Pesquisa inédita mostra que a Copa do Mundo da Rússia, por todo o sucesso que tem tido nas ruas das cidades-sede, não mudou a indiferença da população a respeito do esporte.

Segundo levantamento feito pela unidade de pesquisas da Superjob, maior empresa de oferta de empregos do país, 60% dos russos não se interessam por futebol.

Desses, 76% afirmam que o Mundial não lhes alterou a percepção sobre o esporte, e 19% concordam que a Copa em casa lhes despertou atenção momentânea —5% não responderam.

No cômputo geral, 7% se declaram fãs de futebol, tendo time e indo a estádios com frequência. Já 11% falam ter interesse genérico, indo eventualmente a estádios, e 19% só acompanham notícias de campeonatos internacionais importantes —Copa, Eurocopa, Liga dos Campeões.

Nesse levantamento estimulado, foram ouvidas 2.500 pessoas nos dias 27 e 28 de junho, ao fim da primeira fase da Copa.

A Superjob faz seus questionários com estratificação por região, idade, sexo e renda de forma eletrônica, por meio de seu site e de seu aplicativo. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

Outra sondagem mostra que Vladimir Putin não parece ter tido ganho de imagem na fase inicial do Mundial. Para 60%, sua percepção do presidente russo permaneceu inalterada.

A Copa pode ser “algo negativa” ou “algo positiva” para Putin para idênticos 17%. Aqui foram ouvidas 1.600 entrevistados nos dias 28 e 29 de junho, também com opções de múltipla escolha.

O Superjob também procurou saber algo sobre a imagem do Brasil entre os russos.

Não incluiu nenhuma pergunta sobre o incidente do assédio de turistas do país a uma russa em Moscou porque o tema não surgiu na pesquisa espontânea sobre o Brasil.

“Não foi algo estatisticamente relevante aqui, pelo visto”, afirmou Alexei Zakharov, 49, fundador do Superjob.

O país é associado majoritariamente a Carnaval e festa (44%), além de futebol (39%). Num bloco intermediário estão o calor (14%), o café (12%) e as novelas (8%) —nos anos 1990, eram mania nacional, mas agora estão em decadência.

Registros negativos são menos citados: russos pensam em pobreza (4%) e crime (2%) ao ouvir falar de Brasil.

Curiosamente, esses índices empatam com a citação a “macacos selvagens” (4%).

Isso não tem a ver com animais, mas sim com uma popularíssima comédia soviética de 1975, “Olá, Eu Sou sua Tia!”.

Nela, um impostor se vestia de mulher e se apresentava assim: “Olá, sou sua tia Charlie do Brasil, onde as florestas têm muitos, muitos macacos selvagens”.

Nesse levantamento, foram ouvidas mil pessoas ao longo da primeira semana da Copa.

No quesito valores, 1.600 russos consultados em 20 e 21 de junho consideram que os brasileiros extraem sua felicidade da família (34%), do amor (26%), da saúde (23%) e da liberdade (22%).

Significativamente, o item liberdade foi avaliado de outro modo em pesquisas similares. O russo crê que esse valor é mais central para americanos (27%), mas não para chineses (5%) ou para si mesmos (11%).

O Brasil é visto, em sondagem feita um dia antes com também 1.600 pessoas, como um país amigo da Rússia. Muito amigo para 18%, talvez amigável para 46%. Só 2% suspeitam que seja um inimigo, enquanto 1% tem certeza disso.

Apesar dessa boa imagem, o Brasil é só o décimo num ranking espontâneo de países para onde os russos gostariam de ir em férias. Estados Unidos e Itália lideram, com 10% de citações.

Não mudariam para o Brasil, se pudessem, 9% dos entrevistados, enquanto 27% acham que “talvez não”. Outros 22% se recusam a sair da Rússia, enquanto 13% gostaram da ideia, e 29%, “talvez sim”.

Aqui, o perfil desse imigrante em potencial é jovem (16-24 anos), homem e com renda um pouco mais alta (R$ 2.100-R$ 2.700 mensais).

SITE E APLICATIVO

A reportagem teve acesso exclusivo a essas pesquisas da Superjob, que faz seus questionários por forma eletrônica a um conjunto de cadastrados em seu site e aplicativo.

“Temos uma equipe com sociólogos fazendo esse trabalho há dez anos, e atendemos basicamente a mídia, anunciantes e alguns institutos de pesquisa”, afirma Alexei Zakharov, o dono da empresa.

O método visava baratear os custos de pesquisas, algo central no maior país do mundo. Naturalmente, tem limitações semelhantes às enquetes telefônicas, mas é eficaz para apontar tendências. Mas não é comparável a enquetes comuns feitas pela internet porque usa diretamente o banco de dados de usuários do serviço, que em 20 anos atendeu a 25 milhões de russos.