Imagine você realizando seu trabalho, aquilo que você mais tem prazer de fazer, e, de repente, em um lance bobo, receber um duro golpe e quase tudo ir embora. Foi isso que aconteceu com o lateral-esquerdo Héracles. Revelado pelo Atlético, há três anos ele chegou a correr o risco de ter que abandonar a carreira, e chegou a temer pelo pior, de não poder mais ter uma vida normal. Por alguns momentos, existiu a possibilidade de se amputar a perna.

Depois disso, mais outros problemas que pareciam sem fim. mas que não fizeram em nenhum momento o jogador desistir. Pelo contrário. Héracles carrega no nome a força, afinal, Héracles significa “uma pessoa que aceita para si tarefas das quais os outros tendem a fugir, pois acredita sem reservas na sua força física ou mental”. Além disso, segundo a mitologia grega, Héracles foi um semideus, que reunia força e sagacidade. Héracles, na verdade, é o mesmo que Hércules, como o nome é mais conhecido por aqui. E todos conhecem a história dos 12 trabalhos de Hércules. O lateral não precisou enfrentar 12 tarefas, mas desafiou muitas dificuldades, superando todas.

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

E tudo começou por causa de uma entrada forte de um adversário. No dia 25 de outubro de 2013, quando defendia o Avaí, Héracles enfrentava o Bragantino, na Ressacada. Aos 20 minutos do segundo tempo, o volante Graxa, do clube paulista, deu uma dura entrada no lateral e o acertou no joelho esquerdo. Ali começou o drama.

Foram três dos quatro ligamentos do joelho rompidos. O outro estirou. Por muito pouco não teve a necessidade de amputar a perna. “A bola estava no meio-campo, ele entrou com uma força desnecessária. Ele foi imprudente e na época falei isso para ele”, disse o lateral.

No total, nove meses de recuperação intensa. Uma nova cirurgia para limpar o joelho e uma dor que convivia com ele todos os dias. “Rompi os ligamentos do joelho, a recuperação deu tudo certo e estou preparado. Foi um processo demorado, doloroso, mas graças a Deus e aos médicos e fisioterapeutas, consegui superar essa fase complicada e que me trouxe vários aprendizados”, garantiu.

Neste período, cada passo era comemorado. Poder firmar a perna, andar, chutar uma bola. Tudo aos poucos, até voltar a ficar 100% e jogar futebol novamente. Mas quando tudo parecia que voltaria ao normal, eis que a vida prega mais uma surpresa, daquelas que não tem explicação e cabe apenas aceitar e encarar de frente, sem desistir.

Nova lesão

No início do ano, o jogador acertou com o Joinville, onde foi pouco aproveitado. Foram apenas quatro partidas até que fraturou o tornozelo. “Estes últimos anos eu tenho enfrentado desafios. Mas tudo isso vem me preparando para me fortalecer bem”, avaliou ele, que nem imaginava que mais para frente a situação poderia ficar pior.

Depois de se recuperar da fratura, Héracles vinha se preparando para voltar aos gramados, mas a troca no comando técnico o fez sair do JEC.

“Quando o Lisca (técnico) chegou, ele mudou algumas coisas e rescindiram com três jogadores. Eu estava na lista e acabei saindo. Eu estava voltando a treinar após uma lesão no tornozelo”, recordou o atleta.

Atlético de portas abertas

Em 2016, Héracles, sem clube, contou com o apoio do Atlético pra se recuperar de uma fratura no tornozelo. Foto: Arquivo pessoal
Em 2016, Héracles, sem clube, contou com o apoio do Atlético pra se recuperar de uma fratura no tornozelo. Foto: Arquivo pessoal

Depois de tantas lesões e problemas, foi aí que a vida deu um novo giro e ele retornou aonde tudo começou. Cria do Atlético, onde estreou como profissional em 2011, ele sempre foi bem quisto no clube. Tanto que Mario Celso Petraglia o ajudou com a cirurgia no joelho e novamente lhe abriu as portas.

“Quando rescindi com o Joinville, procurei o Petraglia e perguntei se eu poderia treinar no CT pela estrutura, por tudo que podem oferecer ao atleta. É a melhor estrutura possível e ali tem profisisonais muito capacitados. Foi isso que me trouxe ao Atlético. Eles abriram as portas para eu me preparar fisicamente”, explicou ele.

Isso foi em setembro. Durante três meses o lateral treinou todos os dias no CT do Caju. De lá, além de toda a estrutura necessária para manter a forma física, viu novos talentos surgirem, assim como ele, na mesma posição. Em 2016, os garotos Nícolas e Renan Lodi foram aproveitados pelo técnico Paulo Autuori. O contato entre eles foram poucos, mas mais experiente, Héracles confia que a nova geração vai servir bem o clube.

“Eu tenho tido pouco contato com eles porque os horários não batem. Mas tenho acompanhado de longe e fico feliz que a posição está bem suprida. Desejo sucesso para eles”.

Nova fase

100% recuperado, Héracles agora vai recomeçar no J. Malucelli no Campeonato Paranaense. Foto: Marcelo Andrade
100% recuperado, Héracles agora vai recomeçar no J. Malucelli no Campeonato Paranaense. Foto: Marcelo Andrade

O período de recuperação no Furacão acabou. Mas por uma boa causa. No começo do mês, Héracles acertou com o J. Malucelli e irá disputar o Campeonato Paranaense. Uma nova oportunidade para mostrar que ainda tem condições de ser útil em qualquer clube.

“Eu nesse momento quero plantar novamente. É um período de plantar e retomar minha carreira. Sei que minha realidade agora pode ser um time de menor expressão e que seja uma vitrine para um clube maior, assim como aconteceu com muitos outros jogadores”, aposta o jogador.

Agora, Héralces quer dar a volta por cima. Recomeçar quase que do zero. Mas engana-se quem pensa que nestes três anos tudo foi dificuldade. Nos momentos mais difíceis é que o atleta encontrou respostas e passou a enxergar as coisas de uma outra maneira.

“Muita coisa muda. Eu era muito novo, tinha feito algum sucesso profisisonal, muitas coisas aconteciam. E nesse período de dificuldade muitas pessoas somem e aí você percebe quem está do seu lado de verdade, você vê que tudo passa. Eu estava num momento muito bom e de repente tudo mudou. Então aprendi que temos que aproveitar o momento bom e que o momento ruim passa”, completou ele.