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Curitiba

Qual é a verdade?

Escrito por Maria Luiza Piccoli

Assassinato de Marielle Franco levanta debate sobre a propagação de notícias falsas.

Aos ouvidos curitibanos o caso chegou como mais uma notícia de violência política, numa terra dominada pelo crime, chamada Rio de Janeiro. Aos poucos, o rosto da vereadora Marielle Franco (PSOL) foi se tornando conhecido com a ajuda de correntes de Whatsapp e da rápida difusão da notícia de seu assassinato na noite de quarta-feira da semana passada. Logo a história corria as redes sociais deixando evidente a polarização de discursos.

De um lado, a defensora dos bandidos. De outro, a voz das minorias, começando a aumentar o volume. A discussão foi longe, chegandoa ganhar incrementos imaginários dignos dos contos de fadas. Diante da repercussão da morte da carioca, questiona-se: de todo o conteúdo que nos chegou, o que pode ser de fato considerado verdade?

Para quem conhecia pouco ou ouvia falar de Marielle pela primeira vez, a reação popular imediata após sua morte causou espanto. Nos dias seguintes ao assassinato da vereadora, não foram apenas as escadarias do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ou as praças públicas espalhadas pelo país ocupadas pela indignação. Union Square em Nova York, Place de l’Opera em Paris, Praça Luis de Camões em Lisboa e até o palco da cantora Katy Perry foram cenário para manifestações que se estenderam além mar.

“Fake News”

Quase na mesma proporção diversos grupos engajados politicamente ou não deram início a uma avalanche de argumentos simpáticos à sua morte, chancelados por vozes de peso do cenário nacional e por uma série de notícias falsas, também chamadas “fake news”.

Imagem que circulou na internet pra dar suporte a notícias falsas sobre Marielle. Foto: Reprodução
Imagem que circulou na internet pra dar suporte a notícias falsas sobre Marielle. Foto: Reprodução

Pelas redes sociais, boatos de que Marielle teria sido casada com o líder do Comando Vermelho, Marcinho VP, também circularam. Uma foto em baixa resolução de uma mulher negra (que não era Marielle) sentada no colo de um homem branco, que não era Marcinho VP, foi usada para dar suporte ao boato. A farsa foi desmascarada. A imagem, copiada de um fotolog foi disparada junto com informações de que ela teria engravidado aos 16 anos e que sua candidatura teria acontecido graças ao Comando Vermelho. Marielle engravidou aos 19 anos e 40% dos votos que a elegeram vieram da Zona Sul no Rio de Janeiro onde ficam bairros como Leblon, Copacabana e Ipanema.

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Discurso de ódio

Para a conselheira, membro da Comissão de Direitos Humanos e coordenadora do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CPPR), Semíramis Maria Amorim Vedovatto, a polarização de discursos sobre o caso Marielle não se limitou à mera liberdade de expressão. “Existe uma linha tênue entre expressar o que se pensa e disseminar mensagens de ódio. Nas redes sociais isso fica ainda mais evidente e se torna quase legítimo quando autoridades importantes vêm a público e, sem ao menos comprovarem as informações, publicam sem pensar que influenciam centenas de pessoas”, afirma.

Uma das vozes poderosas que se pronunciou sobre o assunto foi o comandante do 5.º Comando Regional da Polícia Militar do Paraná, em Cascavel, Washington Lee Abe, que publicou na noite de quinta-feira uma mensagem sobre a morte da vereadora. Na carta, o PM questiona: “Por que tanta tentativa de transformar essa vereadora em mártir? Ela representa o povo? Que povo? Qual segmento do povo? Do cidadão de bem?”. Na Internet a briga foi comprada imediatamente. “Para PMs mortos não tem protesto”. “Trate bandidos como vítimas, e um dia a vítima será você” apenas algumas das mensagens que circularam em resposta ao anúncio das manifestações que aconteceriam em resposta ao assassinato da vereadora.

Busca por fatos

Foto: Renan Olaz/CMRJ
Foto: Renan Olaz/CMRJ

Com o mesmo aparelho celular que se encaminham memes infelizes, no entanto, é possível acessar informações que comprovam versões diferentes da história que envolve o assassinato da vereadora Marielle. Um exemplo é o caso do policial civil carioca, Eduardo de Olvieira, morto em 2012 – cujo processo foi acompanhado de perto por Marielle. À reportagem do portal G1, um ex-comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro ressaltou o intenso trabalho da vereadora junto à Comissão de Direitos Humanos da Alerj, principalmente no apoio às famílias de policiais mortos.

Mais uma vez os fatos se sobrepõe à fantasia. “É extremamente preocupante ver o engajamento de tantos sem o mínimo interesse de entender a realidade. É preciso, antes de mais nada, que se respeite o compromisso com a verdade antes de propagar qualquer informação”, ressalta Semiramis Vedovatto, da Comissão de Direitos Humanos.

Outras correntes, menos tacanhas, tentaram reduzir a morte da vereadora a apenas mais um, entre tantos assassinatos no país. Outra linha a ser impugnada. “Quando se tenta reduzir a morte da vereadora a só mais um caso nas estatísticas, acaba-se restringido a violência à bandidagem das ruas, como se na política isso não existisse. Tudo aponta que aquilo foi uma execução premeditada. Aqueles tiros tinham endereço certo. Além de nenhum pertence ter sido levado, os executores deixaram claro se tratar de um recado que serviu para calar outros discursos. A morte de Marielle não pode ser vista como um caso de violência comum”, afirma o doutor em educação histórica pela UFPR e professor de história e filosofia do Curso Positivo, Daniel Medeiros.

Corpo da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes deixa Câmara do Rio sob aplausos e pedidos por justiça. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Corpo da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes deixa Câmara do Rio sob aplausos e pedidos por justiça. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Se informe antes!

Antes de qualquer empatia ou simpatia ao caso Marielle Franco, a questão a ser ponderada é por que de, antes mesmo da conclusão das investigações a respeito do crime, tantas sentenças já terem sido proferidas. É necessário ponderar o motivo da divulgação de informações errôneas e não só isso, do mero discurso de ódio, descomprometido e desalicerçado. “O discurso de ódio não serve a nenhuma linha política e nem de pensamento. Pode-se até pensar que se está defendo uma causa ao dizer que a pessoa merecia morrer, mas não. No fim, isso é combater violência com mais violência”, finaliza Medeiros.

Sobre o autor

Maria Luiza Piccoli

(41) 9683-9504