou numa sala, ligou nas músicas modernas da época e começou a dançar. As meninas arregalaram os olhos e passaram a dançar junto com a freira, transformando a sala numa grande folia, com as meninas surpresas por ver a freira animada dançando rap, funk e outros ritmos da época.

Desse dia em diante, a Inez entrou na vida delas e o diálogo começou a fluir. Aos poucos a freira começou a levar a pregar para as meninas, que começaram a se encantar com tudo aquilo, passaram a cantar músicas de louvor, ler a Bíblia e a falar de Deus. Pediam à freira para serem inscritas em Festivais de Música Sacra e muitas chegaram a ganhar campeonatos. Algumas fugiam de volta para a rua, mas não para voltar à vida antiga, mas sim para contar às amigas que a vida naquele convento era diferente. Com o tempo, meninas buscavam o convento por causa própria.

Fama

Ela foi chamada por Deus e usa do talento para evangelizar e tirar pessoas de situações críticas, dando esperança e colocando um sorriso no rosto. Foto: Felipe Rosa.

Ela foi chamada por Deus e usa do talento para evangelizar e tirar pessoas de situações críticas, dando esperança e colocando um sorriso no rosto. Foto: Felipe Rosa.

O trabalho da freira era tão bem sucedido, que ainda no primeiro ano ela passou a escrever e cantar pequenas letras de rap. Não demorou muito para a novidades chegar na imprensa e a fama da freira ganhou o país. Inez passou a dar entrevistas e foi parar até no Jornal Nacional, no Programa da Xuxa e no Jô Soares. Artistas globais foram parar dentro do convento para conhecê-la. A repercussão foi tanta que ela recebeu um convite para gravar um CD.

De lá para cá foram muitos shows e sete CDs. “Eu sentia que tinha que ir pra rua fazer meu trabalho. Lotamos ginásios, até mesmo num show que fiz para a Polícia Federal do Mato Grosso lotamos o local”. E assim ela formou banda, com direito a dançarinos de hip hop que foram se tornando profissionais, alguns até campeões de dança.

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Hip hop e salvação

A “freira do rap” não sabe dizer quantas pessoas já resgatou de situações difíceis. Ela já ajudou a tirar gente das drogas, da prostituição, das ruas e não é exagero falar em “milhares” de pessoas que ela já ajudou a progredir. Algumas histórias marcaram muito sua vida, como a da jovem prostituta que um dia entrou chorando na igreja em que a freira estava fazendo uma pregação, em Curitiba.

“Ela me disse que a mãe dela era dona de um prostíbulo e que ela também estava nessa vida há uns sete ou oito anos. Era uma moça muito jovem e já tinha uma filha pequena. Ela chorava pedindo para sair daquilo tudo. Quando eu voltei pra Ponta Grossa, levei ela e a filha pra morarem junto comigo lá no convento. Lá só moravam freiras, me chamaram de doida, de maluca. Mas eu botei pé firme e a deixei morando comigo. Essa moça ficou anos lá, endireitou a vida. Saiu de lá para casar. Hoje tem uma família linda, uma vida bonita”, orgulha-se a religiosa.

Também houve muitos casos de pessoas que desistiram do suicídio, por intermédio da freira. “Eu costumava dormir cedo. Mas teve um dia que eu não conseguia dormir. Por coincidência, o telefone tocou lá no convento, uma hora da manhã. Eu corri atender. Naquele dia a tarde, eu tinha dado entrevista a um programa de TV e ao final eu dei o telefone do convento, para quem quisesse entrar em contato. Esse rapaz assistiu o programa e anotou o telefone na mão. Diferente de outros jovens que eu ajudava, ele tinha uma família, tinha emprego. Mas estava perdido nas drogas, depressivo, queria se matar naquela noite. Mas vagando pela rua, ele disse que passava perto do orelhão e parecia que o orelhão chamava ele pra perto. Ele não conseguia entender porque, até que foi para perto de um, sem saber porque devia fazer aquilo. Foi quando ele viu o telefone anotado na mão e ligou lá para o convento. Pediu para falar comigo. Sorte que fui eu que atendi. Naquela noite, aquele jovem me contou que estava indo se matar, contou dos seus problemas. Eu passei muito tempo conversando com ele. Naquele dia eu não fui dormir. Fui para a capela e fiquei até amanhecer o dia rezando pra ele, só por ele. Sei que à tarde ele ligou de novo pro convento. Não fui eu que atendi, mas ele pediu pra me dizerem que ele tinha pensado muito em tudo, que pela manhã foi trabalhar e que tudo aquilo tinha passado, que a vontade de cometer suicídio tinha ido embora”, diz a madre, que nunca viu pessoalmente o jovem, nem sabe o que aconteceu com ele dele depois. Mas ele foi apenas um das das centenas de pessoas que a religiosa salvou do suicídio.

Festa na Itália

Uma das coisas mais inusitadas da vida da freira aconteceu na Itália, onde ela esteve em missão com outras irmãs. Um padre, amigo de Inez, pediu que ela fizesse uma apresentação numa chácara de recuperação de dependentes químicos que ele cuidava.

“Eu estava apreensiva, pois eu não sabia falar italiano. Como que eu ia conversar com aqueles 50, 60 homens?”, diz a irmã, que então pegou seu pendrive e colocou numa caixa de som. No meio da primeira música, os homens tiraram os seus celulares dos bolsos, ligaram as luzes das telas e animadamente começaram a dançar, como num baile. “Eles pulavam, gritavam, e eu não entendia bem o que estava acontecendo”, contou. No dia seguinte, o padre veio contar que ela conseguiu animar o grupo como nunca ninguém havia conseguido.

Mas o que mais chamou a atenção foi um dos dependentes químicos em específico. “Ele estava há seis meses internado lá e ninguém nunca havia ouvido a voz dele. Estava sempre sentado, olhando para baixo, mudo. Naquela noite, ele dançou muito. Na manhã seguinte, acordou falante, começou a conversar com todo mundo. As psicólogas decidiram introduzir a música no tratamento dos dependentes, coisa que já não era novidade pra mim que faço isso há anos”, orgulha-se a freira, que já fez show até em presídios.

Hoje em dia, a madre Inez trabalha mais com moradores de rua em Paranaguá, trabalho que passou por muita resistência da população no início. A freira não deixou de fazer shows e nem de cantar rap e incentivar os jovens, mas também está dedicada aos “Jesus de rua”, como ela chama as pessoas em situação de rua.

 

 

 

Doutor mentira

 

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Giselle Ulbrich

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