Caso escolha o argentino Sebastián Beccacece para substituir Tiago Nunes, o Athletico contratará um técnico promissor e exigente, que se encaixa bem na filosofia de jogo do clube. Ao mesmo tempo, apostará em alguém conhecido por inventar demais nas escalações e que não deixou saudades no Independiente, seu último time, de onde foi demitido no fim de outubro.

“Ele foi muito mal aqui em Avellaneda. Comprou jogadores por US$ 15 milhões e os reforços não renderam. Nunca acertava suas propostas e substituições. Muitos o consideram o pior treinador dos últimos anos que passou pelo Independiente”, descreve o jornalista Matias Martinez, da Rádio La Red.

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A impressão sobre o treinador de 38 anos, porém, nem sempre foi negativa. Antes do fiasco no Rey de Copas, ele fez história no Defensa y Justicia.

Em duas passagens pelo modesto time verde e amarelo da grande Buenos Aires, com um breve intervalo para ser auxiliar de seu mentor, Jorge Sampaoli, na seleção argentina na Copa de 2018, Beccacece levou a equipe ao vice-campeonato argentino e à inédita vaga na Copa Libertadores em 2018. Um ano antes, comandou a eliminação do São Paulo na primeira fase da Copa Sul-Americana em pleno Morumbi.

Beccacece era exaltado pela imprensa como um dos principais destaques da nova geração de técnicos. Adepto da escola de Marcelo Bielsa — e pupilo direto de Sampaoli —, impressionou com um jogo intenso, de prioridade à posse de bola e de ataque equilibrado, normalmente no 4-3-3. A maior característica de sua equipe, no entanto, é a enorme pressão sem a bola.

“Ele tinha um grupo muito comprometido, jovem e com fome de glória. Tanto Beccacece quanto alguns jogadores tiveram oportunidade de sair na metade do campeonato, mas ficaram. E no Defensa, Beccacece fazia o que queria, treinava a semana inteira à portas fechadas, sem imprensa, dirigentes, coisa que não pôde fazer no Independiente”, diz o setorista Marcos Sittner, do Planeta Defensa e Defensa Pasión.

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Beccacece, aliás, replica o comportamento esquentadinho de Sampaoli. Na Universidad de Chile, seu primeiro trabalho solo, virou meme ao chutar uma geladeira que estava ao lado do banco de reservas. No gigante chileno, aliás, seu aproveitamento foi de apenas 36%. Acabou demitido após 22 jogos.

No Independiente, onde não durou mais de cinco meses, abusou das improvisações. O meio-campo Blanco, por exemplo, jogou em quatro posições diferentes em 16 partidas (volante, ponta-direita, ponta-esquerda e meia-atacante).
Seu modo de trabalhar, muito rígido e perfeccionista, também irritou parte do elenco. Quem chegava após as 8h para tomar o café da manhã no centro de treinamento era multado. Muitas vezes, o argentino também promovia pesagens surpresa nos jogadores logo cedo.

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Em uma partida contra o ex-clube, Defensa y Justicia, Beccacece sentiu um misto de falta de ar, dores no peito e mal-estar, sendo conduzido às pressas para o hospital mais próximo. Apesar da preocupação, foi somente um pico de estresse.

O trato pouco flexível atrapalhou, assim como a falta de resultados após investir cerca de US$ 15 milhões em contratações. Seu time foi eliminado pelo Independiente del Valle, do Equador, nas quartas de final da Sul-Americana. Ao todo, somou oito vitórias, um empate e sete derrotas — 52% de aproveitamento.

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Apesar da pouca experiência e peculiaridades, Beccacece já mostrou que sabe como fazer um time jogar bola. No Furacão, se realmente fechar contrato, terá uma grande oportunidade para colocar em práticas todas as suas ideias. O CT do Caju parece ser o local ideal para ele trabalhar.