Há três semanas, o Brasil é inundado pelas notícias do desaparecimento da jovem paranaense Eliza Samudio, ex-amante do goleiro Bruno, do Flamengo. O jogador é o principal suspeito de ter orquestrado o sequestro e a quase certa morte da modelo. O caso, apesar de suas aberrações, traz o futebol para o centro do debate sobre o comportamento humano. E encerra definitivamente, e de maneira trágica, o “romantismo” da vida pública das estrelas do esporte. A “rebeldia”, que depois virou “transgressão”, agora virou crime mesmo.

O “caso Bruno” trouxe à tona um mundo escondido do futebol. Um mundo repleto de dinheiro, de excessos, de pessoas que gravitam em torno dos jogadores e que acabam se envolvendo em confusões. O goleiro não aparece nas manchetes pela primeira vez – já tinha sido acusado de organizar uma orgia em Minas Gerais, e se notabilizara pela declaração “quem nunca saiu na mão com uma mulher”, que deveria servir como defesa do amigo Adriano, hoje na Roma. Num passado distante, o caso de Bruno chocaria ainda mais a sociedade. Nos anos 1940, o Brasil conheceu seu primeiro jogador “popstar”. Bonito, inteligente, com bom trânsito na sociedade e ainda artilheiro, Heleno de Freitas ganhou fama em campo e fora dele – principalmente com as mulheres. Sua vida amorosa foi tão rumorosa quanto seus gols. E por conta de sua efervescência social, Heleno viu sua carreira definhar.

Ele teve sífilis, contraída em uma relação sexual. Mal cuidada, a doença atingiu níveis terríveis, que acabaram levando-o à loucura. Apenas três anos depois de ter seu nome pedido pelos jornalistas para a Copa do Mundo de 1950, Heleno de Freitas foi internado em um sanatório, falecendo em 1959.

E Garrincha? Com um talento especial, Mané driblou o mundo e virou gênio com a bola nos pés. Seu jeito doce e seu ar infantil fez com que ele fosse tratado como criança pelos amigos e pelas mulheres. Ninguém percebeu – ou ninguém quis perceber – que Garrincha era alcoólatra, a doença que o levou aos 49 anos (mas com a aparência de um homem de 70).

Já Almir, o Pernambuquinho, tinha fama de brigão, tanto dentro, quanto fora de campo. Protagonizou a maior batalha campal já vista em um estádio de futebol brasileiro, na final do Campeonato Carioca de 1966, quando jogava no Flamengo. Quando continha os nervos, era tão brilhante que era um dos poucos capazes de substituir Pelé quase ao mesmo nível, como no Santos bicampeão mundial em 1963. Morreu com 35 anos, em uma briga de rua.

Almir, Garrincha e Heleno foram gênios, mas não conseguiram ganhar sozinhos o jogo da vida. Bruno, em contrapartida, pode ter interrompido a vida de outra pessoa.