São Paulo – Ele dá a impressão de ser jovem demais em tudo. Era  jovem demais quando guiou um kart pela primeira vez, aos três anos. Quando estreou na F-1, aos 19. Quando fez a primeira pole, aos 21. Quando ganhou a primeira corrida, aos 22. E agora, aos 24, quando conquistou seu primeiro título mundial.

Fernando Alonso só não parece jovem demais quando guia e quando fala. E quando fala, recorre a um tom excessivamente amargurado para quem é tão novo e vitorioso. Ao falar sobre a conquista histórica, fez questão de frisar que na Espanha nunca recebeu apoio de ninguém, dedicou o título ?a dois ou três amigos e à família? e não teve muito pudor ao dizer que o que conseguiu na vida, conseguiu praticamente sozinho, por conta própria.

É uma meia-verdade, já que quando tinha 12 anos foi adotado por Genis Marcó, dono de uma empresa chamada Genikart, que bancou sua participação no campeonato espanhol. Aos 13 ele teve de trabalhar como mecânico para ajudar a custear sua temporada, mas aos 14 já ganhava para correr.

Fernando talvez guarde algum ressentimento da infância difícil, ao lembrar o esforço de seu pai, José Luis Alonso, para que o menino pudesse correr. ?Eu sabia que tudo que ele e minha mãe ganhavam gastavam no kart. Meu esporte era um sacrifício para eles. Por isso a maior recompensa era ver a expressão no rosto do meu pai quando eu ganhava alguma corrida. Isso não tinha preço.?

As dificuldades eram traduzidas em viagens longas e solitárias dormindo no banco de trás do carro do pai, mil, dois mil quilômetros por fim de semana, para disputar corridas nos mais distantes recantos da Espanha saindo de sua pequena Oviedo, nas Astúrias.

Em 1999, Alonso começou a chamar a atenção numa categoria pouco importante, a F-Nissan, que era bancada pela Renault. Ganhou o campeonato depois de conquistar seis vitórias, nove poles e oito melhores voltas. De presente, ganhou um teste na Minardi em Jerez.

Correu na F-3000 em 2000 pela Astromega e venceu uma prova, em Spa. A Renault continuava de olho nele, e quando a Ferrari cogitou uma aproximação, os franceses o contrataram via Flavio Briatore. Que imediatamente o colocou para correr na Minardi em 2001, aos 19 anos, tendo como companheiro e tutor um brasileiro, Tarso Marques. ?Foi o companheiro mais rápido que tive, aprendia tudo muito rápido e estava na cara que ia ser campeão um dia?, disse Tarso ontem em Interlagos.

Mesmo assim, na Minardi ninguém faz milagre, e em 2002 Fernando seguiu seu aprendizado como piloto de testes da Renault, sendo efetivado como titular no ano seguite. Aí começou a derrubar barreiras. Tornou-se o mais jovem a fazer uma pole, na Malásia, e a vencer uma corrida, na Hungria.

Veterano precoce, Fernando é econômico nas palavras e pouco afeito a demonstrações de emoção ou simpatia. A imprensa espanhola, em geral, o odeia por considerá-lo arrogante e prepotente. Mas rende-se ao seu talento e dedica a ele páginas e mais páginas, manchetes e mais manchetes, incapaz de impedir que o país o trate como um herói.

Fernando ganhou o mundial ontem. No pódio de Interlagos, tinha os olhos ligeiramente vermelhos. Chorou discretamente, em silêncio. Abraçou a taça como se ela fosse uma criança. Como seu pai o abraçava e ninava quando era um garotinho, que voltava dormindo no banco de trás depois de ganhar uma corrida de kart em algum canto da Espanha. ?Nanín? chegou lá.

Rubinho marca teste na BAR

São Paulo – Rubens Barrichello disputou ontem seu último GP do Brasil pela Ferrari já com a cabeça no ano que vem. O piloto teve marcado seu primeiro teste na nova equipe, a BAR. Será no dia 11 de janeiro, provavelmente em Barcelona. O piloto também começou a fazer breves balanços de seus seis anos de Maranello. Falou que as relações com o time começaram a piorar em 2002, depois da marmelada da Áustria, e que só não saiu antes do time porque não teve nenhuma proposta ?interessante?.

Sexto colocado ontem em Interlagos, Rubens foi protagonista de uma das poucas boas ultrapassagens da corrida. Aconteceu justamente sobre seu próximo companheiro de equipe, Jenson Button, na abertura da 44.ª volta. Ele colocou por dentro no S do Senna e ganhou a posição do inglês. ?Foi até perigoso porque a pista estava úmida naquele ponto?, disse.

Os outros dois brasileiros foram mal em Interlagos. Antonio Pizzonia, coitado, andou poucos metros. Foi acertado por trás na largada por David Coulthard, da Red Bull, que levou junto o companheiro do amazonense, Mark Webber. ?Senti a batida antes de começar a frear. Não tenho olhos atrás, não tinha como ver. Estou surpreso porque ele é um piloto muito experiente. É triste acabar uma corrida assim, ainda mais no meu País.?

Para Felipe Massa, a prova foi chata. Ele terminou em 11.º, depois de largar mal e perder duas posições logo no início.

Para Emmo, em boas mãos

São Paulo – Emerson Fittipaldi perdeu ontem um recorde que já durava 33 anos na Fórmula 1. O brasileiro não pôde comparecer ao GP do Brasil estava na Inglaterra , mas acompanhou a corrida e saudou Fernando Alonso, agora o mais jovem campeão da história. ?Tenho muita admiração por Alonso e nossas carreiras são parecidas, porque ele também chegou rapidamente à Fórmula 1?, comparou, em uma nota oficial na qual rasgou elogios ao espanhol.