Atenas – Claro que Ádria Rocha dos Santos, com sua quarta medalha de ouro paraolímpica, dez na carreira, foi a estrela, ontem, em Atenas. Mas Antônio Delfino, prata em Sydney, André Andrade (duas de prata em Sydney) e Maria José Alves (bronze em Atlanta e Sydney), todos nos 200m, em categorias diferentes, também brilharam. Os rapazes conquistaram o ouro paraolímpico – Zezé, o bronze.

Delfino perdeu a mão direita cortando cana no Piauí. Ficou decepcionado com a prata em Sydney. Ontem, estava vingado. “Deixei todos aqueles caras pra trás, cê num viu? Pois é. Todos para trás, fui deixando um por um. Hoje ninguém me pegava”, dizia Delfino, que ganhou uma casa para morar na periferia de Brasília. “É lá no bairro da Samambaia. Só não posso dizer quem me deu a casa. Vocês só vão saber quando eu chegar lá no Brasil e receber. Tá prontinha. É só botar a família pra dentro”, repetia Delfino, fazendo mistério.

A casa tem de ser grande. Delfino tem quatro filhos e pegou junto para criar os outros três da atual esposa. “Pedi a casa com laje forte”, brinca ele, que treina em pista de terra e carvão. Não reclama. “Estou feliz da vida.” Quem também estava feliz era André Andrade, ouro nos 200m, categoria T13, para deficientes visuais. André é gaúcho de Porto Alegre e agora treina em Presidente Prudente. Tinha o sonho de ser jogador de futebol. Agora, tem o sonho de conseguir índice para disputar os 200m numa olimpíada convencional. “Para isso ainda tenho de melhorar 2 segundos o meu tempo. Sei que é difícil. Mas não é impossível.”

Medalha de bronze, Maria José Alves, a Zezé, uma deficiente visual classificada como T12 (só enxerga um objeto a menos de cinco metros de distância), parecia ser a mais feliz. “Valeu como ouro, gente, como ouro!”, ela gritava agarrada ao guia Gerson Knittel, que como ela treina e vive em Joinville. “Estava escrito em algum lugar que eu ganharia o bronze. Então, foi só vir aqui e realizar o que estava escrito. Agora, é ir correndo para a Vila Olímpica para dar uns beijos no meu amor.”

O amor da Zezé, como poderia parecer ao final da prova, não é o guia Knittel. É o novato Júlio César Petto Souza, integrante da equipe de atletismo do Brasil nas Paraolimpíadas, deficiente visual como ela, e que estará na pista para tentar medalha nos 200m. “E eu vou estar aqui gritando para ele chegar na frente.” Já Roseana Ferreira dos Santos, a Rosinha, não conseguiu ir bem. Ela ficou em último no arremesso do peso para amputados e reclamou muito do regulamento, que a colocou para competir com atletas em condições mais favoráveis.