Nascido num país sem expressão no futebol internacional, Abdullah Al Kamali já tem o seu nome gravado na história do esporte dos Emirados Árabes Unidos e de toda a sua comunidade ao se tornar o primeiro jogador árabe a atuar num clube profissional do Brasil, país cujo esporte é referência mundial.

Mas o jovem de 18 anos ambiciona mais. Ele também deseja marcar seu nome no Atlético Paranaense. E para isso treina à espera de uma oportunidade que sonha um dia chegar.

Kamali desembarcou em Curitiba em junho deste ano, após uma negociação efetivada pelo então presidente do Deliberativo atleticano Mário Celso Petraglia. A apresentação do garoto mereceu destaque. Aconteceu na Arena da Baixada, privilégio para poucos jogadores profissionais do clube, que normalmente concedem suas primeiras entrevistas no CT do Caju.

Devido à inexperiência e à pouca idade, Kamali foi encaminhado para treinar junto à equipe B, o time sub-23 do Rubro-Negro (jogadores em formação) e que ainda não tem espaço junto à mídia.

Por isso, o jogador desapareceu quase por completo dos noticiários. Nesse período de adaptação, ele participou de alguns jogos da Copa Paraná para se ambientar ao futebol profissional, já que antes havia atuado com a camisa do Atlético apenas em dois torneios na Europa com a equipe de juniores.

E foi na equipe B que Kamali sentiu o gostinho de marcar o seu primeiro gol na Arena e de ser aplaudido por torcedores, grupo pequeno mas “uma emoção marcante”, segundo confidenciou. E o atacante tem vivido o que é o futebol brasileiro em todas as suas nuances. Inclusive no penúltimo jogo da Copa Paraná foi expulso, ao se desentender com um marcador.

Kamali mora no CT do Caju pela comodidade de residir no mesmo local onde treina, e foi lá que concedeu uma entrevista à Paraná-Online. Nela adiantou que ficará mais tempo no Atlético, já que seu contrato expira agora em dezembro, e que pretende ainda atuar no time principal. Quer disputar um derby contra o Coritiba, pois assistiu um Atletiba como torcedor e ficou impressionado com a festa e o que representa o clássico.

Atualmente, o atacante integra a delegação rubro-negra que disputa o Campeonato Brasileiro Sub-20, no Rio Grande do Sul. A seguir, a entrevista que contou com a participação do assessor do Atlético, Vinícius Araújo.

“O tempo daqui é muito louco”, diz Kamali

Paraná-Online: Como você avalia a sua presença no Atlético?

Kamali: Eles têm um sistema muito profissional, principalmente aqui no CT. Não havia visto nada igual em outro país. Então é ótimo estar aqui.

Paraná-Online: Seu contrato com o Atlético encerra agora em dezembro. Você permanece?

Kamali: Sim, para a próxima temporada. O contrato (que está expirando) foi assinado por seis meses em caso de eu não me adaptar ao futebol brasileiro. Mas joguei os torneios na Europa (Alemanha e Holanda) e foi tudo bem. Então agora já há acerto até maio, mas que pode ser estendido.

Paraná-Online: A sua contratação abriu o mercado árabe para o Atlético. Num futuro próximo há possibilidade da intensificação dessas negociações, principalmente em investimentos no futebol do Rubro-Negro?

Kamali: Porque não? Outros jogadores árabes podem vir jogar aqui, mas há concorrência forte do futebol europeu que está de olho nos jovens valores que surgem por lá, principalmente a (categoria) sub-20. Quanto aos negócios, é uma possibilidade (novos investimentos). Após assinar com o Atlético, muitos da minha região passaram a conhecer o Atlético e toda a sua estrutura. Então é po,ssível. Se o Arsenal mantém contrato com a Emirates porque não o Atlético? Espero que investimentos possam vir a acontecer.

Paraná-Online: O que você acredita que levará de aprendizado do Brasil quando deixar o clube?

Kamali: Além de melhorar meu futebol a questão de conviver e aprender como o brasileiro se comunica. Há muitos jogadores brasileiros espalhados por diversos países, inclusive países árabes. Então é importante eu aprender, pois são culturas diferentes. Quando jogar em outros clubes que tenham atletas brasileiros já saberei como eles agem e pensam.

Paraná-Online: O que conheceu em Curitiba e gostou.

Kamali: Curitiba é uma cidade ótima, mas o tempo é louco – dias de chuva, outros calor, mas é uma cidade que gostei. Há coisas boas para visitar. Shopping center é um bom lugar para sair com os amigos. Churrascaria é uma coisa nova para mim, mas gostei. Mas não tive tempo suficiente para conhecer muita coisa, devido aos treinos.

Paraná-Online: O que chamou mais atenção nesta sua passagem pelo Brasil e por Curitiba.

Kamali: Como o brasileiro vive o futebol. A relação do brasileiro com o futebol. Mulheres, crianças, todos participam. (O jovem presenciou o Atletiba e ficou fascinado com o que viu.)

Paraná-Online: Você já jogou na Arena, mas não disputou nenhuma partida com o time principal. Esse é o seu principal objetivo?

Kamali: Sonho com isso, na Arena e disputando um Atletiba. E espero marcar. Isso seria maravilhoso.

Paraná-Online: Qual foi a maior dificuldade de adaptação?

Kamali: O idioma apenas. E inicialmente, porque as pessoas aqui são bem receptivas, procuram se comunicar.

Paraná-Online: E o que você mais estranhou em seu cotidiano, que representou uma diferença grande de comportamento entre as culturas do seu povo e do Brasil.

Kamali: O que mais estranhei (risos) foi o pós-jogo, na hora de tomar banho. Lá não é normal todos (jogadores) ficarem totalmente sem roupa no vestiário. No começo ficava de sunga. Agora, depois de seis meses, já me acostumei.

Paraná-Online: Quem são seus ídolos no futebol?

Kamali: Beckham. Também gosto de Ronaldinho e Kaká. No futebol brasileiro, destaque para o Juan (Flamengo), que é muito veloz e habilidoso. No Atlético, Valencia.