Já no GP de Bahrein, no último domingo, a data foi lembrada por profissionais da Fórmula 1 ou seus ex-parceiros, como Jo Ramirez, coordenador da equipe McLaren de 1983 a 2001. “Sim, Ayrton Senna faria 50 anos dia 21”, disse, emocionado, o mexicano, técnico que acompanhou de perto toda a trajetória do piloto no Mundial. Apesar de já terem se passado 16 anos da sua perda, os novos limites de pilotagem impostos por ele à F-1, capazes de lhe dar três campeonatos, e sua figura humana elevada o tornam tão vivo que hoje sua ausência física parece quase não ser percebida.

Se Senna percorresse os boxes da etapa de abertura da temporada, no circuito de Sakhir, encontraria uma F-1 bastante distinta da que deixou dia 1.º de maio de 1994. E compreenderia que foi sua súbita e inesperada saída de cena que apressou dramaticamente esse processo de mudanças. “Está muito mais segura, mais do que qualquer outra coisa, como mais rápida, por exemplo”, afirmou Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo também.

O doutor Sid Watkins, médico da F-1 de 1978 a 2004, classifica a passagem de Senna no GP de San Marino como um divisor da segurança na F-1. “Antes do acidente de Ayrton quase tudo o que se fazia era empírico, sem base científica”, disse. “Depois, criamos um grupo com especialistas das várias áreas que compõem a segurança e nossas medidas são o resultado de muitos estudos e experimentações práticas em ensaios”.

Para o atual presidente da FIA, Jean Todt, não é por acaso que os dois acidentes fatais no circuito Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, em 1994, foram os últimos na Fórmula 1. “Max Mosley, meu predecessor, tem grande responsabilidade nisso”, afirmou. De fato, Mosley, que deixou a entidade no fim do ano passado, foi quem solicitou a Watkins a criação do grupo de segurança. “A tragédia de 1994 já salvou muitas vidas na F-1”, disse Todt.

No seu passeio pelos boxes, Senna se surpreenderia com outros aspectos também, além do aumento exponencial da segurança. Viria uma geração de jovens talentosos que, apesar dos 23, 24, 25 anos, já têm grande experiência – alguns já foram campeões ou são em potencial, como Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Robert Kubica, Nico Rosberg, dentre outros.

Senna estreou na F-1 com 24 anos. “Hoje um piloto com 19 anos já tem oito de kart e pelo menos três em categorias de monopostos. Se tiver talento, está pronto para a Fórmula 1”, diz Ross Brawn, diretor técnico da Mercedes. Senna se depararia com meninos mais jovens que os de seu tempo de Fórmula 3, em 1983, com várias conquistas.

Diante da relação de proximidade com tanta gente importante da Fórmula 1, Senna ficaria sabendo o orçamento de equipes como a McLaren, com quem foi campeão do mundo em 1988, 1990 e 1991. E se assustaria. Mesmo com a severa contenção de despesas este ano, seu ex-time não vai investir menos de US$ 220 milhões. Em 1988, no seu primeiro título, não passava de US$ 40 milhões, com todos os excessos permitidos na época.

Enfim, Senna provavelmente se sentiria feliz, por saber que só uma fatalidade tiraria a vida dos ex-colegas e ao mesmo tempo preocupado com o futuro da competição que tanto ama, diante dos orçamentos irreais dos times para a realidade da economia mundial, dentre outras mudanças que compreenderia na mesma velocidade que, com imensa arte, pilotava.