Três jogos, três derrotas. Por mais pacientes que sejam torcedores e até mesmo dirigentes do Paraná Clube, o rendimento do time sob comando de Luiz Carlos Barbieri é preocupante. Sábado, em Campinas, o Tricolor não conseguiu passar pela frágil Ponte Preta, perdeu por 1×0 e consolidou o pior momento no Campeonato Brasileiro – foi a quarta derrota consecutiva. A pressão sobre a comissão técnica paranista é cada vez mais forte e pode ficar insustentável, caso não vença o Brasiliense, na quarta-feira, no Pinheirão.

Para Barbieri, o jogo representava um reencontro e um desafio. Reencontro porque estava de novo em Campinas, onde fez grande parte da carreira como jogador e iniciou como treinador. E um desafio porque ele sabia da necessidade da vitória, mesmo jogando fora de casa – após dois jogos no comando do Paraná, Barbieri já se sentia ameaçado pelas derrotas. Os jogadores que entraram em campo, os mesmos que levaram o Tricolor à terceira posição no Brasileiro, também se sentiam desafiados, porque a diretoria contratou seis reforços durante a semana e alguns se transformaram em ameaças para os titulares, como Aderaldo, Rafael Muçamba, Thiago Neves e André Dias.

Com tudo isso, era de se esperar um Paraná agressivo desde os primeiros minutos. E foi o que aconteceu – os tricolores tomaram conta do congestionado meio-de-campo e buscaram o gol no início da partida. Borges teve duas boas chances – uma concluindo com perigo e outra deixando André Dias livre. O centroavante errou e Neto perdeu no rebote. Era um desperdício imperdoável. E não seria o único lance incrível perdido no jogo.

Depois de dez minutos de pressão paranista, o jogo caiu brutalmente de produção. A queda era proporcional à inoperância de Thiago Neves, que até começou bem, mas depois desapareceu. A Ponte Preta não era perigosa – só chegava em falhas do Paraná, como quando Marcos quase fez gol contra. A torcida só se manifestou (e de forma violenta) quando um torcedor atirou um copo plástico no assistente Ênio Ferreira de Carvalho. O cidadão acabou agredido por outros torcedores e foi detido logo depois. Ele certamente não viu um dos lances mais bizarros do Brasileirão: após receber cruzamento da esquerda, o centroavante ponte-pretano Tico (formado nas categorias de base do Paraná) perdeu um gol incrível. Sem goleiro, a menos de um metro da trave, de frente para a meta, ele conseguiu tocar por cima.

O Paraná voltou com alteração no segundo tempo – Sandro, fazendo sua estréia, entrou no lugar de Thiago Neves. A Ponte voltou com duas e a entrada de Izaías mostrava que os donos da casa partiriam para cima. E o posicionamento ofensivo da Macaca surtiu efeito logo a sete minutos, quando Tico, aquele que perdeu um gol inacreditável, subiu sozinho para cabecear e abrir o placar. Esperava-se que a partir dali o Tricolor se mandasse para frente, mas isso não aconteceu.

Muito pelo contrário. Viu-se um time amarrado, sem criatividade (Sandro não luziu), e principalmente inofensivo. Em quase quarenta minutos, o goleiro Lauro não precisou fazer uma única defesa. Não que o Paraná não tivesse arrematado – mas nenhuma bola passou perto do gol campineiro. Em dado momento, Barbieri desistiu até mesmo de passar instruções. Sem ameaçar, os visitantes facilitaram a vida da Ponte, que venceu a segunda consecutiva e se reaproximou das primeiras posições. Para a torcida paranista, a tensão cada vez maior de ver seu time parecer uma nau sem rumo.

Barbieri tem a confiança da diretoria

A diretoria prega calma. Apesar do mau momento o Paraná não venceu nas últimas seis rodadas , a ordem é cautela. Ainda mais porque o Tricolor enfim volta a Curitiba nesta semana, enfrentando o Brasiliense quarta,

no Pinheirão. O alto aproveitamento na ?casa? paranista é a esperança da recuperação no Campeonato Brasileiro.

O presidente José Carlos Miranda disse que a culpa não é do técnico Barbieri. Ele afirmou que o treinador precisa de tempo para trabalhar. Mas deixou no ar que o jogo contra o Brasiliense é decisivo. Em caso de nova derrota, a situação de Barbieri ficará insustentável. Hoje haverá uma reunião da diretoria com os jogadores, que serão cobrados pela queda de rendimento da equipe.

O diretor de futebol Durval Lara Ribeiro estava tranqüilo, mesmo chateado pelo resultado. ?Nessas horas, a gente precisa ter calma. Estamos apoiando o trabalho da comissão técnica, confiamos no Barbieri e temos certeza que ele está fazendo a parte dele. Mas tem momentos em que as coisas não dão certo.

Além disso, este Brasileiro é muito complicado, e todos os times tiveram oscilações?, avaliou.

O dirigente aposta na fórmula que funcionou em 2003. ?Naquele ano, nós também tivemos um período de derrotas sucessivas. Mas quando vencemos de novo um jogo, o time embalou e seguiu bem na competição até o final?, lembrou. ?Jogando em casa, com apoio do nosso torcedor, poderemos iniciar a recuperação.

Basta uma vitória?, resumiu Ribeiro.

Números

Apenas o São Caetano é pior que o Paraná no segundo turno. O Azulão perdeu suas cinco partidas, enquanto o Tricolor teve um empate e quatro derrotas. Em contrapartida, o rendimento da equipe jogando no Pinheirão é muito bom. Foram nove partidas, cinco vitórias, três empates e apenas uma derrota (na primeira rodada, para o Goiás), num aproveitamento de 66,67%.

Time perdeu a pegada

O encanto se quebrou. Além das más atuações e da fragilidade no comando técnico, uma das principais virtudes do Paraná Clube no Campeonato Brasileiro desapareceu. Ao contrário do que sempre se viu no Tricolor, os jogadores não demonstram mais o sentido de grupo que foi decisivo na campanha que colocou a equipe na terceira posição. Os jogadores distribuem entre si a responsabilidade dos maus resultados, enquanto o time vai caindo vertiginosamente na tábua de classificação.

A declaração que resume o mau momento paranista foi do zagueiro Aderaldo, que teve atuação apagada. ?Não podemos falar nada. Tivemos chances de marcar, mas não fizemos. Aí fica difícil?, atirou o jogador, passando a ?bronca? para os jogadores de ataque. O estreante Sandro, que teve dificuldades, preferiu alegar a falta de treinamentos. ?Eu só trabalhei uma vez com o restante do elenco. Não dava para fazer muita coisa?, afirmou.

O técnico Luiz Carlos Barbieri, aparentando tranqüilidade, irritou-se com as críticas internas. ?Eu já falei para os jogadores que eles não podem falar nada no final do jogo, porque todo mundo sai com a cabeça quente e fala o que não deve. Vou reunir o grupo de novo e falar que isso não pode mais acontecer?, reclamou.

Ele garantiu que não há problemas com o elenco e que só o trabalho pode tirar o Tricolor desta situação. ?Estamos fazendo tudo certo, os trabalhos são ótimos e o grupo é muito bom. O Paraná tem tudo para evoluir?, afirmou o treinador.

CAMPEONATO BRASILEIRO
Súmula
Local: Moisés Lucarelli (Campinas-SP)
Árbitro: Jamir Carlos Garcez (DF)
Assistentes: Marrubson Mello Freitas e Ênio Ferreira de Carvalho (DF)
Gol: Tico 7 do 2º
Cartões amarelos: Rafael Ueta, Everton, Danilo, Romeu (PP); Neto, Aderaldo (PR)
Renda e público: não divulgados

PONTE PRETA 1×0 PARANÁ CLUBE

Ponte Preta
Lauro; Luciano Baiano (Rissut), Galeano, Preto e Bruno; Ângelo, Everton, Rafael Ueta (Izaías), Elson e Danilo (Romeu); Tico. Técnico: Estevam Soares

Paraná
Darci; João Paulo, Aderaldo e Marcos; Neto, Mário César (Maicosuel), Rafael Muçamba, Thiago Neves (Sandro) e Vicente; André Dias (Wellington Paulista) e Borges. Técnico: Luiz Carlos Barbieri