Os gestos de Nalbert, em Buenos Aires, e de Cafu, em Yokohama, se confundem na emoção dos torcedores brasileiros. Mas, no que diz respeito a estrutura e organização, o vôlei não quer ser comparado ao futebol.

Se nos campos e nas quadras os atletas do País são hoje exemplos de talento e superação, fora das quatro linhas a realidade dos dois esportes é bem diferente.

– O vôlei é administrado com orçamentos específicos que são rigorosamente cumpridos. A CBV foi transformada em empresa e é dividida em unidades de negócios que prestam contas do que fazem. No futebol, o dirigente pensa em contratar um jogador de R$ 5 milhões e depois vai ver como paga. No vôlei, se o Bernardinho pedir 100% de aumento, está fora. Não se administra com paixão – afirmou o presidente da CBV, Ary Graça.

Coincidência ou não, é cada vez maior o número de ex-técnicos do vôlei trabalhando em cargos executivos do futebol. O mais recente exemplo dessa tendência é a eleição de Radamés Lattari como vice-presidente geral do Flamengo. Ary Graça tem uma explicação:

– Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Os ex-técnicos não têm preparo intelectual na área administrativa, mas têm uma grande vivência do modelo do vôlei.

Embora tenha sido jogador do Botafogo e da seleção brasileira na década de 60, o dirigente não é muito a favor da tese de que ex-atleta tenha de presidir entidades esportivas. Seu mandato termina em dezembro de 2004.

– Um dos grandes erros deste país é dar a direção de hospitais a médicos. Médico entende de medicina, não de administração. A mesma coisa acontece quando entregam a administração de universidades a professores sem formação no assunto. Acontece o desastre que está por aí – dispara ele, que também é presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos Financeiros.

Para Ary Graça, o sucesso do vôlei brasileiro nas quadras e na praia não é fruto do acaso ou apenas de uma geração talentosa de atletas. Ele lembra que o esporte movimenta hoje R$ 300 milhões por ano, não deve impostos ao governo e já tem seus calendários prontos até o ano de 2008. E, ao contrário do que acontece no futebol, não há hipótese de não serem cumpridos:

– É claro que o talento faz a diferença. Mas como é que se chega ao talento? Só se houver uma estrutura capaz de absorvê-lo e moldá-lo. Não dá para ter 18 talentos numa equipe. É preciso ter condições de aprimorar os que são e de fazer com que os que não são cheguem a um nível alto de eficiência.

O próximo passo, após as Olimpíadas de Atenas, é abrir o capital da CBV e lançar ações na Bolsa de Valores. Isso, é claro, se as turbulências da economia internacional terminarem. Com a mão na taça e os pés no chão, o vôlei já estipulou o prêmio para os campeões mundiais: R$ 20 mil, mais de 20 vezes menos do que os US$ 150 mil dados pela CBF a cada pentacampeão. Em contrapartida, são raros os casos de jogadores de vôlei reclamando de salários atrasados. As exceções recentes, em sua maioria, defendiam as cores de clubes de futebol.

Zé Roberto elogia a ousadia

AE

Bernardo Rezende levou o Brasil ao tão sonhado título mundial. Antes dele, o técnico José Roberto Guimarães havia chegado ao ouro olímpico em Barcelona/92 e ao da Liga Mundial/93.

As comparações entre os dois times ou os dois técnicos é inevitável. “É apenas um pouco diferente. Não existia o líbero, mas acho que a velocidade das duas equipes é a mesma. A atual é apenas um pouco mais baixa do que aquela do ouro olímpico. Tecnicamente estes são melhores – velozes e com mais volume de jogo”, analisa Zé Roberto, o técnico do ouro olímpico.

Atualmente treinando o BCN/Osasco, Zé Roberto reconhece que a conquista desse título inédito serviu para coroar esta comissão técnica. “Desde que o Bernardinho assumiu o cargo (foi convocado no fim de 2000 e iniciou o trabalho no início de 2001) tem feito um bom trabalho. O Brasil perdeu recentemente a Liga Mundial, o grupo ficou um pouco abatido, mas conseguiu reagir. Um de seus objetivos principais era a conquista deste Mundial.”