Foto: Chuniti Kawamura
 ?Depois de seis anos de vitórias, o grande desafio é continuar vencendo. Isso é muito mais difícil.?.

Bernardo Rezende é hoje o que se pode chamar de ?referência?. Campeão de quase tudo que disputou como jogador e técnico de vôlei, é um exemplo perfeito de como o trabalho realmente faz a diferença.

Quando assumiu a seleção feminina, tinha um desafio -transformar uma geração vencedora nas categorias de base em campeã profissional. Não conseguiu tudo que planejara, mas firmou o alicerce que transformou o vôlei feminino do Brasil, hoje um dos melhores do mundo.

O aprendizado (com alguns percalços) fez com que o método de trabalho fosse aperfeiçoado para a seleção masculina, que vivia o pior momento desde a conquista do ouro olímpico em Barcelona, 1992. Bernardinho fez uma revolução dentro e fora da quadra -dentro, transformando um grupo heterogêneo em uma forma única, indissolúvel e praticamente invencível; fora, recuperando a auto-estima do esporte brasileiro, provando que, com trabalho duro e honestidade, podíamos chegar longe.

O Bernardinho que se irrita como poucos num banco de reservas e exige como poucos de seus comandados é um dos esportistas mais bem-sucedidos no planeta. Economista de formação, passou a ?administrar? as emoções do vôlei e fazer delas o veículo para a inclusão social de milhares de jovens com o projeto Rexona Vôlei, que talvez seja o trabalho que mais lhe orgulha.

O treinador esteve até ontem em Curitiba, comandando o Rexona/Ades contra o Vôlei Futuro pela Superliga (ver na página 20), participando de eventos do Centro Rexona e autografando o livro Transformando suor em ouro, um dos mais vendidos no País. Ele falou a O Estado sobre o projeto social, dos desafios no vôlei e do que planeja para a temporada 2007. E deixou aberta a possibilidade de Nalbert defender a seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos, em junho, no Rio de Janeiro.

O Estado – Qual é a sensação de voltar a Curitiba?

Bernardinho – Voltar a Curitiba, para mim, sempre é gratificante, é sempre uma emoção. São dez anos do projeto, um plano de longo prazo, e que começou aqui, com a cidade e o Estado abrindo as portas. É a chance de poder rever amigos, pessoas que fizeram a história do Rexona/Ades. É um momento de encontros e de emoção, realmente. Rever pessoas que há algum tempo eu não vejo e que foram muito importantes. É muito bom poder comemorar os dez anos do projeto com as pessoas, com os amigos de Curitiba.

O Estado – Como você avalia o projeto?

Bernardinho – O projeto se tornou um referencial nacional. O País inteiro conhece e tenta extrair algumas experiências deste projeto, tenta recriar em outros locais. É importante prover a prática esportiva para as crianças que não têm essa condição. E também a equipe de alto rendimento, que ajuda a desenvolver algumas atletas, visando a seleção. São duas frentes importantes. Obviamente, o projeto social, que atende o maior número de jovens, é o pilar sobre o qual o projeto está baseado. E é um projeto conhecido internacionalmente, lá fora falam do que se faz aqui. É uma iniciativa bastante respeitada.

O Estado – Quando você morava em Curitiba, você torcia para algum time de futebol?

Bernardinho – Aqui, não. No início do projeto, eu fui a alguns jogos do Paraná, por causa do Oswaldo (Magalhães dos Santos, ex-presidente da Paraná Esporte, falecido em 1998). Mas fui a vários jogos, fui a jogos do Coritiba e do Atlético. Eu gosto do bom futebol. Sou botafoguense, mas nada fanático.

O Estado – Você pensa em como seria a sua transição do vôlei para o futebol?

Bernardinho – Primeiro, eu teria que conhecer mais do assunto. Para entrar no futebol, eu precisaria de um tempo para entender a matéria. Mas não é meu intuito, eu tenho um desafio muito grande em continuar no vôlei. Depois de seis anos de vitórias, o grande desafio é continuar vencendo. Isso é muito mais difícil que você pegar uma estrutura que vem de uma situação difícil e tentar levantá-la. A continuidade e manutenção do nível de excelência são os passos mais difíceis. Chegar é difícil, manter-se é bem mais. Então, acho que para mudar de área é preciso estudar a área. A experiência que eu tenho talvez me permitiria trabalhar em outra área, em outro esporte, como um consultor ou um integrante de uma comissão técnica. Talvez não como treinador principal, pela carência do conhecimento específico.

O Estado – Você também aproveitou a vinda a Curitiba para uma sessão de autógrafos do seu livro. Qual é o segredo para se montar um time de sucesso?

Bernardinho – Foi um encontro para conversar com as pessoas, reencontrar amigos. A idéia do livro é transmitir a nossa trajetória, as vivências e as lições que eu e um grupo de trabalho passamos. Tudo que o tempo nos trouxe. E, através destes relatos, dividir tudo com as pessoas. É um livro feito para que as pessoas reflitam, para saber como elas estão trabalhando, como elas estão fazendo as coisas. É esse o intuito do livro. E o título (Transformando suor em ouro) tem a ver com a saga de um grupo de jogadores que transformou muito trabalho numa conquista fantástica.

O Estado – Você tem dois trabalhos: um como técnico de uma seleção multicampeã e outro como treinador de um grupo mais jovem. Estas diferenças te motivam?

Bernardinho – Sem dúvida. Embora seja cansativo – é um ano sem parar, pois entre seleção e Rexona você fica doze meses na quadra -, estar com essas jovens sedentas por desenvolvimento, por conquistar um espaço na seleção, é uma forma de recarregar as baterias. É um jeito de reavaliar a minha condição de líder, de inspirador. E eu tento fazer esse trabalho. E é um trabalho que me motiva muito, que me dá grandes alegrias quando você consegue realmente fazer frutificar um talento, fazer de um talento uma realidade. E essa é a minha missão e da comissão técnica junto a esse grupo de jovens. Temos três veteranas e o restante todo a partir de 23 anos. É um grupo de grande potencial, mas que tem muito a crescer e a ser polido. Quando você tem um campo tão profícuo, a motivação é bem elevada.

O Estado – Qual é o atual estágio da Superliga feminina?

Bernardinho – A Superliga vive um problema de falta de equipes. São apenas oito, um número muito baixo para um esporte que é tão popular no Brasil. Por isso temos que fazer a lição de casa. Não posso ficar aqui apontando o dedo e dizendo o que está errado, achando culpados. Todos temos parcela de culpa, e precisamos trabalhar para melhorar o nosso mercado interno. As seleções vão bem, e nos clubes alguns vão bem e outros não. É um mercado muito restrito. Somos todos agentes do voleibol brasileiro e temos nossa parcela nessa história. Vamos trabalhar, ampliar isso, melhorar a estrutura, melhorar a competitividade, trazer de volta algumas jogadoras que estão lá fora, quem sabe trazer jogadoras estrangeiras, como foi no início do Rexona. Mas é um trabalho para ser feito por todos nós. Seria muito fácil eu vir aqui, sair acusando e dizendo e me lamentando. Somos partes integrantes desse universo e precisamos transformar. Vamos aproveitar o bom momento das seleções e transformar em realidade no mercado interno.

O Estado – Você está contando os dias para o Pan?

Bernardinho – Antes do Pan-Americano a gente tem a Liga Mundial. Eu saio direto de Curitiba para a Itália, para uma reunião com os jogadores. É um bate-e-volta, um dia por lá, para dar a largada na preparação da seleção para a temporada. O Pan é muito importante, mas a Liga Mundial termina no dia 15 (de junho), o Pan começa no dia 20. Nós temos um problema sério de planejamento a ser ultrapassado. E nós vamos fazer isso juntos. Não adianta pensar uma coisa se os jogadores não estiverem de acordo. É um projeto nosso, eles são tão importantes na elaboração desse projeto quanto eu.

O Estado – E o Nalbert? Há possibilidade de que ele volte à seleção brasileira no Pan?

Bernardinho – Na realidade, o Nalbert está retornando da praia para as quadras. Como um amigo, um ex-atleta, eu dei meus conselhos a ele. Falei para ele se dedicar a esse projeto de corpo e alma. Se ele tiver sucesso, e estiver em boa forma, é um nome a ser observado e pode ser chamado. Mas ele tem que correr contra o tempo. E ele sabe disso, já está trabalhando na quadra individualmente, e vai para a Itália disputar os playoffs de lá (Nalbert foi contratado pelo Modena). Ele vai se colocar a prova para tentar brigas por uma vaga na seleção brasileira. E ele tem consciência disso, sabe que não tem lugar garantido, mas também que as portas não estão fechadas. Ele vai ter que trabalhar, demonstrar sua capacidade para voltar à seleção.

O Estado – Quais são os planos da seleção masculina e do Rexona/Ades para 2007?

Bernardinho – Com o Rexona, meu sonho maior é conquistar a Superliga, estamos trabalhando para isso. Sabemos das dificuldades, mas é esse o nosso grande objetivo. Na seleção, o Pan é um torneio muito importante, mas a Copa do Mundo no Japão também é, porque lá se classificam três seleções para os Jogos Olímpicos de 2008. É importante chegar entre os três primeiros em novembro. Temos Liga Mundial, Pan-Americano, Sul-Americano, Copa América e Copa do Mundo.

O Estado – Você é economista. No que esta formação te ajuda no vôlei?

Bernardinho – Na economia, estudei muita estatística. Basicamente, a função principal do economista é a de extrapolar o futuro, tentar compreender de qual maneira o mercado vai se mover diante de diversos indicadores…

O Estado – Interpretar…

Bernardinho – Isso mesmo. É o que eu tento fazer. Interpretar como a equipe adversária vai se movimentar. E também de que maneira eu posso extrapolar o futuro da nossa equipe, que tipo de potencial ainda pode ser desenvolvido. Há muitas matérias e muitas áreas em que o estudo favorece o seu desenvolvimento. É ter a informação contextualizada. Mais experiência gera mais conhecimento.

O Estado – Já te perguntaram sobre a queda nas bolsas da China?

Bernardinho – Não, mas eu estou atento (risos).

O Estado – Tem mais alguma coisa que você possa conquistar no vôlei?

Bernardinho – Sem dúvida. A próxima competição. Eu ainda não a conquistei, por isso eu miro sempre no próximo campeonato. E vou com tudo para cima dela.