Eram 14h50, eu saía do hospital para a redação da Tribuna. Começaram a pipocar as mensagens via WhatsApp e eu levei um choque. Afinal, a informação que vinha era de que Adriano Gabiru, ídolo do Atlético e herói do título mundial do Internacional, tinha morrido em um acidente de carro. A notícia oficial partiu do site do canal da TV Esporte Interativo, famoso por oferecer fábulas para os clubes para a transmissão do Campeonato Brasileiro. A matéria foi publicada às 14h48. Eis a mensagem do canal no twitter:

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Uma notícia horrível, ainda mais pra quem o conheceu e conviveu com ele – ele era um dos melhores jogadores do Atlético entre 1999 e 2000, anos em que fui setorista do Furacão. A informação era sustentada por uma nota da Sociedade Esportiva Recreativa Panambi: “É com imenso pesar que Sociedade Esportiva Recreativa Panambi informa o falecimento do atleta Carlos Adriano de Souza Vieira, conhecido como Adriano Gabiru. O jogador se envolveu em um acidente na madrugada desta quinta-feira (29) na Estrada da Encarnação, no município de Panambi, RS, enquanto voltava da comemoração de aniversário de um amigo“. O texto inclusive informava o traslado para Maceió e o início do velório.

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Enquanto vinha para a redação, já pensava em como escrever o texto lembrando da passagem dele pelo Rubro-Negro e a incrível história no Inter, onde era odiado pela torcida até marcar o gol contra o Barcelona, na decisão do Mundial de Clubes de 2006, e depois foi recebido em Porto Alegre com os gritos de “me perdoa, Gabiru”. Mas nem deu tempo de pensar direito, porque às 14h57 o jornalista André Pessôa, curitibano e hoje morando no Rio, me manda uma mensagem: “Agora tão falando que é mentira”. E era.

Portanto, em nove minutos Adriano Gabiru, 39 anos, morreu e ressucitou, pelo menos na loucura da internet. Quem embarcou na onda, tanto jornalistas quanto torcedores, cometeram o famoso erro de checagem. Receberam a nota e publicaram na hora. “Fulano morreu? Ah, então vamos publicar primeiro”. É assim que acontece. Foi isso que o Esporte Interativo fez, e chegou a admitir em nota publicada às 15h26 (quarenta minutos depois da “morte”).

A essa hora, Adriano e seus familiares já tinham dado entrevistas para meio mundo – e até onde se sabe ainda não conseguimos entrevistar mortos. Gabiru está em Curitiba, com a esposa, e tomou um susto quando viu a repercussão. E nós, jornalistas e “personalidades das redes sociais”, já chupando o sangue dele sem imaginar qual seria a reação de um familiar desavisado ao ver a notícia.

(Ah, mas depois a gente pede desculpas, né?)

As redes sociais e a internet aproximaram todo mundo. Mas criaram dois gigantescos problemas. O primeiro é a agressividade de quem se esconde atrás de um computador e fala qualquer coisa, achando que está abafando. O segundo, perigoso pra nós, jornalistas, é a pressa de querer ser o primeiro a divulgar as coisas. Dane-se quem dá a notícia primeiro, prefiro apurar direito a ser tachado de “atrasado”.

Por não atrasar, por não apurar, por não fazer jornalismo direito, estamos nos igualando a quem trolla na internet. E quem trolla também é trollado. E cada mico como a “não-morte” de Adriano Gabiru mata não o jogador, graças a Deus vivinho da Silva, mas sim o jornalismo, cada vez menos informado e mais especulado.