Ulsan (AE) – Poupar os jogadores pendurados com cartão amarelo pode ser o pretexto que o técnico Felipão esperava para continuar com os testes realizados desde o dia em que assumiu o comando da equipe. Essa característica de modificar constantemente o time foi motivo de diversas críticas. Assim, desde a partida de estréia na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão, vitória por 2 a 1 sobre a Turquia, o treinador brasileiro procura manter a formação base.

Mas, no jogo de quinta-feira, às 3h30 (horário de Brasília), em Suwon, contra a Costa Rica, o terceiro pela fase de classificação do mundial, Scolari já deu sinais evidentes de que sua idéia é mexer em pelo menos três posições. O zagueiro Roque Júnior e o meia-atacante Ronaldinho Gaúcho, que têm um cartão amarelo cada, dariam lugar a Edmílson e Ricardinho. Há uma questão lógica nesse caso. Os jogadores que terminarem a primeira etapa com apenas um cartão entram na seguinte `zerados’. No entanto, se sofrerem a segunda advertência, terão necessariamente de cumprir suspensão automática no jogo válido pelas oitavas-de-final.

“Minha esperança é de que fossem zerados, apesar de não estar acostumado a receber cartões”, afirmou Ronaldinho.

Completaria a lista o lateral-esquerdo Júnior, candidato único à vaga de Roberto Carlos. O titular sentiu dores musculares na panturrilha esquerda e, de acordo com o médico da delegação, José Luiz Runco, o ideal é que não enfrente os costarriquenhos.

“Do ponto de vista médico, essa seria a decisão. Mas é importante deixar claro que o atleta não está doente e pode ficar à disposição. Essa é uma decisão que se toma consultando várias pessoas, inclusive o jogador”, afirmou o especialista.

Agradecido

O momento não poderia ser mais propício para Scolari retomar seus testes. Com o time classificado por antecipação para a segunda fase, quando começa a etapa eliminatória da competição, qualquer decepção com o rendimento desse ou daquele atleta testado não comprometeria a evolução da seleção no torneio. Mais: teria a desculpa de escalar os reservas não por uma questão técnica ou tática, e sim pela necessidade de preservar os pendurados. O treinador sabe que se decidir testar jogadores durante a competição pode ser alvo de protestos, uma vez que a falta de um time base foi motivo de reclamações tanto da opinião pública quanto da crítica especializada.

A `vedete’ é mesmo Ricardinho. Antes que o meia do Corin-thians desembarcasse na Coréia para ocupar a vaga de Emerson, cortado na véspera do primeiro jogo por causa de uma contusão no ombro direito, Scolari já falava dele como forte nome para a equipe titular. “Pode parecer estranho. Mas o Ricardinho, embora tenha sido o último a chegar, vem para jogar”, disse o treinador. Se for bem, a chance do meia permanecer no time é grande.

Problema

No entanto, pela reação dos atletas, Scolari vai ter de convencê-los a ficar fora da partida de quinta-feira. “Se depender de mim, vou jogar”, afirmou o zagueiro Roque Júnior, um dos nomes para deixar o time. Já o atacante Rivaldo, mesmo não sendo um dos possíveis substituídos, não ficou muito feliz com a hipótese de mudança. “Este ano já fui poupado muitas vezes”, afirmou ao se referir ao problema que teve no joelho. “Não quero mais isso!” O único que se mostrou favorável à decisão foi Denílson. Também pendurado, apontou o risco de ficar fora das oitavas-de-final como justificativa. “Acredito que isso (a decisão de poupar) possa acontecer mesmo, pois corremos o risco”, observou.

Chuva pode aumentar risco de contusão

Ulsan

(AE) – O tempo mudou em Ulsan. Pela primeira vez desde que deixou o Brasil para iniciar a fase de preparação para a disputa da Copa do Mundo da Coréia e do Japão, a seleção brasileira treina sob chuva. E o clima diferente, por incrível que pareça, ajudou jogadores e integrantes da comissão técnica a terem uma pequena recordação do Brasil. A névoa que pairou sobre o campo de treinamento do Ulsan College, o Mipo Field, lembrou a paisagem da Granja Comary, em Teresópolis, tradicional reduto da seleção brasileira.

Mas o que era motivo de contemplação para uns, preocupava outros. Como muitos atletas, sobretudo os que atuam na Europa, vêm de temporada desgastante, o risco de ocorrerem problemas musculares é maior. Por isso, treinar com o gramado molhado e mais pesado requer cuidados especiais. “Procuramos sempre realizar o mesmo trabalho. Mas como há a chance maior de um escorregão, que pode resultar em um estiramento, ficamos com um pouco de receio”, afirmou o volante Gilberto Silva.

E a preocupação é justificável. Como se não bastasse a simples preservação, a seleção brasileira, classificada por antecipação para a segunda fase, vai encerrar sua participação na primeira etapa do mundial na quinta-feira, contra a Costa Rica. “É importante que iniciemos a próxima fase, que é eliminatória, com todo o grupo inteiro, sem problemas de contusão”, disse o também volante Vampeta. “Mas que esse lugar ficou mesmo parecido com o campo de Teresópolis, isso ficou.”

Já para o médico da seleção, Rodrigo Lasmar, a mudança no clima não deve mudar a programação de treinamentos. “Isso não afeta em absolutamente nada a rotina de atividades que já está definida. Vamos continuar trabalhando da mesma maneira, faça sol ou chuva”, garantiu. (SB e WV)

Sem dó nem piedade

A seleção vai enfrentar a Costa Rica sem piedade e nenhum sentimento de solidariedade ao técnico da equipe da América Central, o brasileiro Alexandre Guimarães. Se possível, aplicará uma goleada no adversário. É o que prometem os jogadores da seleção: ignorar o fato de Guimarães estar lutando pela classificação de sua equipe.

“Se o Brasil chegar a 2 a 0 e esse resultado mantiver a Costa Rica na competição, o time de Luiz Felipe Scolari pode tirar o pé do acelerador?” A pergunta teve resposta rápida de Denílson. “Nada disso, se der, vamos atropelar a Costa Rica.” O atacante Ronaldo foi mais enfático em combater qualquer especulação a respeito da hipótese. “Não existe armação. Pelo menos na seleção brasileira, isso não vai existir”, declarou.

Dependendo do resultado da partida Turquia x China, que será disputada no mesmo horário do jogo do Brasil, a Costa Rica pode ser a segunda do Grupo C, mesmo perdendo, pelo critério de saldo de gols. “Não temos de tomar conhecimento de outros compromissos durante a nossa partida; isso não é problema nosso”, disse o zagueiro Lúcio. “O que posso desejar-lhes é boa sorte.”

O meia Ricardinho, provável titular no próximo jogo, também não vê lógica nesse eventual relaxamento. Ele afirmou que o resultado dos adversários não tem nenhum interesse e que nada vai mudar os objetivos da seleção. “Primeiro, terminar essa fase como líder , vencendo bem, e depois seguir caminho para conquistar a Copa. Fora disso, são situações paralelas e que a gente não pensa de forma nenhuma.”

Freio de mão

Mais uma vez, o técnico Luiz Felipe Scolari e seu auxiliar Flávio Teixeira, o Murtosa, resolveram abdicar do ônibus da delegação e, após o treino, voltaram a pé para o Hotel Hyundai. Não se incomodaram com a chuva em Ulsan e caminharam lentamente por quase três quilômetros, a distância entre o campo de treinos e a concentração.