Lucimar do Carmo
Johelson negou as acusações
e entrou com uma
queixa-crime contra Cidão.

Uma nova denúncia de corrupção comprometeu definitivamente a cúpula da Federação Paranaense de Futebol no ?caso Bruxo?. O árbitro José Francisco de Oliveira, o ?Cidão?, citado como membro da ?máfia do apito?, envolveu Johelson Pissaia, o braço-direito de Onaireves Moura, no esquema de venda de resultados.

Cidão, que mora na Inglaterra, concedeu entrevista por telefone à Rádio CBN. E revelou detalhes de um suposto esquema ilegal que teria a participação, além de Pissaia, do departamento de árbitros da entidade.

Cidão disse que em quase todos os jogos que apitava era incumbido por Pissaia de trazer-lhe um envelope. ?Toda segunda-feira levava o envelope na casa dele, na Vila Hauer. Eu achava esquisito e perguntava o que era. Ele respondia que era coisa dele?, falou o árbitro, que ficou famoso ao assinalar um gol do Atlético num chute que foi para fora, em partida contra o Império do Futebol, no Estadual-05. Cidão foi um dos seis árbitros citados pelo colega Evandro Rogério Roman como membro do esquema de venda de resultados.

Os sorteios que determinavam quem apitava cada partida não passavam de encenação, disse Cidão. Valdir de Souza, diretor de árbitros entre maio de 2004 e o final de agosto de 2005, receberia ordens diretas de Pissaia.

?Nunca houve sorteio. Eu sabia o jogo que ia apitar 10 ou 15 dias antes. Algumas vezes, o Johelson ligava da casa dele para o Valdir e dizia: O Cidão vai apitar tal jogo, tal dia. Eu só escutava: tá fechado?, declarou.

Segundo o árbitro, Pissaia não chegou a solicitar diretamente o favorecimento a este ou aquele clube. ?Mas ele insinuava, ficava no cerca-lourenço, dizia ?sabe como é…?. Eu sempre estava de olho nele, se me pedisse algo voava no pescoço dele?, disse Cidão.

Para Cidão, o ?Bruxo? – personagem responsável por intermediar a venda de resultados – é Pissaia. ?Não sei o dos outros, mas para mim o bruxo é o Johelson. Nunca vou esquecer este nome. Ele brincou comigo. Eu tenho coragem de falar, se outros tiverem, que façam o mesmo?, detonou.

Ao saber das declarações de Pissaia, que em depoimento ao TJD disse que Cidão tinha mágoa por não ter sido protegido no caso do ?gol que não foi gol?, o árbitro reagiu. ?É bobagem. Assumi aquele erro e os maiores juízes do futebol brasileiro me defenderam?, rebateu.

Diretor deve ser indiciado também

Johelson Pissaia deve se tornar o mais novo indiciado no inquérito que o auditor Octacílio Sacerdote Filho entrega hoje à Procuradoria do Tribunal de Justiça Desportiva. As denúncias de José Francisco de Oliveira reforçam algumas suspeitas que já recaíam sobre o diretor administrativo da FPF.

Sacerdote já havia solicitado a conta do telefone celular que a entidade forneceu para Pissaia. Há registros de mais de 40 ligações daquele número para o ex-diretor de árbitros Valdir de Souza, que mora em Francisco Beltrão. Embora o contato entre os dois fosse justificável por suas funções, o auditor estranhou o grande número de ligações.

O presidente do Engenheiro Beltrão, Luiz Linhares, afirmou ao TJD que Pissaia lhe pediu para investir no empreendimento Top Avestruz, à época com participação do presidente Onaireves Moura. Linhares disse que investiu R$ 10 mil, alegando que se tratava apenas de uma aplicação financeira sem ligação com o futebol.

O auditor também soube da existência de um documento protocolado na FPF, no qual funcionários da tesouraria da entidade teriam denunciado a Onaireves Moura o suposto envolvimento de Pissaia no ?caso Bruxo?. O diretor teria reagido e ameaçado pedir uma acareação judicial com os acusadores. ?Pedi à FPF este documento, mas até agora não recebi?, disse Sacerdote.

O auditor confirmou ter ouvido ?comentários? indicando que Pissaia possuiu dois números de CPF. O site da Receita Federal atesta que há um registro em nome de José Johelson Pissaia e outro no de José Joelson Pissaia – sem o ?H?.

No inquérito a ser entregue hoje, Sacerdote irá indiciar pelo menos nove pessoas: os árbitros Carlos Jack Rodrigues Magno, Amoreti Carlos da Cruz, Antônio de Oliveira Salazar Moreno, José Francisco de Oliveira (?Cidão?) e Sandro César da Rocha, denunciados na terça-feira por Evandro Rogério Roman; Valdir de Souza e Antônio Carvalho, que eram presidente e vice da Comissão de Arbitragem da FPF; e os dirigentes Silvio Gubert, do Operário, e Genezio Camargo, do Foz do Iguaçu – este último confessou ter pagado suborno a Cidão num jogo da Série Prata do ano passado.

Contra-ataque é uma queixa-crime

Uma queixa-crime por calúnia e difamação foi a resposta de Johelson Pissaia às acusações do árbitro José Francisco de Oliveira, o ?Cidão?. O homem de confiança de Onaireves Moura rebateu as denúncias de que recebia envelopes estranhos de clubes do interior, creditou o fato a uma mágoa pessoal de Cidão e pediu afastamento temporário de suas funções na Federação Paranaense de Futebol.

O diretor administrativo da FPF chamou Cidão de ?débil mental?. ?Nunca influenciei escalas de arbitragem, de profissionais ou amadores. Ele quer sujar meu nome?, defendeu-se, negando que alguma vez interferiu para escalar o árbitro.

Pissaia lembrou que uma de suas filhas morou alguns dias com Cidão em Londres, onde o árbitro vive hoje. ?Por ter feito um favor, exigiu que eu fizesse quantos ele quisesse. Mas nunca poderia rasgar um ato da presidência da Federação?, falou Pissaia, citando o afastamento do árbitro logo após o episódio do ?gol que não foi gol?, no jogo Atlético x Império, no início do ano. ?Depois que foi absolvido no STJD, falei para ele vir fazer os testes físicos. Luder (assistente naquela partida) fez, mas Cidão entrou com processo e disse que iria abrir a boca. Ele tem muita mágoa de mim?, justificou.

Segundo Pissaia, os únicos envelopes que recebeu de Cidão continham dinheiro enviado pela filha desde a Inglaterra. ?É uma pessoa sem escrúpulo, valente e que anda armada. Ele já havia ameaçado dar entrevistas para me arrasar?, falou o dirigente, que pediu afastamento de uma semana para ?esfriar a cabeça?.

À tarde, Pissaia entrou com a queixa-crime contra Cidão no 6.º Dsitrito Policial, dizendo-se profundamente abalado. Ele entrou com carta rogatória solicitando que o árbitro seja obrigado a voltar ao Brasil para depor.

Valdir de Souza, diretor de árbitros citado por Cidão, também se defendeu. Ele alegou que as escalas eram realizadas na FPF, com a presença de testemunhas. ?Nunca ouvi falar de a escala vazar 15 dias antes. A norma não era essa. Se alguém fez isso, não fui eu?, afirmou.

Moura

O presidente da FPF garantiu que não irá poupar ninguém das investigações – nem mesmo seu antigo parceiro Pissaia. Onaireves Moura enviou ofício aos clubes profissionais e amadores solicitando que se manifestem se souberem de algum ?desvio de conduta? por parte do diretor administrativo. As respostas, que devem ser entregues até às 18h de hoje, serão encaminhadas ao TJD. Moura adotou o mesmo procedimento para apurar denúncias contra árbitros, mas apenas o Foz do Iguaçu enviou informações importantes.

Escala da Prata sem bruxaria

Sem os suspeitos da ?bruxaria?, a comissão interina de arbitragem da FPF definiu ontem os apitadores da 2.ª rodada da segunda fase da Série Prata.

Participaram do sorteio cinco árbitros – entre eles Ito Dari Rannov e Sandro Schmidt, que estavam entre os 12 ?escudeiros? de Evandro Rogério Roman no depoimento que entregou a lista dos acusados de compor a ?máfia do apito?. Ito vai dirigir Platinense x Arapongas, e Sandro, Cascavel x Maringá.

Os outros designados são Cleivaldo Bernardo, que apita Prudentópolis e Umuarama, e Antônio Denival de Morais, mediador de Toledo x Operário. O quinto nome na ?cumbuca? foi o de Nilo Neves de Souza Júnior. Ele só participou do sorteio para o jogo Cascavel x Maringá.