A Tribuna teve acesso com exclusividade ao primeiro passo da dupla Atletiba para tirar o poder de Hélio Cury. Foi apresentada nesta quarta-feira (22) a chamada “notícia de infração” do Atlético contra a Federação Paranaense de Futebol por conta da confusão do Atletiba do dia 19, que foi cancelado pela alegação de que os profissionais que fariam a transmissão pelo YouTube não estavam credenciados. No requerimento, o Furacão pede que a entidade e seu presidente sejam julgados no artigo 239 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. E a pena é de multa para a FPF e de suspensão de até 180 dias para Cury. E se for considerado reincidente, o cartola pode até ser eliminado do futebol.

O texto do artigo prevê pena para o dirigente que “deixar de praticar ato de ofício, por interesse pessoal ou para favorecer ou prejudicar outrem ou praticá-lo para os mesmos fins com abuso de poder ou excesso de autoridade”. “A punição depende do que o procurador vai denunciar e se houver essa denúncia da Procuradoria. A princípio, no que se enquadraria e até citamos os artigos (no processo), seria, por exemplo, o 239 do CBJD, que seria punição de R$ 100 mil e suspensão de até 360 dias”, explicou o advogado Juliano Tetto.

No documento encaminhado ao TJD-PR, o clube relata a sua versão em detalhes dos fatos ocorridos no último domingo (19), e pede providências. Na ocasião, a partida não pôde começar sob alegação da FPF de que, dentro do gramado da Arena, estavam presentes profissionais de imprensa não credenciados. O time faz parte da equipe do canal Esporte Interativo, contratado para fazer uma transmissão inédita do clássico pela internet. A iniciativa seria possível devido ao fato de nem Atlético nem Coritiba terem assinado contrato de transmissão com a emissora detentora dos direitos.

“Histórico”

O texto, de dez páginas, a defesa atleticana valoriza a intenção do clube em transmitir o clássico pela internet como “fato histórico” e ressalta que a transmissão foi amplamente noticiada pela mídia. O argumento é de que o presidente da FPF, Hélio Cury, tinha plena ciência de transmissão.

O pedido de abertura de processo também destaca que, diferente da versão da falta de credenciamento para a não realização do jogo, o quarto árbitro, Rafael Traci, foi claro ao comunicar à cúpula dos dois clubes que o “apito inicial não seria dado enquanto não houvesse o cancelamento da transmissão da partida pela internet”. Para reforçar a alegação, há a transcrição do vídeo que registra o momento em que Traci deixa explícita a motivação para a não realização do jogo.

O documento também traz como argumentação a nota oficial do Grupo Globo, detentor dos direitos de transmissão do Campeonato Paranaense para os outros 10 clubes da primeira divisão estadual, deixando claro que a emissora não teve qualquer participação no veto à transmissão, mesmo porque a ela, não caberia tal interferência.

A acusação também questiona o conteúdo da súmula, que estaria em desacordo com os reais fatos ocorridos no dia da partida. E, a despeito do que foi publicado, os advogados defendem que o que foi relatado não seria suficiente para ocasionar o adiamento do jogo, que justifica a notícia de infração.

Para tanto, são apresentados o texto dos artigos 13 e 14 do Regulamento Geral de Competições da FPF, que falam dos motivos que justificariam o adiamento do jogo. Mais do que isso, reforça que o adiamento só poderia ocorrer se fosse indicado até duas horas antes do início da partida, o que não ocorreu.

Tática

Doático Santos, da AssoCAP, com o promotor Maximiliano Deliberador. Foto: Divulgação
Doático Santos, da AssoCAP, com o promotor Maximiliano Deliberador. Foto: Divulgação

A ação é um passo claro do que a Tribuna publicou na quarta-feira (22), quando revelou a estratégia da dupla Atletiba para inviabilizar a gestão de Hélio Cury para encaminhar um afastamento ou impedimento do cartola. Serão feitas ações na Justiça Desportiva (a primeira é essa) e na justiça comum (além das centenas de torcedores que fazem o mesmo), que pediriam indenizações, multas e o afastamento de dirigentes. Assim, seria criado um “clima” contra o presidente da FPF, que somado à pressão da opinião pública isolaria ainda o cartola.

Um exemplo é o que aconteceu nesta quinta (23), quando a AssoCAP, um grupo de torcedores atleticanos, foi ao Ministério Público e entregou ao procurador Maximiliano Deliberador um pedido de de destituição de Hélio Cury e de intervenção na Federação Paranaense de Futebol. A questão complicadora para a dupla Atletiba é que não há apoio dos outros clubes – pelo contrário, por ora a FPF recebeu suporte das outras equipes, principalmente do Paraná Clube.

Inimigo íntimo

O advogado Juliano Tetto, autor da ação do Atlético, conhece os bastidores da FPF. Foto: Hugo Harada
O advogado Juliano Tetto, autor da ação do Atlético, conhece os bastidores da FPF. Foto: Hugo Harada

Vale lembrar que o advogado Juliano Tetto já esteve ao lado de Cury por um período de dez anos e depois se afastou do cartola para se lançar candidato à presidência da FPF em 2015. Porém, abdicou da disputa contra o ex-parceiro para dar passagem ao ex-político Ricardo Gomyde, candidato apoiado pela dupla Atletiba. Gomyde, entretanto, acabou derrotado nas urnas por Hélio Cury, que conseguiu se manter no comando da entidade máxima do futebol paranaense.

Agora, ao lado do advogado André Luís Tisi Ribeiro, o profissional assina o pedido de providências encaminhado ao TJD, que pode custar caro ao presidente da FPF. Justamente uma pessoa que conhece muito os bastidores da entidade. E que deixa claro de que lado ele está na briga pelo poder no futebol paranaense.