Porto Alegre – O zagueiro Antônio Carlos, do Juventude, admitiu na tarde de ontem ter ofendido o volante Jeovânio, do Grêmio, durante o jogo de domingo entre as duas equipes, em Caxias do Sul, pelo Campeonato Gaúcho. Ele disse não se lembrar exatamente o que falou, alegou que estava de cabeça quente e pediu desculpas. Jeovânio, porém, afirmou que jamais vai perdoar Antônio Carlos.

?Uma atitude dessa não pode ser perdoada por ninguém. O que o Antônio Carlos fez não tem classificação, é racismo puro.

E não adianta querer explicar que estava querendo limpar o sangue do braço, não é verdade. Todo mundo viu, pela televisão, que ele se referiu a mim, ao esfregar os dedos nos dois braços, como sendo negro, e isso eu não admito?, disse Jeovânio, em entrevista na tarde de ontem.

O zagueiro do Juventude tentou se explicar em programa da TV CNT. ?Eu estava de cabeça quente. Falei um monte de coisa, mas não lembro exatamente o quê. Peço desculpas?, disse Antônio Carlos, que tem 35 anos e já passou por grandes clubes, além da seleção brasileira.

Outra versão

Depois, em entrevista coletiva na sede do Juventude, acompanhado por dois dirigentes, Antônio Carlos continuou tentando se explicar. Dessa vez, alegou que teria ocorrido uma discussão com o lateral Patrício, do Grêmio, após a cotovelada que deu em Jeovânio. Ele também disse que, após ser expulso, Patrício o teria insultado.

?Mostrei a ele que já tinha vestido outras camisas, inclusive de times maiores que o dele?, disse Antônio Carlos, tentando justificar os gestos da passagem dos dedos nos dois antebraços. ?Não sou racista e nunca fui racista. Não temo eventuais manchas na carreira e nem um processo judicial.?

Antes disso, ainda no domingo, Antônio Carlos tinha dado outra versão para tentar justificar seus atos. Disse que estava limpando o braço no momento do gesto polêmico.

Sem perdão

Jeovânio não engoliu a justificativa. ?Eu e minha família ficamos chocados com o que aconteceu lá em Caxias do Sul. Quando cheguei em casa, já de noite, encontrei a minha esposa, Kátia, chorando. Ela nunca pensou que um colega de profissão pudesse ter esse tipo de atitude. E como isso partiu de um jogador experiente, não dá para perdoar. Se fosse um menino, iniciante, que tivesse 17 ou 18 anos, eu seria até capaz de relevar?, revelou.

Jeovânio falou que não viu quando Antônio Carlos esfregou os dedos nos dois braços porque já tinha entrado no vestiário, substituído por Nunes. ?Se tivesse presenciado aquela atitude, teria voltado ao campo e aí o problema seria maior porque não iria agüentar aquilo sem tirar satisfações?, garantiu.

Denúncia

Depois da entrevista coletiva no Estádio Olímpico, Jeovânio, acompanhado pelo presidente do Grêmio, Paulo Odone Ribeiro, foi até o Ministério Público do Rio Grande do Sul para relatar ao subprocurador geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Mauro Renner, o que aconteceu no Estádio Alfredo Jaconi. O magistrado foi enfático ao dizer que o jogador fez muito bem em procurar o MP: ?Não podemos permitir que não se faça nada neste caso?.

Na investigação serão ouvidos Antônio Carlos, Jeovânio e eventuais testemunhas. Depois será decidido se a denúncia será encaminhada ao Ministério Público ou se o caso será arquivado. O crime de racismo é inafiançável no Brasil.