Parque Marumbi tem estrutura precária e oferece riscos | Tribuna do Paraná

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Morretes

Paraíso precário

Jadson Andre
Escrito por Jadson Andre

Na jornada para o litoral, seja em uma bela viagem de trem ou se aventurando pelo Caminho do Itupava, a parada na Estação Marumbi é praticamente obrigatória. Um dos pontos mais famosos da Serra do Mar, que ostenta belezas da Floresta Atlântica, o conjunto de montanhas é considerado o berço do montanhismo no Paraná. As atrações desta, que é a maior unidade de conservação aberta ao público do Estado, vão desde trilhas cortadas por rios, perfeitas para um passeio em família, até os oito cumes – entre eles o Monte Olimpo, com 1.539 metros de altura – que desafiam atletas de alto desempenho.

“Um lugar maravilhoso, que transmite paz, e que temos a responsabilidade de preservá-lo”, classificou o governador Beto Richa (PSDB), em 2015, ao entregar obras de melhoria na estação. De acordo com dados do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), em média 400 pessoas costumam passar pelo Parque do Pico Marumbi nos finais de semana.

Más condições

No entanto, mesmo com esse grande valor para o turismo e esporte, a proteção ficou só no discurso. Quem visita a estação e o parque encontra pouco suporte e quase nenhuma orientação. Não há guias preparados indicando os melhores caminhos para que os visitantes não desapareçam na mata ou agindo na prevenção de acidentes.

A manutenção das trilhas também está precária, com correntes e outros equipamentos de apoio desgastados e oferecendo risco. De acordo com o IAP, órgão responsável pela administração do parque, apenas dois funcionários permanecem no local: um no controle de entrada pela estrada e o outro na Estação Marumbi, fazendo o cadastro dos visitantes que lá se apresentam.

Em caso de acidente e nas situações de pessoas perdidas na mata, é necessário chamar o resgate do Corpo de Bombeiros. O posto mais próximo fica em Morretes. A unidade é responsável pelo atendimento dos cerca de 16 mil habitantes do município e tem bombeiros especializados no trabalho em montanha.

Contudo, o tempo estimado para chegar à Estação Marumbi, pela estrada acidentada e que exige deslocamento com veículo tracionado, é de aproximadamente 40 minutos. Caso a vítima esteja em alguma trilha ou cume distante da estação, o tempo para o primeiro socorro pode aumentar ainda mais.

Foto: Lineu Filho
Conjunto Marumbi visto de Porto de Cima. Foto: Lineu Filho

Acidentes e buscas

Segundo dados do Corpo de Bombeiros, somente nestes primeiros meses de 2018, seis pessoas ficaram feridas em acidentes no parque e outras duas precisaram ser resgatadas após se perderem. Em 2017, foram 13 atendimentos: nove pessoas feridas – a maioria após sofrer queda – e outras quatro que precisaram ser resgatadas.

O último acidente aconteceu no domingo passado. Duas mulheres, de 46 e 27 anos, sofreram queda nas proximidades da Estação Marumbi. A mais velha teve traumatismo craniano e fratura no nariz, enquanto a outra apenas torceu o pé. A visitante que ficou em estado mais grave foi socorrida pelos bombeiros do 8.º Grupamento e encaminhada pelo helicóptero do Batalhão de Operações Aéreas da Polícia Militar ao hospital. Segundo familiares, ela recebeu alta após passar por procedimentos médicos e se recupera em casa.

Resgate voluntário

Resgate realizado pelos voluntários do Cosmo. Foto: Arquivo
Treinamento realizado pelos voluntários do Cosmo. Foto: Arquivo

Diante da ineficiência do Estado em manter guias e socorristas de prontidão no Parque do Pico Marumbi, a comunidade da montanha se organizou para preencher esta lacuna. Em 1996, o Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo) foi fundado por montanhistas para dar suporte, orientação e pronto atendimento em casos de resgate de feridos ou perdidos no parque.

O grupo, com cerca de 40 voluntários, entre escaladores experientes, médicos e socorristas, foi responsável por diversas incursões de salvamento na Serra do Mar e teve um protagonismo importante na manutenção e sinalização de trilhas e vias de escalada.

A parceria com o IAP, através de um Termo de Cooperação Técnica, garantia a atuação desse grupo de voluntários, que mantinha uma sede própria com almoxarifado para equipamentos de resgate, alojamento e até uma biblioteca na estação. Com escalas de plantão regulares no parque, os membros do Cosmo davam segurança e orientação aos visitantes.

Além dos resgates, voluntários do Cosmo faziam manutenção das trilhas do parque. Foto: Lineu Filho
Além dos resgates, voluntários do Cosmo faziam manutenção das trilhas do parque. Foto: Lineu Filho

“Divórcio”

Mas em 2011, com as obras de reforma da estação, o grupo perdeu a sede própria e precisou usar uma improvisada. O trabalho dos voluntários ficou prejudicado e, em 2012, eles encerraram formalmente as atividades na região.
Depois disso, passaram a atuar de forma modesta, longe do esquema organizado que mantiveram por 16 anos. Em 2015, ao entregar as obras, o governador Beto Richa assinou novamente o termo de cooperação com o Cosmo, mas entraves administrativos no IAP, que se arrastam há três anos, continuam impedindo que o grupo volte a atuar no Marumbi.

O resultado foi mais trabalho para os bombeiros. Em 2012, por exemplo, último ano em que o Cosmo atuou efetivamente no Parque Marumbi, os bombeiros precisaram fazer apenas cinco atendimentos na região, com quatro pessoas feridas, praticamente a metade dos resgates realizados em 2017 e menos ainda que os atendimentos destes três primeiros meses de 2018.

Voluntários

Voluntários do Cosmo entregam vítima de queda no morro aos bombeiros. Foto: Aniele Nascimento
Voluntários do Cosmo entregam vítima de queda no morro aos bombeiros. Foto: Aniele Nascimento

“Acidentes acontecem e não é a presença do Cosmo no morro que vai impedir isso. Mas podemos atuar no trabalho de prevenção. Fazíamos manejo nas trilhas, resgates e orientação dos visitantes, tudo de forma voluntária”, explicou o biólogo Alexandre Lorenzetto, coordenador geral do Cosmo e integrante da União Internacional para a Conservação da Natureza.

O Cosmo também é responsável por ministrar cursos de capacitação aos bombeiros que atuam em resgates na montanha. O próximo acontece neste final de semana no Marumbi. “Mesmo sem homologação do termo de cooperação com o IAP, continuamos atuando de alguma forma”, comentou Alexandre.

Médico do Siate há 20 anos e membro da comissão técnica do Cosmo, Marcos Chesi também critica a morosidade do Estado. “Somos um grupo especializado, com gente que escalou até o Monte Everest. Somando comigo, somos cinco médicos voluntários, mais do que em muito posto de saúde. É patético não termos condições de atuação no Marumbi por causa de um imbróglio burocrático”, afirmou Chesi. “A direção do parque fica nos enrolando. É como se uma empresa recusasse ter quase 40 funcionários, altamente preparados, com força de vontade e trabalhando de graça pra manter o Marumbi mais seguro”, desabafou.

O IAP reconheceu a demora para homologação do termo de cooperação, que dá condições para que o Cosmo volte atuar no parque, mas garantiu que isso deve acontecer em breve. “Temos todo o interesse em ter os voluntários ajudando no parque. A atuação deles é muito importante. Na última vez que consultei, o termo técnico estava em nosso setor financeiro. Acredito que em pouco tempo os últimos ajustes serão finalizados, mas nada que comprometa a essência do acordo”, afirmou Maria do Rocio Lacerda Rocha, chefe do Departamento de Unidades de Conservação do IAP. “Temos dois funcionários lá e o gerente do parque que tem muita experiência e sempre costuma estar na região. Os bombeiros também nos dão total apoio”, comentou Maria do Rocio.

Foto: Zig Koch
Foto: Zig Koch

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