Há uma grande verdade em tudo que foi dito nos últimos dias pelo promotor do Ministério Público do Paraná Maximiliano Deliberador – é realmente preciso fazer alguma coisa para conter a violência ligada ao futebol. Mas “fazer alguma coisa” é muito diferente de fazer qualquer coisa. E o projeto piloto apresentado semana passada e que será testado nesta quarta-feira (16), na partida das 21h45 entre Atlético e Cruzeiro pela Copa do Brasil, na Arena da Baixada, parece um quejio suíço, está cheio de furos.

Vamos recapitular resumidamente: no plano do MP-PR, os jogos realizados em estádios de Curitiba serão com torcida única. Não haverá divisão de espaço para a torcida do time visitante, não haverá escolta da PM para torcedores de time visitante, não será permitida entrada de torcedores com qualquer outra camisa senão a do time mandante ou a das suas torcidas organizadas.

No comunicado enviado à imprensa na sexta-feira (11), com as recomendações do Ministério Público, o que já era preocupante ficou ainda pior. Reproduzirei o trecho na íntegra: “Será respeitado o direito de qualquer torcedor, seja para qual time torça, de adquirir seu ingresso e ocupar o local correspondente ao número nele constante (artigo 22 do Estatuto do Torcedor)”.

Como o MP não pode impedir que as pessoas vão ao estádio – comprando ingresso, qualquer um pode entrar -, fica escancarado o risco dos ‘infiltrados’. Esse é o furo mais evidente do projeto piloto. E é o mais perigoso para os jogos. Afinal, como controlar a reação de cada pessoa? Como ter certeza que torcidas de clubes de grande apelo não vão comprar mais ingressos e formar grupos maiores? Já imaginou que podem ser cem pessoas, e não uma ou duas, como às vezes acontece?

O risco de tensões dentro dos estádios fica exponencialmente maior. E ainda mais se lembrarmos que o histórico de problemas na Arena da Baixada, no Couto Pereira e na Vila Capanema é baixo. Parece infantil dizer isso, mas o Ministério Público talvez não saiba que os grandes problemas são longe – bem longe – dos estádios. São nos terminais, nas periferias, nos bairros. São em brigas marcadas nas redes sociais, em confrontos que acontecem na cara das autoridades. Isso se repete a cada clássico e nada é feito. Vamos criar a torcida única nos terminais?

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Sem contar que as iniciativas de torcida única não são bem-sucedidas. Para avalizar seu plano, o MP usa os números de São Paulo. Mas imprudentemente não cita as mortes em Campinas, nos clássicos entre Ponte Preta e Guarani, e em Goiânia, nos jogos entre Vila Nova e Goiás. Brigas longe do Moisés Lucarelli, do Brinco de Ouro e do Serra Dourada. Com tiros. Com mortes. Com torcida única.

E ainda há a questão de reciprocidade que pode ser alegada pelos outros clubes. Se não podem ter torcedores de seus times em Curitiba, seremos “aceitos” fora? Será que o Cruzeiro vai permitir a torcida do Atlético no jogo da volta da Copa do Brasil no Mineirão? Ou viraremos proscritos para o futebol brasileiro? Talvez por conta destas questões Paraná Clube e Coritiba ainda não tenham conversado com o Ministério Público. O Atlético, entusiasta da medida já não de hoje, aceitou e teremos o teste nesta quarta. Polícia Civil e Polícia Militar também aceitaram correndo, como se não soubessem que onde os problemas acontecem a medida não terá efeito algum.

Confira a tabela e a classificação do Campeonato Brasileiro!

Sim, precisamos fazer alguma coisa para evitar a violência ligada ao futebol. Mas para isso é preciso pensar no que é mais eficiente, no que vai surtir mais efeito, no que realmente pode melhorar. E não em projetos que parecem ter sido criados por quem não conhece a realidade do esporte no Brasil.