Virar empresa. É esse o próximo salto do Atlético. O plano vem sendo preparado há alguns anos, e é pensado como o terceiro momento da remodelação do Furacão, um projeto que completou recentemente 23 anos. Depois da ‘reconstrução’ e da ‘consolidação’, a diretoria rubro-negra tem um objetivo claro: entrar definitivamente na lista dos principais clubes da América do Sul.

A informação foi divulgada pelo jornalista Rodrigo Capelo, no jornal O Globo. E confirmada pelo presidente do Conselho Deliberativo atleticano, Mário Celso Petraglia, que deu entrevista ao principal veículo impresso do Grupo Globo – uma mostra visível da aproximação entre as duas partes, que já acontece nos bastidores há mais de um mês. “Precisamos virar S/A. Primeiro para o crescimento do futebol brasileiro e a redução da dependência da televisão. Segundo para que tenhamos capital para manter os salários dos jogadores no nível que o futebol tem no mundo”, disse o cartola.

São pelo menos dez anos de gestacão do “Furacão-empresa”. Quando da formulação da FUNCAP, o desenho da entidade – que só foi institucionalizada em 2016 – era a de ser a mantenedora do futebol do Atlético e de seus ativos (como a Arena da Baixada e o CT do Caju, e até mesmo direitos de TV e direitos econômicos de jogadores). Mas a falta de legislação específica e a reação externa, inclusive de órgãos reguladores como o Tribunal de Contas do Paraná e o Ministério Público, evitaram que o plano fosse adiante.

Hoje, em seu estatuto, a FUNCAP “tem finalidade assistencial, educacional, moral, cultural e esportiva, com objetivo de promover o apoio a crianças, jovens e à família; o apoio à integração da população; a cultura e esporte; a divulgação e propaganda da marca CAP; e projetos educacionais”. O projeto via fundação não vingou, mas os estudos continuaram.

O CT do Caju seria um dos patrimônios do Atlético que viraria ativo do "Furacão-empresa". Foto: Jonathan Campos
O CT do Caju seria um dos patrimônios do Atlético que viraria ativo do “Furacão-empresa”. Foto: Jonathan Campos

E a parceria com uma grande empresa de consultoria, a Ernst & Young, levou o Atlético a encontrar seu modelo de negócio. E este projeto está pronto, podendo ser implementado a qualquer momento. O que impede a transformação é a legislação: virando uma sociedade anônima, o Furacão teria que ser gerido através das regras das empresas, perdendo muitos dos benefícios que os clubes de futebol têm, por serem considerados associações civis sem fins econômicos.

Desde 2016, o Atlético acompanha a tramitação na Câmara dos Deputados o projeto de lei 5.082, do deputado Otávio Leite (PSDB-RJ), que cria a “sociedade anônima do futebol”. Este projeto permite a transição de clube para empresa, com regulações tributárias específicas. O texto aponta a criação de um regime especial, o “Re-Fut”, que transformaria boa parte dos recolhimentos (imposto de renda, PIS/PASEP e Cofins, entre outros) numa taxa única de 5% da receita mensal.

Leia o projeto de lei que pode transformar o Atlético em clube-empresa

Neste momento, o projeto está trancado na pauta da Câmara – segundo o site do parlamento, está “aguardando criação de comissão temporária pela mesa diretora”. Como a crise política domina o noticiário, e brevemente a campanha eleitoral vai praticamente parar Brasília, a expectativa dos clubes interessados (além do Atlético, o Palmeiras seria outro disposto a virar empresa) é que a nova legislatura, que toma posse no início de 2019, possa tratar do assunto.

Investimento

A transformação do Atlético em empresa permitiria uma nova busca de investimentos. Primeiro porque o projeto prevê a emissão das chamadas debêntures especiais do futebol, um título que poderia ser colocado no mercado. Também poderia ser prevista – e o Furacão tem isso em mente – uma abertura de capital, colocando inclusive ações à venda na Bolsa de Valores.

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E aí viria um trunfo que a diretoria rubro-negra já conversa no exterior há alguns anos – a presença efetiva de um grande investidor, que daria aportes financeiros que dariam ao clube um poder de fogo no mercado para competir entre os melhores do continente. “Se não buscarmos soluções, com a desigualdade que temos diante de Corinthians e Flamengo, teremos problemas sérios no futuro. Não conseguiremos manter o crescimento que nos trouxe até aqui”, disse Petraglia a O Globo.

Controle

Virando o “Furacão-empresa”, o clube teria donos. Não necessariamente os atuais dirigentes, pois isso dependeria da forma de alteração que o Rubro-Negro for aplicar – ou transferindo seus ativos para virar o capital da empresa, ou com o aporte financeiro de pessoas físicas e jurídicas que assumam os direitos do clube. E quem tiver ações passará também a ser dono e ter participação mais ativa nas decisões.