O Paraná Clube vive uma crise crônica. Bem diferente de seu passado recente, quando ostentava vaga cativa na Série A e tinha calendário internacional, disputando a Copa Sul-americana e a Libertadores. Naquela época, o grito era por cotas mais expressivas da televisão. Agora, relegado à Segundona, o Tricolor pede socorro. Mesmo com folha salarial muito abaixo da média nacional, o clube encontra dificuldades no fluxo de caixa.

Dirigentes apregoam a necessidade da união das muitas alas políticas existentes no clube. Uma junção de forças que deveria ter saído do papel no ano passado, quando surgiu a “Revolução Tricolor”, que, apesar do nome da chapa, não decolou. O grupo atual, à exceção de Aramis Tissot, é o mesmo da gestão passada.

Para medir a temperatura da crise tricolor, a Tribuna ouviu todos os ex-presidentes que comandaram o destino do Paraná Clube nesses quase 21 anos de existência. Todos reconhecem que o momento é difícil, mas acreditam que o Tricolor “tem jeito”. Nas declarações daqueles que um dia estiveram no posto máximo do clube, fica a certeza de que o único caminho viável aponta na direção da união de forças.

Confira

ARAMIS TISSOT – (1990-1991)

Primeiro presidente do clube, ele voltou na atual gestão para tentar reorganizar o futebol. Sentiu na pele a dificuldade de gerir o Paraná pelas atuais regras do mercado. “O primeiro – e único – passo é a união das diversas alas que existem no clube. Sem um apoio financeiro de todos, fica difícil”, reconhece. Ele defende a mudança estatutária para a profissionalização da direção do clube, não apenas no futebol, mas também no social. Evita usar a palavra terceirização, mas vê com bons olhos a busca por pessoas capazes de gerir o departamento de futebol. “Isso faz parte da profissionalização que defendo. Um grupo não apenas para gerir, mas para sustentar o futebol. Como uma empresa”. Além de ajustes estruturais, Tissot aponta outro ponto em que o Paraná precisa reagir. “Com apenas 4 mil sócios pagando R$ 35,00, não dá. Nossos rivais garantem uma boa sustentação nas bilheterias, o que não é o nosso caso”.

DARCI PIANA – (1992-1993)

“O que o Paraná precisa, imediatamente, é de gente com capacidade de gerenciar o clube”. Na avaliação do ex-presidente, que em 1992 comandou o Tricolor no seu primeiro título nacional, esta não é a primeira nem será a última crise do clube. “Hoje, precisamos de um choque de gestão. Encontrar uma liderança forte, capaz de juntar um grupo ético e eficiente”. Atualmente sem tempo para se dedicar ao Paraná, Piana entende que ajustes estatutários são necessários, mas não imprescindíveis. “Para ser ético e agir, não precisa estar escrito. Sei que o futebol mudou muito e já sugeri a separação do social do futebol. Mas hoje a preocupação é recuperar a moral do Paraná”. Piana lembra que o clube possui um patrimônio grande e invejável. “Quando debatemos a revolução, que acabou não se concretizando, a ideia era a criação de dois grupos: um para comandar o presente; outro para gerenciar o passado. É preciso equacionar essa herança de ações trabalhistas.”

OCIMAR BOLICENHO – (1994-1995)

Mesmo sem disfarçar a preocupação com o momento do clube, Ocimar Bolicenho preferiu não se pronunciar. Ele alega questões éticas, já que hoje é profissional do futebol e atua no Atlético. Nas entrelinhas, dá a entender que o Paraná precisa oxigenar sua política e atualizar o seu estatuto. Ocimar, antes de se desvincular do clube para seguir carreira so,lo como gestor de futebol, presidiu o conselho normativo do Tricolor – que reunia todos os ex-presidentes. Em sua gestão, foi o responsável pela contratação da comissão técnica que havia sido campeã brasileira em 1994, pelo Palmeiras, encabeçada pelo técnico Vanderlei Luxemburgo. Apesar de todo o investimento, o Paraná, em 1995, fez apenas um Campeonato Brasileiro mediano.

ERNANI BUCHMANN – (1996-1997)

“A receita seria simples: aumentar receita e diminuir despesa”, destaca Buchmann. “Tudo muito bonito se não estivéssemos falando de futebol. Há, neste caso, um ingrediente primordial: a paixão. Sem dinheiro, você diminui a qualidade do time, a torcida desaparece e entramos num círculo vicioso”. Em sua avaliação, o Paraná precisa deixar de ser um clube multifacetado, com vários conselhos, o que dilui o poder. Mesmo diante dessa realidade, Buchmann não defende a separação do futebol do social. “É algo que carece de estudo, de uma consultoria externa”. O problema atual, segundo Buchmann, só pode ser corrigido com o surgimento de um grande líder. “A revolução não saiu do papel por causa disso. Partimos para uma composição”. Independentemente do momento delicado, Ernani entende que o discurso precisa mudar. “Há muitos anos só estamos lamentando a falta de dinheiro. Precisamos buscar soluções internas.”

ÊNIO RIBEIRO – (2000-2003)

“Jeito tem, mas não é fácil”, diz Ênio Ribeiro, o segundo presidente a conquistar um título nacional (a Divisão de Acesso da Copa JH, em 2000). Ele acredita que esse momento pode ser reflexo da mudança estatutária que acabou com o poder do conselho normativo. O grupo, formado por ex-presidentes, hoje praticamente não frequenta mais o clube. “Foi um tiro no pé”, analisa. Na sua visão, revitalizar este conselho seria um dos passos fundamentais para uma guinada. “Era ali que estava a inteligência do clube. Todos fazem falta. Seria preciso humildade para reconhecer isso”. Ribeiro lembra que dificuldades, todos os clubes passam. Só que no Paraná o quadro é potencializado por conta das bilheterias ruins e pelo fato do clube não pertencer ao Clube dos 13. “Não se constrói futuro matando aqueles que ajudaram a construir o clube.” Além dessa questão política, o ex-presidente entende que outro passo emergencial é reconstruir a base.

JOSÉ CARLOS DE MIRANDA – (2004-2007)

Último presidente a conseguir levar o clube a um título (o Paranaense de 2006), ele entende que a situação do clube, em 2004, quando assumiu, era muito pior. “Tivemos que organizar uma verdadeira engenharia para viabilizar recursos, já que o clube tinha todas as suas contas bloqueadas”, lembrou. Durante sua gestão é que as parcerias ganharam espaço. “Tivemos pontos positivos e outros nem tanto, porque sempre surgem divergências por vaidade ou simples interesse financeiro”. O ex-presidente, porém, entende que o clube pode se reorganizar a partir de uma mudança estrutural, revendo seu estatuto e buscando parceiros sérios e não “aventureiros”. Para Miranda, o Paraná tem que se adequar à sua receita e entende ser possível tocar o futebol com folha ainda mais baixa, através de contratos bem amarrados de parcerias. “Uma coisa é certa: time de massa não acaba nunca. O Paraná vai superar essa crise.”

AURIVAL CORREIA – (2008-2009)

“É claro que o clube tem jeito, mas os paranistas precisam se unir, sem vaidades”, disse o ex-presidente. Mesmo respondendo pelas finanças do clube, ele admite que já não faz parte da política interna do Paraná. Em sua análise, o Tricolor precisa emergencialmente do aporte financeiro de pe,ssoas ligadas ao clube. Mesmo evitando quantificar o problema, acredita que R$ 5 milhões seriam suficientes, no momento. “A partir disso, o clube precisa buscar uma forma de elevar sua receita fixa, junto a patrocinadores e investidores”, afirmou. Para Aurival, terceirizar o futebol não seria uma saída viável. “Entregar para quem? Aí, pessoas apenas usariam o nome do clube para fazer negócios. O Paraná deve buscar soluções para caminhar pelas próprias pernas”, disse. Correia admite que a nova filosofia aplicada à base, em sua gestão, não emplacou e que hoje o Tricolor padece por não revelar ou formar atletas capazes de garantir um fluxo de caixa.

AQUILINO ROMANI – (2010)

“O Paraná é grande, mas necessita da união de sócios e torcedores para sair dessa”. Eleito no fim do ano passado, Romani só aceitou a presidência diante da promessa de um aporte financeiro que não ocorreu. “Hoje, não temos dinheiro e os jogos são deficitários. Com 1.500 pagantes, não se faz futebol”, afirmou. A saída emergencial, na sua visão, passa pela união de empresários, políticos e conselheiros. “Já reduzimos muito nossos gastos. Estávamos trabalhando com um déficit de R$ 6 milhões por ano”. Para o atual presidente, o grande obstáculo está nas ações trabalhistas, que tendem a aumentar. Além disso, o clube cometeu erros estratégicos e hoje não tem atletas para vender (uma das principais fontes de recursos dos últimos anos). “Hoje, não adianta pensar em consertar. Temos que construir de novo”, afirmou. Um aspecto prioritário para Romani é dar destino à subsedes ociosas, como Tarumã e Boqueirão.

DILSO ROSSI – (1998-1999)

“Foi uma época desgastante. Dei o meu máximo”, disse o ex-presidente, hoje completamente afastado do dia-a-dia do Paraná Clube. “Se o Paraná tem jeito? Prefiro não falar, pois não gostaria de me indispor com algumas pessoas”, finalizou. A gestão de Dilso Rossi teve dois momentos cruciais que influenciaram para que a crise se instalasse no Paraná. Um foi o rebaixamento para a Série B de 2000 e outro foi a negativa para integrar o Clube dos 13. Na época, a alegação foi de que o Tricolor iria se solidarizar com a dupla Atletiba, que não integrava no C13. Rossi também participou de reuniões para uma eventual fusão com o Atlético, mas que não resultaram em nada. A crise começou efetivamente em sua gestão.