O atacante Ronaldo foi a maior posta
o técnico Scolari e integra a
equipe titular do Brasil na estréia.

Ulsan

(AE) –  Críticas, desilusões, trocas de treinadores, escândalos extracampo, denúncias e descrédito popular. Tudo isso cercou a seleção brasileira nos últimos quatro anos, desde a derrota para a França, por 3 a 0, na final da Copa do Mundo de 1998. Pois bem, a partir da manhã desta segunda-feira qualquer discussão sobre esses assuntos fica no passado.  Às 6h (horário de Brasília), no Estádio Munsu, em Ulsan, o Brasil estréia no Mundial da Coréia do Sul e do Japão contra a Turquia.

E apesar de a comissão técnica e o grupo de jogadores se esforçarem para manter o discurso otimista, a verdade é que a seleção inicia o Mundial em uma situação que, todos sabem, poderia ser melhor. Ora desorganização, ora um detalhe ou outro do planejamento mal feito e, às vezes, métodos de trabalho contestáveis do técnico Luiz Felipe Scolari.

Para se ter uma idéia, somente a dois dias do jogo é que o treinador brasileiro conseguiu dizer “é esse o time”.

Ao contrário dos mais tradicionais adversários, como Alemanha, Inglaterra, França e, principalmente, a Argentina, a seleção não conseguiu, nesse período entre duas Copas, estruturar uma equipe.

Dezenas e mais dezenas de jogadores foram convocados. Sem um time-base, o Brasil passou por dificuldades enormes para conquistar uma das vagas sul-americanas no Mundial. A classificação só veio na última rodada das eliminatórias, com uma vitória sobre a frágil Venezuela.

Responsabilidade

Agora, com o grupo definido, Scolari apostou na união em detrimento da técnica. Montou um grupo com jogadores que, antes de serem craques, são seus amigos, gente de sua confiança. Torce agora para que esse conjunto apresente dentro de campo um futebol que leve o País à conquista do pentacampeonato mundial. E Scolari apostou alto.

Sobretudo no ataque. Preteriu Romário, freqüentemente pedido por parte da torcida, e levou um Ronaldo que, por mais esforçado que seja, não consegue passar confiança a quem o vê treinando.

Estruturou a equipe com a obsessão por marcar o adversário, não deixá-lo dominar a bola, cercá-lo por todos os lados, fugindo às características do futebol brasileiro. Elegeu Emerson seu capitão, mais pela capacidade dele de roubar a bola do que qualquer outro atributo, e compôs o time titular com atletas de clubes estrangeiros, à exceção do goleiro Marcos.

Scolari substituiu Emerson Leão, que deixou para trás Luxemburgo, Zagallo, Parreira, Carlos Alberto Silva, Falcão, Lazaroni, entre outros. Faz parte de um grupo que virou as costas para o mestre do futebol-arte, Telê Santana. É adepto do futebol-resultado. Nesta segunda-feira, começa a mostrar ao mundo se está certo.

Animado, Sukur promete gols

Ulsan

(Lancepress!) – O atacante turco Hakan Sukur reconhece que provavelmente receberá poucas bolas em condições de marcar na partida contra o Brasil. De qualquer forma, o jogador acredita que possa ele mesmo criar algumas oportunidades de gol neste jogo de estréia. “Eu tenho velocidade. Não sou de ficar parado, apenas esperando. Sou mais que somente um goleador”, gabou-se Sukur, contrariando o que dizem muitos críticos.

A pouca expectativa em relação à ajuda dos companheiros na tarefa ofensiva se deve ao esquema adotado pelo treinador da Turquia, Senol Gunes. “É claro que não se pode esperar muito quando você joga como único atacante e enfrenta um time como ótimos zagueiros como o Brasil”, afirmou o atacante, que também não acredita que o comandante turco escale um outro jogador na frente, embora a escalação oficial ainda não tenha sido divulgada. Sukur estuda também algumas alternativas táticas para o confronto: “Se eu conseguir usar todas minhas habilidades, posso abrir espaços para os jogadores de meio-campo. E para mim também. Temos que trabalhar juntos”.

Com 35 gols em 73 partidas internacionais pela seleção de seu país, a estrela turca tem experiência suficiente para prever dificuldades no jogo contra o Brasil. Ele, porém, não perde o otimismo. “Meu trabalho é árduo. Mas, temos jogadores que correm e lutam bastante. Eles me ajudarão na partida. Acredito que atuaremos como um time e sairemos com três ou um ponto”.

Fechado

A seleção da Turquia proibiu o acesso de jornalistas aos treinos, como uma forma de represália ao episódio envolvendo o espião da Seleção Brasileira, Gílson Nunes. A imprensa só pôde assistir aos primeiros dez minutos do treinamento, quando os jogadores fizeram apenas aquecimento. Depois do “caso Gílson’, todos os treinos, inclusive o de reconhecimento do gramado do estádio Munsu, foram fechados para os jornalistas.

Felipão está otimista e pede crédito de confiança

Silvio Barsetti

e Wagner Vilaron

Na última entrevista antes da estréia do Brasil no Mundial, o técnico Luiz Felipe Scolari demonstrou otimismo e disse que não havia mais nada a ser feito até o jogo com a Turquia.

Ulsan, Coréia do Sul

(AE) -Ele pediu um crédito de confiança ao torcedor brasileiro. Antes, ao terminar o treino no Ulsan College, preferiu voltar a pé à concentração, num trajeto de dois quilômetros. Caminhou ao lado do auxiliar Flávio Teixeira, o Murtosa. Os dois, em uniforme de treino, seguiram pela avenida larga que liga o local do treino ao hotel.

Mas Scolari está vivendo a ansiedade da estréia e isso ficou claro numa nova reação intempestiva assim que o coletivo terminou. À espera do restante do grupo, Ronaldo, Denílson, Edílson e Belletti batiam bola com Murtosa numa faixa reduzida do campo. De longe, o técnico ordenou a Murtosa: “Já é hora de parar.” Falou isso duas vezes. Não foi atendido. Na terceira, perdeu a calma. “Quantas vezes vou ter de repetir que é para encerrar”, gritou.

Constrangido, Murtosa ficou quieto e Ronaldo tentou justificar a brincadeira, explicando que se tratava apenas de um bate-bola informal.

Foi outro a receber uma bronca, inesperada pelo tom. Mais tarde, no hotel, o treinador fez um comentário sobre a preparação do time e seus trunfos para chegar à final do Mundial.

Voltou a dizer que Denílson continua sendo uma opção para entrar no decorrer das partidas e reconheceu que ainda falta alguma coisa para Ronaldo voltar a “explodir”. “Ele progrediu bastante no aspecto físico e no técnico, mas ainda precisa melhorar. Sinto que tem dificuldades no ritmo e na marcação.”

Para superar a Turquia, Scolari conta, sobretudo, com a experiência de Cafu. Ele vai completar o 111.º jogo pela seleção brasileira. Autor de cinco gols pela equipe, Cafu sente-se como um principiante para a estréia. “A sensação é a mesma; começar uma Copa do Mundo é igual para os mais jovens e para quem já disputou outras Copas”, disse o lateral da Roma, que ainda não sabe de que forma comemoraria um eventual sexto gol pelo Brasil. “Eu dava cambalhotas; agora não sei o que fazer.”

Mostrar serviço

Como se não bastasse a pressão de disputar a Copa do Mundo por um país que concentra no futebol seu espírito de nacionalismo, Rivaldo destacou mais um agravante para quem joga na seleção, sobretudo em sua posição: a camisa 10. “Não há dúvida que depois de ser usada por jogadores como Pelé, Zico e Rivelino, a responsabilidade nossa fica muito grande. Mas é uma honra para mim”, afirmou.

Caminhada árdua, mas nem tanto

Anselmo Meyer

Após três dias de Copa do Mundo, a data mais importante para os brasileiros se aproxima. Amanhã, a seleção entra em campo, para dar o primeiro passo rumo a uma conquista que somente ela pode alcançar: o penta. A incredulidade, no entanto, é imensa. Motivos existem. Passaram-se três anos e meio desde a estranha final com França – diga-se de passagem, equipe que perdeu um pouco da empáfia depois da derrota para Senegal -, quatro técnicos comandaram o escrete canarinho, dezenas de jogadores foram testados e grandes escândalos abalaram a confiabilidade do esporte mais querido no Brasil.

Embora hajam incertezas, Luiz Felipe Scolari vem desenvolvendo um trabalho sério e dedicado. E não adianta pessoas quererem minimizar a competência do futebol brasileiro. Sem dúvida, o “País do Futebol” é o maior favorito para esse Mundial. Se a equipe respeitar seus adversários, continuar se empenhando nas suas tarefas e ter a consciência de sua competência, não há seleção que possa tirar essa conquista, que teria um valor, apenas sentimental, muito grande para seu povo.

O jogo de amanhã contra a Turquia será, com certeza, o mais difícil da primeira fase. Além de ser a estréia, é o adversário mais qualificado que os comandados de Scolari enfrentarão. Na seleção turca, há que se ter cuidado com o atacante Hakan Sukur, considerado o maior jogador da história daquele país. Não se pode esquecer, porém, do jovem meio-campista Emre, companheiro de Ronaldo na Internazionale de Milão. Ágil, habilidoso e incansável, ele é promessa de preocupação para Scolari. Entretanto, o Brasil, como contra todos os adversários, é favorito.