Reginaldo Castro/APB
Ádria dos Santos fez uma prova exemplar
e garantiu a quarta medalha de ouro.

Atenas, Grécia – A brasileira Ádria Rocha dos Santos, mineira da pequena Nanuque, é a maior velocista cega do mundo em todos os tempos. Ontem, em Atenas, ela ganhou a quarta medalha de ouro em Jogos Paraolímpicos e aumentou sua coleção para dez – além dos muitos resultados internacionais.

Ádria, que está em sua quinta paraolimpíada e que vinha de dois ouros em Sydney, nos 100m e 200m (além de um ouro em Barcelona nos 100m), provou nesta segunda que na distância dos 100 é mesmo imbatível e faturou o tetra com 12s55. Para dourar ainda a festa brasileira, os 200m renderam mais dois ouros, com Antônio Delfino e André Andrade, em categorias diferentes – além do bronze de Maria José Alves, a Zezé.

Ádria foi a terceira do trio de ouro brasileiro a cruzar a linha da pista de atletismo do Estádio Olímpico, o coração dos jogos. Cobriu os ombros com a mesma bandeira que havia servido antes a Delfino, André e Zezé. A felicidade não cabia no peito. O primeiro pedido foi falar com a filha pelo telefone celular. “Filha, a mamãe vai te levar o ouro. Eu prometi e vou levar. Eu ganhei o ouro!!!”, dizia Ádria, chorando e abraçada a Jorge Luiz Silva de Souza, o Chocolate, seu guia em competições oficiais há seis anos.

Bárbara, a filha de 14 anos, que no domingo ganhou uma medalhinha na escola jogando futebol, foi a principal inspiração desta moça que entrou no atletismo em 87, no Instituto São Rafael, escola para deficientes visuais em Belo Horizonte. Atualmente, depois de viver muitos anos no Rio, mora e treina em Joinville (SC). Ela está machucada, sente dores na panturrilha esquerda, uma dificuldade pequena para quem já passou por tantas. Ádria foi perdendo a visão ao longo da vida por causa de uma doença conhecida como retinose pigmentar e do astigmatismo de nascença. Nada a fez desistir.

Não seria logo nesta segunda que iria fraquejar. “Quando alinhei para largar, pensei na Bárbara. Disse pra mim mesmo: prometi a medalha a ela, ninguém vai me tirar. Aí foi só esquecer a dor e dar tudo. O melhor é que ela, desta vez, viu tudo ao vivo pela televisão. Espero que as pessoas agora valorizem os paraolímpicos ainda mais.” E Ádria deu tudo mesmo.

Venceu a prova com autoridade de campeã. Terá ainda pela frente as provas de 200m e 400m em Atenas. É favorita, não há dúvida. Não acredita que a contusão vá atrapalhá-la. Determinada, é considerada pelos companheiros como um fenômeno do atletismo.