Zico disputou três Copas do Mundo, em 1978, 1982, 1986. Nelas, viveu todo tipo de experiência. De um garoto que começava a despontar como craque à grande esperança do time. Foi herói e foi vilão, como no pênalti perdido no tempo normal contra a França, em 1986, um estigma até hoje. Zico sabe bem, portanto, o que é carregar a expectativa de todo o País sobre os ombros, de ser aquele que deveria decidir os jogos, e viver a frustração de ser cobrado por falhar. E Zico tem gabarito para decretar: “A seleção tem de jogar para o Neymar. Você tem um fora de série, tem de explorar. Tem gente que diz que não se pode jogar essa responsabilidade para ele. Tem que jogar porque ele já mostrou que está preparado”.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada nesta sexta-feira, Zico comentou a importância de Neymar disputar uma temporada na Europa antes da Copa do Mundo, sua aposta na Argentina como grande adversário do Brasil, as escolhas de Luiz Felipe Scolari e o novo Maracanã.

Ao falar sobre Neymar, Zico ressaltou: “Acho que vai ser importante para ele e a seleção brasileira. Vai disputar as grandes competições. Cresce um pouco mais a responsabilidade, pois se espera muito dele. Ele vai enfrentar o tipo de marcação que terá na Copa. Estava precisando se redescobrir. Acho que, num time com jogadores de alto nível, a tendência é o crescimento dele”.

E o maior ídolo da história do Flamengo lembrou que o próprio foco de Neymar apenas no futebol irá aumentar com a sua saída do Brasil, onde ele vinha dividindo muito de sua rotina de jogador com os compromissos publicitários com seus patrocinadores.

“Aqui, ele estava com muitos compromissos além do futebol. Por mais jovem que você seja, é muito desgaste. Lá (na Espanha), vai acabar isso. O Barcelona sabe resguardar bem o atleta. Lá, ele vai estar mais dedicado aos treinamentos e à condição física. Vai ser benéfico para ele e a seleção”, aposta.

Já ao projetar a participação de Neymar na Copa das Confederações, Zico defendeu que a seleção brasileira jogue em função do talento do craque, apostando no seu poder de decisão. “O Messi só agora começou a ter melhor rendimento na Argentina. Quando você tem esse tipo de jogador, você tem de fazer o jogo para eles. Quando a Argentina começou a entender que se jogasse em função do Messi seria beneficiada, passou a fazer isso. Tem que jogar para o Neymar decidir. Se você tem um fora de série tem que explorar, deixá-lo para o momento certo. No basquete, para quem vai a última bola? Para o fera. Você tem um fera no futebol, você tem que ir nele. Tem gente que diz que não se pode jogar essa responsabilidade para ele. Tem que jogar, porque ele já mostrou que está preparado. Pedir para jogar com a 10 mostra que ele sabe a responsabilidade que tem”, enfatizou.

Felipão

Zico também respaldou o trabalho que vem sendo realizado por Felipão na seleção e, ao ser questionado sobre o atual grupo chamado para a Copa das Confederações, disse ter aprovado as escolhas do técnico. “Dessa seleção que foi convocada não tem um que você possa dizer que foi injustiçado. Eu não vejo injustiça nenhuma (taxativo). Eu vejo preferência. Talvez alguém tenha preferência por um ou dois, mas a convocação é isso que está aí”.

Argentina

Já ao falar da Copa do Mundo de 2014, Zico apontou a Argentina como a seleção que tem maiores chances de tirar o título do Brasil, que hoje não é o principal favorito ao título, mas jogará em casa.

“É a Argentina, por causa do Messi. O retrospecto dos europeus na América do Sul, fora da Europa, não é dos melhores. Então, eu acho que a Argentina, por causa do Messi e por ter encontrado um estilo de jogo que o favoreça. Os jogadores entenderam que é ele que vai decidir as partidas. Depois, a Alemanha e a Espanha. Tenho minhas ressalvas à Espanha porque os rivais começaram a entender como é que eles jogam. E eu não os vejo conseguindo encontrar uma solução. O Barcelona sem o Messi é a seleção da Espanha. Toca para lá, toca para cá, ninguém dribla. No Barcelona, você dá no Messi, ele dribla e abre tudo. Sem o Messi, ninguém dribla, aí o adversário monta uma barreira e ninguém entra. A Espanha é isso. Eles têm que encontrar alternativas para sair dessas marcações”, enfatizou.

Maracanã

Maior palco da carreira de Zico, o Maracanã ganhou uma nova cara totalmente remodelada para abrigar jogos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2014, até porque precisava atender aos padrões exigidos pela Fifa. O ex-jogador elogiou a reforma do lendário estádio, mas criticou a diminuição das dimensões do gramado.

“Era necessária (a reforma). O Brasil precisava de uma remodelação. A Fifa tem suas exigências. O Maracanã ficou mais bonito, mais confortável. Em todo lugar do Maracanã você vê o jogo bem. A única coisa que eu não gostei foi a diminuição do campo. (O antigo) viveu o tempo dele. Vai continuar a ter sua magia. Daqui a pouco as torcidas começam a ocupar seus espaços e fazer uma nova festa. Padronizou? Padronizou. Mas, daqui a pouco, o ingresso vai baixar e não vai ficar coisa de elite, de bacana”, acredita.