Era 28 de agosto de 2011 e Vasco e Flamengo realizavam mais um clássico carioca. À beira do gramado, Ricardo Gomes dirigia o time cruzmaltino quando começou a se sentir mal. Precisou ser carregado até uma ambulância e teve constatado um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Passou por cirurgia e ficou 21 dias internado, 15 dos quais no CTI. Ficou um bom tempo sem falar e com parte do lado direito paralisado.

Quatro anos depois, Ricardo Gomes voltou a ser técnico. Em agosto, foi convidado para dirigir o Botafogo com a missão de devolver o time à Série A do Campeonato Brasileiro. Cumpriu o desafio há três semanas, com três rodadas de antecipação. De quebra, levou o título.

Na última quarta-feira, após comandar um dos últimos treinos antes do fim da temporada, o técnico recebeu a Agência Estado para uma conversa no estádio do Engenhão, no Rio. Falou de sua recuperação e de futebol. Apesar do retorno à elite, reconheceu que o Botafogo “não foi espetacular”. E se disse feliz. “Graças a profissionais capacitados, eu voltei”.

Agência Estado – Por que a escolheu retornar aos campos pelo Botafogo?

Ricardo Gomes – Eu não escolhi, não. Recebi o convite e não podia negar. Foi a primeira vez que recebi um time na liderança. Tivemos uns problemas no início por causa da troca de jogadores, mas conseguimos encontrar soluções. O Jair Ventura (interino) continuou como meu auxiliar e ajudou bastante. Todo o trabalho desde o início do ano, com o René (Simões, ex-treinador), com o (Antônio) Lopes, e lá no início com o Carlos Alberto Torres, enfim, todos os departamentos do Botafogo foram extremamente profissionais.

AE – A sensação é de dever cumprido?

Ricardo Gomes – Sim, com certeza. Não fomos espetaculares, sabemos disso, mas fizemos bons jogos e classificamos com folga.

AE – E pessoalmente, como avalia?

Ricardo Gomes – Não poderia ser melhor. Ainda tenho algumas deficiências, não estou totalmente recuperado e não sei se vou conseguir. Tenho uma pequena afasia (perda da capacidade de linguagem) e a mobilidade ainda é um pouco complicada – não pelo acidente (AVC), mas por um joelho antigo, que dá muito trabalho. Estou fazendo de tudo para me recuperar, mas não vai ser fácil.

AE – Como você fez para ficar por dentro do futebol no tempo em que ficou afastado?

Ricardo Gomes – Na primeira parte eu foquei na minha recuperação total, não pensava em futebol, eu via só pela televisão. Televisão você não vê o jogo (com olhar analítico), é mais para um torcedor do que para um profissional. Foram assim nos dois primeiros anos, depois eu voltei a trabalhar como diretor no Vasco. Aí eu conversei com a diretoria porque eu achei que poderia voltar a ser treinador, que é o que eu gosto, que eu sei fazer melhor. Voltei pra fisioterapia, natação, musculação, muita fono, e melhorei bastante.

AE – Como você avalia o futebol brasileiro na atualidade?

Ricardo Gomes – Nosso futebol continua com bons jogadores, mas há uma perda (para o exterior) de jogadores muito novos. Você pega 2014 e fala em mudança drástica porque teve uma Copa do Mundo que deu no que deu. Eu acho que com clubes fortes temos seleções fortes, e com clubes fracos temos seleções fracas. A solução seria os jogadores ficarem nos clubes, mas qual a situação econômica deles com raríssimas exceções? A formação poderia melhorar, mas os jogadores saem muito cedo e há uma perda de identidade do nosso futebol. Estamos copiando o futebol europeu.

AE – E isso é ruim?

Ricardo Gomes – Não, não é. Temos de estar sempre muito bem informados. É pesquisa. Esquece o futebol, pesquisa em qualquer setor é na Europa ou no Brasil? No Brasil estamos começando, a Europa está muito à frente. Com o futebol não é diferente, em método de treinamento eles investiram muito mais do que nós. Temos de recuperar a maneira de jogar, com os nossos grandes jogadores do passado, é isso que nós perdemos. E não é de agora.

AE – Está gostando da seleção?

Ricardo Gomes – No último jogo fomos muito bem. A seleção brasileira depende dos clubes brasileiros – clubes fortes, seleção forte. Aí você coloca os melhores do Barcelona, do Bayern, do PSG, do Liverpool, mas não depende só deles. Olha o caso do Corinthians do Tite, que forneceu quatro jogadores à seleção. Há muito tempo que isso não acontecia. Isso é representativo. Tem como fazer, não esquecemos como fazer.

AE – Qual é a sua expectativa em iniciar a temporada na Série A?

Ricardo Gomes – Não vejo nada diferente. É a primeira vez que trabalho na Série B, que também é um bom campeonato, mas acho que o Botafogo não deveria estar. Assisti ao filme do Nilton Santos e é um espetáculo. A história do nosso futebol está ali.

AE – O que pretende fazer nas férias?

Ricardo Gomes – Não sei se vou tentar melhorar minha mobilidade, tenho de operar de novo o joelho. Não sei se vou curtir ou vou continuar nessa luta.

AE – Termina o ano feliz?

Ricardo Gomes – Sim e independente do futebol. Só tenho a agradecer porque conheci pessoas competentes e pessoas boas na minha recuperação, médicos, terapeutas, tive duas fonoaudiólogas de grande categoria. Eu não falava nada, e quando voltei pra vida depois do coma era só em francês ou em português de Portugal. Eu vim de longe, e graças a profissionais capacitados eu voltei. Não sou exemplo para ninguém no esporte, mas acho que para pessoas que estavam pensando em voltar a trabalhar foi legal. É possível superar qualquer tipo de acidente, vascular ou não. É possível, sim.