Jovem de Curitiba se destaca pelo amor e orgulho da profissão de panfleteira

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Curitiba

Panfleteira de Curitiba é destaque na difícil profissão: “Feliz e agradecida”

Maria Luiza Piccoli

Dizem que “não é sobre que fazemos, mas sobre quanto amor colocamos naquilo que fazemos”. Mesmo que seja entregando panfletos na esquina. Natiele de Souza tem apenas 20 anos, mas já aprendeu essa lição. Foi pelas ruas, entre os carros, de janela em janela, que ela descobriu sua vocação: panfleteira. E com orgulho!

Foi na Internet que a reportagem da Tribuna a encontrou. Num anúncio, feito por ela própria no Facebook, a descrição de suas habilidades chamou a atenção: “venho através deste post divulgar meu serviço de panfletagem, faço sinaleiro, porta a porta, em frente ao estabelecimento e abordando clientes. Tenho experiência e várias referências caso precise”, diz a postagem.

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Curiosos, fomos conversar com ela para saber um pouco mais da sua história que não foi nada fácil, mas – mesmo assim -, não a impediu de encontrar a alegria numa das coisas mais essenciais da vida: o trabalho.

“Eu queria minha independência, minha liberdade, conhecer outros lugares. Foi esse pensamento que me motivou a sair da casa da minha mãe aos 14 anos”, conta Natiele que, na época, morava em Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Munida de uma mochila com poucos itens ela deixou a casa da mãe e seguiu sozinha para Santa Catarina. “Fui a pé, pegando caronas pela rodovia. Primeiro fui até Matinhos onde fiquei por um tempo e, depois, segui para Barra Velha, em Santa Catarina”, lembra-se.

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A decisão, que pra muita gente soa como loucura, foi para ela uma grande emancipação. “Não foi fácil. Passei por situações desafiadoras, mas a solidão foi o que me ajudou a entender mais sobre mim e o que eu deveria fazer da vida”, conta sem entrar em muitos detalhes. Já em Barra Velha, Natiele tentou colocar-se no mercado mas logo sentiu falta do Paraná e, alguns meses depois – pela mesma estrada que foi – voltou. Desta vez de bicicleta.

“Chegando em Curitiba uma amiga foi me buscar e disse que conhecia um rapaz bacana que queria me conhecer”, conta. Foi paixão à primeira vista. “Ficamos juntos desde então e hoje ele é uma das razões pelas quais decidi criar raízes por aqui”, revela. Nesse período, Natiele conta que chegou a morar nas ruas, na região próxima à rodoviária de Curitiba.

“Nós puxávamos carrinho, catando papelão. As pessoas sempre foram gentis conosco, oferecendo comida, mas era difícil dormir na rua. A gente sempre tenta escolher lugares que não molham, debaixo das marquises, mas os seguranças não deixam a gente ficar. A higiene também fica bem precária e, muitas vezes, as pessoas tratam melhor o seu cachorro que você”, relembra.

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Até então, Natiele sobrevivia como podia, vendendo doces no sinaleiro enquanto seu marido trabalhava como catador de papel. Mas foi com a entrega da panfletos, em 2019, que ela sentiu-se de fato capaz e motivada. “Meu primeiro emprego como panfleteria me pagava 60 reais o dia. Eu trabalhava das 10h às 17h, debaixo de sol, chuva ou geada. Aprendi a me comunicar com o público e descobri que me saía muito bem nisso. Melhor que os demais panfleteiros”, revela.

Aos poucos, o trabalho foi sendo reconhecido e mais e mais panfletos eram entregues. “Cheguei a fazer mais de 1.500 entregas pessoalmente em um só dia”, diz. “Tem gente que faz corpo mole no trabalho. Tem preguiça de andar, de falar com as pessoas. Tem muito panfleteiro que praticamente joga o material na cara das pessoas, ou só estende a mão oferecendo sem nem cumprimentar. Isso estigamatiza a categoria porque, quem trabalha bem é simpático e jamais invade seu espaço. Não é à toa que muita gente recebe mal os panfleteiros”, afirma.

Segundo Natiele, outra prática que ela abomina entre os panfleteiros, são aqueles que “se livram” do material. “Tem alguns que jogam fora e depois dizem que entregaram tudo. Simples assim. É um absurdo”, relata.

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Sabendo de seu potencial e certa de que poderia ganhar mais de R$ 60 por dia, ela decidiu sair da empresa para aventurar-se sozinha no mercado de panfletagem. E veio o resultado. “Fiz um texto simples do Facebook oferecendo meu serviço contando um pouco da minha experiência. Depois disso, mais de 100 empresas já me procuraram como lanchonetes, clínicas, restaurantes e consultórios”, conta Natiele que, com o dinheiro que ganha, conseguiu alugar a casa onde mora hoje com o marido.

Post feito por Natiele no Facebook bombou e deu visibilidade para a jovem que faz o trabalho de panfleteira com dedidação. Foto: Arquivo Pessoal/Facebook.

O segredo da profissão

“O bom panfleteiro não desanima, não se ofende com cara feia e segue o trabalho sorrindo e cumprimentando as pessoas”, recomenda. Ela conta que, ao contrário do que muitos possam pensar, o público não a trata com desprezo. “As pessoas normalmente estão muito ocupadas e eu sei disso. Mas um sorriso – mesmo no sinaleiro – muitas vezes pode mudar o dia de alguém. Tem muita gente que faz doações e oferece ajuda. Uma vez um motorista recusou o panfleto mas tirou 40 reais do bolso e me deu sem explicação nenhuma. Ele disse que tinha sentido no coração que devia me ajudar”, relembra.

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Mais estabilizada, Natiele retornou à Fazenda Rio Grande onde mora perto da casa da mãe e garante: paga todas as contas com o dinheiro da panfletagem. “Meu trabalho é minha alegria. Faço com gosto, feliz e agradecida por tudo que a panfletagem me ensinou e me possibilitou alcançar. Se Deus quiser continuarei trabalhando com isso por muito e muito tempo”, diz Natiele, que tem planos de abrir sua própria empresa. “Um dia ainda vou abrir uma empresa de panfletagem e ensinar as pessoas que realmente queiram aprender a lidar com o público. Não é fácil, nem tudo são flores, mas o serviço nos dignifica. Entregar panfletos é mais que fazer a propaganda de alguém. É aprender sobre respeito, diálogo e solidariedade”, finaliza.

Afinal, panfletagem ainda funciona? 

Com a adesão em massa das empresas à propaganda on-line é de se questionar se ações de marketing como panfletos comerciais ainda funcionam. A resposta é: sim, porém quando muito bem feito e estudado. Segundo o especialista em marketing digital, Luciano Renan da Silva, mesmo com a adaptação do mercado à publicidade na internet, a entrega de panfletos ainda é bastante procurada em determinados segmentos do mercado.

“Quando se fala em marketing tudo pode funcionar desde que haja um estudo do público que se quer alcançar. São duas premissas básicas :primeiro você tem que estar onde os consumidores do seu produto estão e, segundo, é preciso saber quais são as necessidades do seu cliente potencial”, explica.

Segundo o especialista, algumas técnicas podem tornar a panfletagem ainda mais eficiente. “Um atrativo que pode tornar os panfletos interessantes é o oferecimento de vouchers ou tickets de desconto, por exemplo. Que tornam a oferta mais tentadora e estimulam as pessoas a conhecerem o estabelecimento.

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Lembrando, é claro, que só faz sentido distribuir panfletos no perímetro próximo da empresa ou num local que concentre o público que se pretende atingir”, recomenda.

Vale lembrar: atenção com a produção de lixo! Distribuir panfletos, tudo bem. Contanto que haja cuidado com o meio ambiente e que o material seja distribuído em locais com lixeiras próximas.

Quer contratar a Natiele de Souza? Veja aqui o perfil do Facebook dela! Se preferir, o contato dela é o (41) 995627173.

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Maria Luiza Piccoli

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(41) 9683-9504